sábado, agosto 23, 2008

Morreu anteontem, aos 90 anos, de AVC. Deixa três filhos e um neto

Aprendi – há pouco tempo, não por curiosidade, mas por indicação –, que são nas páginas dos obituários que ainda sobrevivem os bons textos do jornalismo impresso. Não por morbidez, mas por essa sessão abrigar lições diárias de como ilustres desconhecidos podem ilustrar conhecidas histórias. A tradição não é muito utilizada por aqui (poucos jornais destinam repórteres aos obituários) devido a cultura íbero-americana de relacionar a morte à dor e silêncio, mas, em países de origem anglo-saxã, que costumam celebrar a passagem dessa para melhor, é quase obrigatório prestigiar uma boa morte no café da manhã.

Uma das sessões mais prestigiadas do The New York Times, o obituário é considerado, hoje, o último refúgio do jornalismo literário, que teve origem por lá, na década de 1960. Inclusive, grandes nomes do New Journalism se dedicaram ao mórbido ofício, como Gay Talese. Robert McG e Alden Whitman – considerado o pai do obituário moderno, “o homem que deu vida ao obituário” – são dos mais conhecidos redatores da célebre sessão do jornal mais lido do mundo.

E engana-se quem pensa que o obituário está morrendo. O NYT inovou na sessão, dada por muitos como ultrapassada e fadada ao falecimento. O “The Last Word”, no site do jornal, possibilita ao sujeito gravar seu obituário em vídeo. O primeiro foi o humorista Art Buchwald, que escreveu no próprio jornal, no Herald Tribune e em mais uma gama de periódicos.

No Brasil, “O Livro das Vidas” – Matinas Suzuki Jr. (org.), Denise Bottmann (trad.), 312 pg., Companhia das Letras, São Paulo, 2008; R$ 48 – é uma boa oportunidade de conferir a compilação dos melhores obituários escritos para o NYT, nas últimas décadas. "A seção de obituários do Times é uma cerimônia de adeus diária de bom jornalismo e uma das campeãs de leitura do jornal mais influente do mundo. Há quem pense que a valorização do obituário pela imprensa de língua inglesa seja um ritual de morbidez, mas isso é uma falsa impressão", escreve Suzuki, no posfácio da edição.

+ Sobre:

Veja o “The Last Word”, de Art Buchward

Entrevista com Matinas Suzuki, organizador d' "O livro das Vidas"

Fique por dentro

Entre os jornais brasileiros, a Folha de S. Paulo reserva preciosas linhas diárias às memórias de almas desconhecidas. Os textos ficam no caderno Cotidiano, assinadas pelo repórter Willian Vieira. Assinantes da Folha ou do Uol podem acompanhar a sessão na versão on-line. A Revista piauí – sessão "Despedida" – e o Globo também dispensam atenções às mortes fresquinhas.



sexta-feira, agosto 15, 2008

Grupos de investimento invadem o futebol

A prática não é nova e, certamente, esse filme você já viu: no auge do campeonato, seu time do coração disputa as primeiras colocações e, mesmo a contragosto do clube e da torcida, os principais jogadores são negociados ao futebol do exterior*

Renan Damasceno - Portal Uai

Desde a implantação da Lei Pelé, há 10 anos - que veio para acabar com a "escravidão" dos jogadores de terem seu passe preso estritamente a clubes de futebol -, pipocaram empresários, grupos de investimento, donos de supermercado, hospital e banqueiros bem dispostos a lucrarem com atletas e aproveitarem da penúria financeira das principais equipes brasileiras.

A invasão de terceiros no futebol, em evidência nas principais negociações milionárias dos últimos anos - especialmente para times europeus e do Oriente Médio -, foi um dos efeitos colaterais da lei, em vigor desde março de 1998. "Efeito colateral" pois nem sempre o interesse desses investidores são os mesmos dos clubes e torcedores e, sim, a busca por lucros cada vez maiores. A intenção é fazer dinheiro e não "amor à camisa".

