segunda-feira, dezembro 12, 2011

114 coisas que fiz em BH


Já fui atendente de lan house na Savassi. Não perdi o sotaque. Entendi que “garrado” pode significar várias coisas, inclusive antônimas. Expliquei mais de 114 vezes onde fica Ilicínea. Corri na Praça da Liberdade, na barragem Santa Lúcia, no Parque Municipal, atravessei andando o viaduto de Santa Tereza sozinho depois das 2h, desci Bahia e subi Floresta, vi o dia amanhecer de cima da Serra do Curral e anoitecer sentado na Praça do Papa. Vi a cidade de cima várias vezes. Nunca fui assaltado. Morei no Barro Preto e, embora hoje more em cima, fui duas ou três vezes, no máximo, na Feira de Artesanato da Afonso Pena.

Comi tropeiro do Dondinho, torresmo do Orlando, macarronada do Bolão, mexido do Chopp da Fábrica, pirata do Marcinho, omelete do Rei do Omelete, batata com bacon do Balaio, filé à cubana do Lucas, feijoada do Jorge Americano, pizza do Cardoso, empanada do Pizza Sur, costela do Fogo de Chão, picanha da Adega do Sul e juntei pratinhas para comprar um marmitex do Mercado Novo. Nunca atrasei o aluguel. Já me chamaram de Sorín e me confundiram com Loco Abreu. Joguei futebol na Toca da Raposa. Jogo futebol toda semana e marco gols. Ainda não comprei um contrabaixo, nem um iPhone, mas saí para pesquisar preço várias vezes.

Já vi Chico Buarque no Palácio das Artes, Slayer no Chevrolet Hall, João Donato e Egberto Gismonti na Praça do Papa, Bituca em todas as casas possíveis, Iron Maiden e Ozzy no Mineirinho e conversei com John Pizzarelli sobre amenidades no Conservatório. Vi, às terças, o genial Nenem ao lado de Beto Lopes naquele inferninho da Timbiras. Assisti Chico Amaral no Centroequatro e uma Jam com Toninho Horta outros ases e alguns curingas no Godofredo. Já fui à gafieira e em show de death metal no Armazém, de trash metal no Lapa e de glam rock no Matriz. Já fui em show para agradar amigo. Pedi autógrafo para o Ruy Castro e fiquei na fila para ver uma palestra do Luis Fernando Veríssimo, que não falou quase nada.


Assisti Cruzeiro e Atlético no Mineirão e sei a falta que faz. Comi o tropeiro do Mineirão e sei a falta que faz. Vi, à minha frente, o Coelho dar um safanão no Kerlon Foquinha. Vi o Flamengo perder e ganhar. Levei bolada na final da Superliga e entrei em briga de Flamengo e Boca Juniors na Liga das Américas de Basquete. Perguntei sobre o caso de doping ao Cesar Cielo e levei uma patada. Fiz uma jogadora de vôlei chorar ao revelar que seu time tinha sido eliminado. Depois, fiz as contas, e o time ainda tinha chance. Fiz pergunta besta em coletiva. Ajudei Itamar Franco a subir no carro de som e vi uma mulher desmaiar ao ser beijada no rosto pelo Aécio. Voltei de Santa Tereza trocando as pernas, me esqueci de algumas noites anteriores. Fiquei bêbado no Maleta, no Clube da Esquina.

Rezei na Igreja da Boa Viagem e fiz promessa na de São Sebastião.

Conheci o amor da minha vida, Mariana. Levei-a para jantar no Atlântico e dividi com ela um PF no Casão. Fiz faculdade. Fiz amigos, alguns que tenho certeza que vou levar para a vida toda. Já tomei o cafezinho do Nice e já bebi mais de 114 cafés no Café Kahlua – o último, um delicioso Araponga, neste minuto.

Me arrependo de umas 114 coisas que fiz e me orgulho de mais de 114.

Já fui estagiário do Estado de Minas, do Portal Uai, da Agência Pallavra Certa, coordenador de comunicação de uma central sindical, repórter dO TEMPO e voltei como repórter onde comecei na carreira (não na lan house, no EM).

Bebi uísque ao som de Miles e Itaipava assistindo do palco uma banda que nunca tinha ouvido falar e 80 mil se descabelavam lá embaixo (acho que Victor e Leo). Fiquei bêbado em baile de debutante de desconhecida. Fiquei bêbado em vários lugares, inclusive alguns inapropriados. Já assisti um culto na Igreja Universal (também bêbado). Jantei com um assassino. Conversei sobre lutas com um ministro.

Assisti Felini no sótão da Casa de Cultura da Rua da Bahia e tudo de Glauber Rocha no Humberto Mauro. Saí do Belas Artes sorrindo depois de Meia Noite em Paris. Não entendi os dois últimos filmes do Godard. Fui aspirante a cineasta. Menti ao falar que gostava de montagem soviética.

Fiz mais de 114 coisas que não posso revelar aqui.

Já perdi o horário. Perdi prova, apresentei trabalho sem ter lido. Defendi monografia com nota máxima. Dei e tomei furo. Errei informação. Ajudei amigo a fazer mudança e a pintar apartamento. Comprei 12 livros e já não tive dinheiro para comprar um. Peguei ônibus de madrugada. Conheci taxista cantor, taxista evangélico, taxista repentista, taxista gente fina e taxista que me mandou descer do carro. Andei mais de 15 quilômetros a pé em um dia.
Moro aqui há sete anos.



Já desgostei de Belo Horizonte. Hoje, gosto.

4 comentários:

vianey disse...

Puxa cara, gostei da sua história. nas próximas 114 coisas que ainda vai fazer em Bh, quem sabe uma delas pode ser vc comer uma "Maria Fumaça" no bananeiras bar ? o lugar é sua cara pq com pessoas diferenciadas e inteligentes, eu adoro prosear. quem sabe um dia vc chegue sobrio e saia bebado do meu quintal ? um abraço. qualquer coisa tamu aí. www.bananeirasbar.com.br

Renan Damasceno, 24, é repórter do Jornal Estado de Minas. disse...

Vianey, já estive no Bananeiras, no Prado, uma duas vezes. Comi um delicioso cesto com mandioca, carne seca e linguiça e uma salsicha que apelidamos, carinhosamente, de Weissfuther. Mas volto para experimentar a Maria Fumaça.

Alexandre Campinas disse...

Muito bom mesmo ! Havia esquecido de comentar (embora tenha comentado pessoalmente:fica o registro.)

Michelle Ferraz disse...

Esqueceu de dizer que já fez parte de um grupo de estudo (seria um grupo de estudo?) na faculdade... Ficava lá depois da aula, discutindo filmes, livros, coisas assim...

Cheguei a participar um dia (primeiro e último dia). Não voltei. Eu simplesmente não entendia o que você, Lorena e Arildo falavam... rs!

Muito boa crônica, Renan!