domingo, julho 11, 2010

Realidade pulp

Se Raymond Chandler, Dashiell Hammet ou Chester Himes estivessem vivos, não seriam pulp ficcionistas. Seriam repórteres de polícia em Minas Gerais. A frieza e requintes de crueldade de três assassinatos recentes, nas aparentes pacatas serras de Minas, exigiram da imprensa um exercício descritivo digno das mais virulentas e violentas ficções noir norte-americanas.

Os crimes são roteiros que outrora fariam brilhar os olhos de John Huston, que dirigiu Falcão Maltês de Hammet, ou deixaria o eterno Philip Marlowe, detetive protagonista das obras de Chandler, de cabelos em pé.

O termo pulp, nasceu no início de 1900 e cresceu pós-crise de 1929. As revistas eram feitas com papel de baixa qualidade, a sobra da "polpa" de celulose. Portanto, a expressão "ficção pulp" foi usada para qualificar histórias de qualidade menor ou absurdas, em maioria policiais ou de ficção científica.

"Amor e morte"(Chandler, 1959)

A primeira barbaridade não seria facilmente desvendada milagrosamente por Humphrey Bogart - eterno interprete hollywoodiano dos detetives.

O personagem: o pintor Marcos Antunes Trigueiro, casado e pai de cinco filhos.
Perfil: calado, de olhar baixo e boa aparência
Crime: Matou cinco mulheres, depois de estuprá-las, todas abordadas no Bairro Industrial, em Contagem, onde ele morava.
Histórico: Traz desde o início de sua história as marcas da violência. Espancado pelo pai, dormiu ao relento e sobreviveu com sobras de comida. Cultivou relacionamentos amorosos conturbados, com vários filhos e casamentos.



"Um jeito tranquilo de matar" (Himes, 1959)

O segundo crime, nem o descritivo em minúcias Chester Himes, que em seu período de prisão (1929-1935) escreveu seus primeiros contos, poderia conceber. O nome que a imprensa tachou o grupo de assassinos, "bando da degola", é do feitio de Himes, que sempre denominou seus personagens com substantivos comuns tornados próprios: "Jones Coveiro", "Ed Caixão"...

Personagem: Bando da Degola
Perfil do líder: Transformava amigos em comparsas. Sangue-frio e espírito sádico
Crime: Esfaqueou duas pessoas, que foram vítimas de chantagem. Depois de mortos, foram decapitados e tiveram os dedos arrancados. Os corpos, carbonizados.
Histórico: Cativante, morador do Bairro Sion, garoto mimado e de boa família. No apartamento de Flores, foram encontrados filmes com cenas de decapitação de personagens, além de revista sobre a polícia secreta nazista.



"A maldição do dinheiro" (Himes, 1957)

O terceiro caso não demorará para ser rascunho de livros sensacionalistas. A história é sensacionalista. São vários roteiros que se bifurcam, de final tenebroso:

Personagem: Bruno
Perfil: Agressivo, com passagens anteriores pela polícia. Instável, dentro e fora dos gramados.
Crime: Acusado do desaparecimento da ex-amante Eliza Samúdio. Testemunhas confessam que o crime aconteceu em seu sítio, palco de orgias e denúncias de agressão anteriores. Os restos do corpo foram jogados para 11 cachorros que tomam conta do sítio.
Histórico: Nasceu em região pobre da grande Belo Horizonte. Já foi detido e prestou depoimentos por agressão, orgias e direção em alta velocidade. Ganhava em torno de R$ 200 mil em salários no Flamengo - clube que o preparava para ser um dos maiores ídolos da história. Obrigou Eliza Samúdio a tentar práticas abortivas e negou paternidade por míseros R$ 3 mil de pensão.


O perigo anda à espreita. E não temos mais Humphrey Bogart.

(os detalhes dos crimes vocês podem ler nesta matéria do Estado de Minas)

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