Em entrevista recente ao repórter Andrew Downie, do The New York Times (matéria Trading in soccer talent, de 19 de julho), o empresário Thiago Ferro, parceiro no departamento de investimento em futebol do Grupo Sonda, revelou que o grupo investe em média US$ 10 milhões por ano em novos talentos e que os valores estão crescendo rapidamente por causa dos lucros, que, segundo ele, chegam a 150% ao ano.

*A matéria na íntegra você confere no Portal Uai - Estado de Minas.

Leia também:

* Há 10 anos, Grupo EMS Sigma Pharma participa de negociações no Cruzeiro
* Conheça algumas das empresas que investem pesado em jogadores


segunda-feira, agosto 04, 2008

Quarteirões do Jazz - Belo Horizonte


Quando dois ou três iniciantes no jazz sentam para botar as histórias e os novos acordes em dia, não faltam suspiros. Todos, sem exceção, reclamam saudosamente de não ter mais aquelas jam session de antigamente, de não existir mais grandes quintetos como os de Miles Davis – com direito a Herbie Hancock, ao piano; Wayne Shorter, ao sax Ron Carter, ao baixo; e Tony Willians, à bateria – e de, ao caminhar pelas ruas, não correr mais o risco de tropeçar em um Charlie Parker, um Chet Baker ou em uma Billie Holiday, à beira de uma overdose de heroína.

No entanto, quem mora em BH tem tido pouco a reclamar. É possível, até com pouca grana, assistir apresentações de primeira, para New Orleans nenhuma botar defeito. O reduto principal é o Conservatório Music Bar. Às terças, instrumentistas conhecidos por aqui e pelo resto do mundo se reunem no estreito palco para um repertório que vai de risos e improvisos a clássicos do fusion e do cool jazz.

Outras boas opções são as cafeterias, que parecem ter cansado das seleções automáticas dos leitores de .mp3 e voltado a apostar nos bons e velhos quartetos e quintetos. Entre as casas estão: o Café do cinema Belas Artes, às quintas, o Café com Letras, aos sábados, além de apresentações periódicas no Status, no Café do Sol e no Bar Marquês.

Pode ser que, daqui uns 50 anos, dois ou três iniciantes no jazz sentem para botar as histórias e os novos acordes em dia e, com suspiros, reclamem saudosamente de não existir mais jam session como aquelas com Neném e Beto Lopes, bons grupos como o All Star Jazz Band e de, ao caminharem pelas ruas de BH, não encontrarem cafeterias e barzinhos ao som de Chico Amaral, ao sax, Enéias Xavier, ao baixo, e Magno Alexandre, à guitarra.

Confira os bares

Conservatório Music Bar – Rua Timbiras, 2041 - Lourdes: (31) 3213-8375

Café com Letras – Rua Antônio de Albuquerque, 781 - tel: (31)3225-9973

Café Status – R. Pernambuco, 1150 - tel: (31) 3261-6045

Café do Sol – Av. Contorno, 3301 - Santa Efigênia (31) 3463-8989

Bar Marquês – Marquês de Maricá, 56 - Sto. Antônio (31) 3293-8256

* A programação das apresentações de Jazz, em agosto, em BH, você confere no Clube do Jazz.

Fique por dentro

Agosto começou com os ouvidos afinados. A sexta edição do Savassi Festival – Jazz e Lounge agradou novamente o público, que lotou os quarteirões próximos à praça do bairro. O destaque ficou por conta do encerramento com Toninho Horta e um dos bons momentos foi a apresentação do simpático quarteto dinamarquês Engstfeld-Weiss Quartet. Ainda falta ao público um pouco mais de ligação com a música, para que o festival não se transforme em quase uma festa rave, como aconteceu próximo ao palco Tim, em frente ao Café com Letras.

segunda-feira, junho 30, 2008

Menos Bandit e mais Langlois!


