quarta-feira, setembro 30, 2009

Cobertura em Honduras não vai além do muro da Embaixada


A crítica começou segunda-feira numa rodada de cerveja com três ex-professores e tomou corpo ontem, quando comecei a ler a coleção da Unesp sobre as revoluções guatemalteca e nicaraguense: a imprensa não tem ido além dos muros da Embaixada brasileira em Honduras e a cobertura do golpe contra Manuel Zelaya - o primeiro deflagrado em tempos de crise financeira -, é limitada à capital do país, Tegucigalpa.

Com a economia ainda abalada - o que acentuou a crise no jornalismo impresso -, poucos jornais têm financiado repórteres no exterior. O resultado é uma cobertura uníssona, baseada nas agências de notícias e nas informações do Itamaraty. Nos últimos dias, pouco foi visto sobre a tensão política fora da Embaixada do Brasil, que abriga o presidente deposto e seu inseparável chapéu branco.


Nem o mais otimista publicitário do Governo poderia imaginar que a imagem de um simples quadro com uma arara azul e um "Brasil" bem grande escrito de amarelo, debaixo da frase "Se viajar é sua paixão, o Brasil é seu destino" poderia correr o mundo, como foi nos últimos dias com as intermináveis imagens dos pró-zelayas acampados na embaixada.

Nada além de Tegucigalpa

Em artigos reunidos em seu livro Conexão Manhattan, Lucas Mendes, que cobriu América Central quando repórter da sucursal NY da Rede Globo, contou as situações desumanas as quais se submetia para contar como os golpes, contragolpes e revoluções afetavam a vida da população, dentro e fora das capitais.

Para tanto, Lucas, para mim um dos mais brilhantes textos da televisão brasileira, quase viu sua cobertura da queda de Somoza fugir de controle em Jalapa, cidade ao extremo norte da Nicarágua, quando o carro de reportagem furou o pneu e a equipe teve que dormir numa pensão rodeada de sandinistas.

Honduras tem população estimada de quase 8 milhões, nos quais quase 1,5 milhões vivem na capital Tegucigalpa, centro dos conflitos. O país é dividido em 18 departamentos, que se desdobram em 298 municípios. Hoje e, pelo jeito, até o desfecho do empasse político na país centro-americano, pouco se sabe o quanto o golpe tem afetado a vida da população camponesa e de cidades afastadas da capital que não estão diretamente ligados às manifestações.

Enquanto isso, Zelaya descansa no sofá da embaixada para o deleite dos fotógrafos das agências.