segunda-feira, fevereiro 11, 2013

As esquinas (e curvas) de Santa Tereza






O escritor e jornalista Ruy Castro escreveu certa vez que, além da Igreja Católica, apenas o jogo do bicho e o Flamengo são tão abrangentes no Brasil – não por acaso se alimentam da mesma matéria-prima: a fé. Fico em dúvida se, embora seja essencialmente uma festa pagã, o carnaval não se inclua nesta lista. Afinal, alguma crença, dogma ou força estranha deve agir durante quatro dias para um grupo de foliões, sob sol ou chuva, se espremer na luta por uma cerveja, encarar filas em banheiros químicos e subir Bahia e descer Floresta dançando incessantemente como se não houvesse quarta-feira de cinzas.

Tantas ressacas, intempéries e bolhas nos pés se justificam, em parte, por um detalhe – pelo menos para nós, homens: os shortinhos. Aqueles, de pouco mais de um palmo, desbotados ou coloridos, colados ou desfiados. Jeans, de tecido estampado florido, com ou sem bolso. Ontem ao entardecer, nas ladeiras de Santa Tereza, as micropeças ajudavam a definir as curvas e pernas bem torneadas das meninas. As silhuetas se fundiam no compasso dos tantos blocos espalhados pelas históricas ruas do bairro.

Belo Horizonte foi para dentro do pulsante e efervescente bairro da boemia e da música. As meninas (que eram em maior número que os homens) deram brilho às ruas de pedra e às esquinas. As que não nos deram o prazer do shortinho – e minissaias – se fantasiaram sem perder a simpatia. Deixaram o coração bater sem medo, cantando em homenagem a Clara Nunes, Vinicius e, claro, Milton Nascimento. O Bloco da Esquina, em devoção a Milton e cia., fez seus votos no cruzamento das ruas Paraisópolis e Divinópolis, onde o Clube começou.

Ninguém escapava às brincadeiras. Uma falsa baiana prometeu trazer meu amor em apenas dois minutos. Ao explicar que minha namorada estava longe dali, a baiana desconversou e achou melhor não buscá-la com medo de alguma blitz da Lei Seca.


Renan Damasceno (Publicação: 11/02/2013 04:00)

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