por Renan Damasceno
especial para o Cinema em Cena
*

Há milhares de clichês tentadoramente românticos esperando para serem usados quando o assunto é Maio de 1968: liberdade, revolução e utopia são palavras quase obrigatórias em reportagens e artigos sobre a mobilização dos estudantes franceses no final da década de 1960. Quarenta anos depois – com o tamanho do biquíni menor e o legado do consumo de drogas infinitamente maior –, os protestos daquele ano são constantemente lembrados e retomados como um alerta à passividade da juventude deste início de milênio. Liberdade, revolução e utopias à parte, é difícil responder se o sonho acabou ou não. E o pior: parafraseando Ivan Lessa, em quatro décadas, nem os próprios franceses decidiram se Maio de 1968 foi bom ou ruim.

* Leia o artigo na integra:

Menos Bandit e mais Langlois

segunda-feira, junho 23, 2008

Durango Kid à brasileira

De uísque em uísque, o cantor Waldick Soriano, de 75 anos e incríveis 18 ‘casamentos’, se tornou o protagonista cult da noite de sábado do CineOP. Compositor de mais de 700 canções, Waldick é uma mistura de presente e passado, de fragilidade e solidão, sob à penumbra da idade e de seu inseparável chapéu.

A principal noite do CineOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto) parece ter virado um bom terreno para personalidades que se aventuram a sentar na cadeira de diretor. Em 2007, a Vj Marina Person (MTV) usou o mesmo espaço para lançar Person, uma homenagem a seu pai, o cineasta Luis Sérgio Person, diretor de São Paulo S.A (1965). Este ano foi a vez da atriz Patrícia Pillar, que mostra seu primeiro trabalho atrás das câmeras com “Waldick: Sempre no meu coração”, sobre a história e as histórias do cantor brega Waldick Soriano, já com 75 anos.

Considerando as primeiras incursões em direção de cinema, Patrícia Pillar se saiu melhor. Desconstruiu o perfil machão de Waldick, não deixou o roteiro cair em um simples biografismo e usou o tempo a seu favor: em 58 minutos de filme, foi capaz de dosar o sentimentalismo quase inexistente do cantor com seu excesso de sarcasmo e mau humor.

O filme já começa com algumas evocações ao tempo. Waldick volta a sua terra (Caitité, BA) natal para um show. Nas primeiras cenas, a câmera percorre detalhes do cantor e de objetos que dão pistas sobre sua forte personalidade: o terço, o anel, o chapéu. Os planos das estradas, das ruas e da chuva são sempre mais longos. Outra característica: ao contrário de documentaristas viciados, que teimam em dar grandiosidade ao seu personagem, Patrícia coloca a câmera sempre em linha reta. Desta forma, se põe a desmistificar seu protagonista, dando-lhe ares mais humanos.

Os depoimentos de ex-mulheres de Waldick são de grande emoção. No total, foram 18 mulheres e apenas uma paixão: uma ex-prostituta paraense, que morreu quando o casal completava apenas dois meses. E o espantoso: mesmo com as queixas de amor não retribuído todas ainda são apaixonadas pelo cantor e o aceitariam de novo.

Por fim, o documentário se presta a divulgar não só o personagem, mas toda a cultura marginal brasileira. Vários cantores populares sofreram com a censura nos anos de chumbo e muitos, mesmo com músicas que a princípio pareciam inofensivas, eram politizados e não escondiam sua opção pela democracia. Waldick foi mais brasileiro que muita gente da nossa “cultura popular brasileira”. Foi lavrador, garimpeiro, engraxate e se apaixonou, à primeira vista, ao ver o chapéu e a imponência do personagem Durango Kid nos cinemas. Sob o mesmo chapéu, hoje, Waldick é uma mistura de presente e passado, de fragilidade e solidão.

Leia mais sobre:

Revista Cinética – É tudo verdade

Filmes Polvo comenta estréia de Waldick

Veja cenas do documentário Waldick: para sempre no meu coração

Fique por dentro:

A Mostra de Cinema de Ouro Preto (12 à 17 de junho) chegou à sua terceira edição ainda sem a chancela de grande festival. No entanto, a programação foi bem mais acertada do que a de 2007, que homenageou Nelson Pereira dos Santos. Desta vez, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla foram as personalidades lembradas. Além de "Waldick", de Patrícia Pillar, a mostra abriu espaço para outras estréias, como "Diário de Sintra", de Paloma Rocha (filha de Glauber), e "Os desafinados", ficção de Walter Lima Junior, em comemoração dos 50 anos da Bossa Nova.



terça-feira, junho 10, 2008

O cinema gritante de Ana Carolina


Renan Damasceno


Os filmes de Ana Carolina não devem ser assistidos em silêncio. A loucura das personagens é levada ao espectador de forma desconexa, feia e inquietante. Tudo é barulhento, caótico. Os atores parecem não respeitar um roteiro, falam o que querem e quando desejam (Mar de Rosas, 1977). As cenas são amareladas, como coisas que apodrecem e se decompõe, e embaçadas, como se as dúvidas e as inquietações das personagens causassem uma opacidade desesperadora na lente das câmeras.
Ana Carolina foi uma das maiores autoras do nosso cinema. E caiu no ostracismo. Ao contrário do cinema autoral alegórico de Glauber Rocha – nosso maior autor de cinema – e de outros estilos assinados por grandes diretores e fases do nosso cinema, Ana Carolina faz algo novo: eleva a loucura ao grau máximo em seu cinema. É tudo
manicomial e sem visível tratamento.
Ana Carolina Teixeira Soares nasceu em São Paulo, em 1949. Formou-se em Medicina e passou pelo curso de Ciências Sociais antes de estudar cinema em São Luiz (MA). Foi continuísta de Walter Hugo Khouri em As amorosas (1967) e dirigiu alguns curtas na década de 1970 antes de realizar seu primeiro filme, Mar de Rosas (1977), no qual agradou a crítica que o classificou como inventivo e desconcertante.


Filmografia:

2003 – Gregório de Mattos
2000 - Amélia
1987 - Sonho de Valsa
1982 – Das Tripas Coração
1977 - Mar de Rosas


Os três filmes abaixo formam a trilogia, considerada obra-prima da autora, que trata de mulheres deslocadas do seu contexto social.

Mar de Rosas (1977)


Sinopse: Mar de Rosas, estrelado por Cristina Pereira, Norma Bengell, Hugo Carvana e Otávio Augusto, é a história de uma mulher que, após assassinar o marido, foge com a filha e acaba entrando em um tenso e delirante jogo de manipulação, refletido na narrativa não-linear que conta com elementos surreais. O elenco de primeira ainda conta com Ary Fontoura e Myrian Muniz. (Cinema em cena)

Comentário: Assim como nos thrillers americanos, a trilha sonora alerta o espectador para os momentos crucias do filme: dita a mudança de ritmo e de estado de espírito das personagens. Além disso, conta com elementos surreais, como o monte de terra na sala de visitas. Destaque também para os diálogos, as reações inesperadas e mudança de temperamento dos protagonistas.

Das Tripas Coração (1982)

Sinopse: Um interventor dirige-se à reunião marcada para as cinco horas da tarde, num internato de meninas onde será formalmente determinado o encerramento das atividades por motivos administrativos e econômicos. Enquanto aguarda os cinco minutos que faltam, tira um rápido cochilo, durante o qual vive fantasias com as mulheres do estabelecimento. Sua imaginação é inicialmente estimulada pela conversa, na cozinha, de duas professoras, Miriam e Renata, sobre as verbas desviadas. Como professor Guido, o interventor se transporta a uma sala de aula, onde discursa sobre o homem, a mulher, a loucura e o moralismo, e passa a viver intensamente todos os problemas do colégio e as loucuras dos professores e alunas. Depois de participar de situações totalmente fora da normalidade, vê-se perseguido pelas serventes, quando o relógio bate as cinco horas e desperta o inspetor. As professoras surgem na sala de reunião, todos se apresentam e a ata que decreta o fim da instituição é assinada. (Adoro cinema brasileiro)

Comentário: Fenomenal atuação de Antônio Fagundes. Quem depois viu o ator em Deus é Brasileiro....

Sonho de Valsa (1987)

Sinopse: O amor que eu tenho pelo meu amor que eu ainda não tenho. Esta é Tereza começando seu Sonho de Valsa. Uma linda mulher, seus 30 anos e suas fantasias. A cruz que carrega no peito tem a marca do pai, seu primeiro amor. E o desejo que esconde atinge a todos os homens. Entre desesperos, desencontros e desejos, Tereza caminha sentindo-se cada vez mais abandonada, cada vez mais sozinha. Tereza deseja o amor. Os homens desejam Tereza. Um ex-namorado, um pretendente, um amigo do pai e até seu irmão...

Comentário: As cenas são uma mistura de Sagrado e profano. O filme é cheio de chavões e lugares comuns, como carregar a cruz, engolir sapos e fundo do posso. Esses chavões pontuam o desenrolar da trama, protagonizada por Xuxa Lopes, como Tereza. Ney Matogrosso faz o papel do irmão da protagonista.


Saiba + sobre Ana Carolina:

O inquietante cinema de Ana Carolina

Crítica de Luiz Carlos Merten (Estadão)

Aramis Millarch - Ana Carolina, a bela inimiga da embrafilme

Gregório – a origem da alma brasileira

terça-feira, maio 13, 2008

Cine Mundi - América Latina



Renan Damasceno

Em fins da década de 50 e início dos anos 60, o cinema produzido na América Latina, especiamente no Brasil, Argentina, Chile e Cuba, foi definido como uma nova corrente cinematográfica que buscava pensar e trabalhar o cinema de forma diferenciada, que retratasse a realidade e os problemas terceiromundistas. Os filmes deveriam ser caracterizados como um instrumento de militância política. Tal movimento ficou conhecido como Nuevo Cine Latinoamericano.
A linguagem usada nos filmes deveria ser gerada dentro dessa nova realidade e a necessidade de mudança se fazia urgente, pois os moldes da estética hollywoodiana era burguesa, imperialista e opressora.

Em detrimento à cinematografia estadunidense, os filmes terceiromundistas deveriam ser tal qual a nossa realidade: imperfeito, feio, errado. Mais preocupado com o conteúdo do que com a forma. Como afirma Fernando Birri: deveria ser um cinema desalinhado.
Do cinema soviético, Glauber extraiu os princípios e experimentações da montagem. O cinema liberto de enredo (A idade da terra, 1980), metafórico (Terra em Transe, 1967) e ensaístico de Einsenstein e a exposição do espectador a uma ação sensorial ou psicológica, proposto pela "montagem de atrações" (Câncer, 1972).

Do cinema de autor, proposto por Bazin, sorveram a idéia do cineasta enquanto agente que interfere diretamente no registro da realidade através da sua subjetividade. Alguns cineastas foram além dessa idéia de autorismo se organizando em grupos que pretendiam mostrar, não apenas seu olhar individual, mas de toda uma nação. Sob a teoria do cinema de poesia de Buñuel, Glauber Rocha trilhou novos caminhos para a arte revolucionária latino-americana em sua Eztétika do Sonho. Um equilíbrio entre subjetividade e objetividade, concreto e onírico.

Por fim, no neo-realismo italiano, o Nuevo Cine tem sua maior inspiração. Extrairam as técnicas de documentário e a utilização de equipamentos leves que propiciavam maior mobilidade para as filmagens externas.



sábado, maio 10, 2008

Opinião: Investment grade - Pessimismo e cautela

Renan Damasceno

(Leia o texto na íntegra no site do prof. Evaldo Magalhães)

O grau de investimento BBB - conferido ao Brasil pela agência de rating Standard & Poor divide opiniões. O avanço na credibilidade do país em atrair capital estrangeiro é reflexo de políticas econômicas corretas, adotadas no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e mantidas pelo sucessor Luís Inácio Lula da Silva, mesmo a contragosto de grupos aliados. No entanto, um grande abismo ainda separa o país do tão distante desenvolvimento: dívida interna a curto prazo, morosidade nas reformas básicas e a falta de aplicação no bem estar social podem tirar do Brasil o título recém-conquistado, como aconteceu com o Uruguai, em 2002.

Na última semana, a expectativa tomou conta do governo, que terá menos empecilhos ao solicitar empréstimos de organismos internacionais como o Bird e o FMI. A intenção é que o dinheiro seja repassado aos governos estaduais e municipais, para que a bonança tão festejada pelo mercado financeiro seja compartilhada também pela a população.

Ao contrário do mercado financeiro, que recebeu o grau de investimento BBB- com euforia, a mídia brasileira e internacional ainda analisa o avanço com reservas. Nos dias seguintes ao anúncio feito pela Standard & Poor, uma das três grandes agências de rating (as outras são a Moody's e a Fitch), o assunto ocupou os editoriais dos principais jornais do país. Renan Damasceno. (...)

Leia os editoriais:


O Estado de São Paulo - Novo status, velhos desafios
Folha de S. Paulo (para assinantes Uol)
Estado de Minas - Nem tudo são flores
Financial Times


segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Opinião - À sombra de Fidel

Renan Damasceno

(Texto da pág. de Opinião do Jornal dos Lagos, Alfenas. página em PDF)

A poucos meses de completar meio século governando com mão de ferro a ilha de Cuba – maior tempo à frente de um regime político da história moderna –, o ditador Fidel Castro sai de cena. No entanto, sua imagem deve pairar sobre o imaginário do povo cubano por mais um bom tempo. Com quase dois
metros de altura, barba, boné verde e farda das forças armadas do país, mas sem a mesma saúde dos tempos de Serra Maestra, Fidel ainda tem o poder sobre a ilha e só renunciou à disputa das eleições deste ano, na qual lhe daria o direito de governar por mais cinco anos, por ter um substituo também originado da Revolução de 1959: seu irmão Raul Castro, no governo desde seu afastamento por problemas de saúde, há um ano e meio.

Os resquícios da ditadura fidelista estão longe de desaparecer em pouco tempo. A eleição do irmão Raul prova que a revolução, mesmo que aos frangalhos, ainda tem força para se reerguer. Conta com o apoio popular, que, obedientes ao regime, não pensam em revolução nas ruas. Talvez por saber que “revolução” no país não representa nenhuma mudança na forma ditatorial de governo – ao lado de Raul, Guevara e Cienfuegos, Fidel tomou o lugar de Fulgêncio Batista, que governou a ilha de forma não menos autoritária entre 1940-1948 e 1952-1959.

Marcado por mortes, preseguições políticas e privação ao acesso à informação, os 49 anos de governo do ditador prova que ideais socialistas não combinam com o poder. Geram vicíos. Assim foi na história recente da América Latina: na Bolívia de Velasco Alvarado e, recentemente, na Venezuela de Hugo Chávez.

A saída de Fidel dá novo fôlego à economia, traz esperança aos milhares de ex-patriados e anima o fim do embargo sancionado há 46 anos pelos Estados Unidos. Mas a expectativa não deve ser muito grande. O governante formal mudou, mas a ilha continua a mesma. As esperanças são maiores do que as mudanças na ilha de Fidel.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Kubrick - O filósofo do cinema visual (I)

Renan Damasceno

*Especial para a coluna "Tremendões" do site Delfos

Poucos diretores conseguiram construir ao longo do tempo uma filmografia tão densa e autônoma quanto Stanley Kubrick (1928-1999). Perdoem-me os novos aficionados e admiradores dos cinemas “alternativos”, que lotam as salas em sessões de cineclubes, que insistem em estabelecer uma linha que divide o “cinema comercial” do “c
inema de arte”. Mas se há essa linha, Kubrick, assim como Alfred Hitchkock, Billy Wilder..., caminhou sobre os dois trilhos: financiado por grandes produtoras que não interferiram na genialidade e autonomia da obra.

De temperamento difícil e avesso à mídia, esse estadunidense do Bronx (NY) sempre dirigiu o que lhe parecia interessante – vide os hiatos entre suas produções, mais visíveis nas últimas obras. Seu início de carreira como fotógrafo da revista Look define a característica do seu cinema: profundamente visual, com planos longos e exaustivamente repetidos na gravação até alcançar a perfeição. A câmera é o próprio olho do diretor que vigia cada passo do ator e cada milímetro da cena.

(Ao ver seus filmes, imagino que nenhum plano poderia ser filmado sem ser daquela maneira, tamanha a precisão. Kubric trabalha, essencialmente, com o não “verbalizável”, o que nos permite sentir a imagem e a música”).

Sua filmografia não é extensa. De Fear and desire (1953) ao controverso e criticado Eyes wide Shut (De olhos bem fechados, 1999) foram 13 filmes, sendo O grande Golpe (1956) seu primeiro longa-metragem expressivo. Com uma narrativa não linear, o filme é considerado influência para obras como Pulp Fiction (de Quentin Tarantino,1994) e outros filmes do “neobrutalismo”, ( décadas de 80/90).

Em 1957, lança Glória Feita de Sangue, considerado por muitos o melhor filme sobre a Primeira Guerra de todos os tempos, estrelado por Kirk Douglas. Após ordenar um ataque suicida, o general do grupo escolhe três soldados que vão ser condenados à morte. Kubrick viaja pelo lado humanista, pelos rostos dos combatentes e denuncia os absurdos e as insanidades da guerra. O zoom, comum em suas obras, nos aproxima dos soldados e mergulhamos em seus sentimentos, fato inédito em filmes de guerra.

Spartacus (1960) é um filme épico e o primeiro de grande orçamento dirigido por Kubrick. Após o abandono do diretor original, Anthony Maan, a escolha do seu nome à direção, o confirma entre os grandes diretores de Hollywood e, a partir deste, sua característica de perfeccionista obsessivo.

Se a obra literária de Vladimir Nabokov é considerada um dos maiores romances do século XX, a adaptação de Kubick para o clássico Lolita (1962) esteve à altura. Mesmo sendo menos “quente” e mais cômico que o livro, Lolita é o espetáculo da regressão e da decadência do homem. A cena da morte de Clare Quilty - com uma brilhante atuação de Peter Sellers - , atrás do quadro, nos primeiros minutos do filme, é o retrato da falência da cultura européia e da sociedade contemporânea. A paixão do erudito escritor Humbert Humbert por uma garota de 14 anos é a prova da Impotência do ser humano, preso ao desejo sexual.

domingo, novembro 18, 2007

Kubrick - O filósofo do cinema visual (II)

De 1964 à 1971, Kubrick criou suas três obras primas: De viés político, criticou ácida e comicamente a Guerra Fria em Dr. Strangelove (1964); no ano em que o homem pisou na lua pela primeira vez, lançou 2001: Uma odisséia no espaço (1969), provando a incapacidade do homem em dominar suas próprias criações. Sexo e ultraviolência fazem parte do cotidiano do sujeito sem identidade pós-moderno, representado de Alex Delarge, em Laranja Mecânica (1971)

Doutor Fantástico (1964) é considerado por muitos críticos o início da segunda fase das obras de Kubrick. Já estabelecido na Inglaterra, desde a produção de Lolita, seu novo filme marca a passagem do cinema de caráter “humanista” para a fase da exploração dos mistérios humanos.

Dr. Fantástico é um clássico do humor negro, da crítica ao militarismo, à corrida armamentista e à banalidade em que os chefes de estado atribuem à guerra. Os bastidores da Guerra Fria são expostos e, por conseqüência, a total desmistificação do poder. Peter Sellers é, simplesmente, genial no papel de três personagens (um deles, o próprio Doutor Fantástico, um médico alemão que não consegue controlar seus extintos nazistas na cadeira de rodas, contorcendo-se todo para não saudar o presidente americano com a mesma predestinação que saudava seu fuher).

((Considero esse filme essencial para a cinemateca de qualquer cinéfilo. É visível o caráter crítico e peculiar que o diretor enxerga a humanidade e consegue adaptar para as telas os mais falhos extintos do Ser)). Em Dr. Fantástico, a relação homem-máquina é proposta pelo diretor e retomada no filme seguinte. Se em 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968) a máquina Hal 9000 substituiria os erros humanos, como a máquina perfeita que nunca comete falhas, a bomba construida pelo doutor Fantástico foge ao controle do homem, que nada pode fazer para impedir a bomba de destruir o planeta. A humanidade passa a ser vítima de sua própria criação.

Enigmático, revolucionário, impecável. Muitos são os adjetivos que podemos atribuir à obra-prima do cinema de ficção-científica 2001: Uma Odisséia no espaço. Não somente é o maior filme de ficção científica de todos os tempos, como a obra que redefiniu o gênero. Originalmente criado em 70mm o filme era pra ser assistido em Cinerama, uma espécie de tela em 180º que daria a sensação do espectador mergulhar na história, desde o átomo até o universo (Se na tela da Tv já ficamos fascinados, imagine dentro do filme).

A evolução (ou não-evolução) do homem, desde o macaco que descobre a ferramenta até o astronauta que se aventura pelo universo é marcada pela presença do enigmático monolito negro. Ele determina o tempo e a história, sua aparição sempre representa alguma mudança na evolução da espécie no planeta. A inteligência humana é substituída pela máquina Hal 9000. Em 2001, os homens pouco têm personalidade, inclusive, no filme, o único personagem carismático é o computador Hal. Único que fala de assuntos relacionados a sentimentos, mesmo afirmando não possuir algum. A máquina é superior aos falhos astronautas, mas mesmo assim oferece total obediência aos tripulantes da nave. A falha do computador é um mistério, é impossível deduzir se Hal detectou um erro em seu funcionamento ou sua atitude foi proposital. Mas uma vez o homem torna-se refém de sua própria criação.

Os planetas parecem movimentar-se ao som da música e os planos longos definem uma viajem visual única na história do cinema. É impossível não se impressionar com o universo de 2001.

Laranja Mecânica (1971) completa a trilogia de obras geniais de Kubrick. É o retrato do sujeito da pós-modernidade, uma não-identidade que se libera na violência e no sexo. Nada mais primitivo. Alex DeLarge (numa brilhante atuação de Malcom McDowell) é o líder de uma gangue de “drugues” , e sua principal diversão é a prática da violência e ouvir Beethoven, o que exemplifica a mobilidade do sujeito.

Com a inviabilidade das leis, no século XXI, novas formas de tratamento serão testadas.Alex será vítima de um tratamento de choque que cura a violência com a exibição exaustiva de cenas de própria violência. São tirados do homem os seus impulsos naturais, tornando-o um objeto vazio. Kubrick faz análises sociológicas e filosóficas impiedosas para o futuro do ser humano. O grande número de simbolismos no filme é prova disso. Um ser pós-moderno que vive da inconstância, da identidade móvel e do hedonismo.

A exibição do filme foi proibida na Inglaterra a mando de Kubrick, em resposta à avalanche de crítica recebida pelo excesso de violência.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Kubrick - O filósofo do cinema visual (III)

A imprevisibilidade é característica na filmografia kubrickiana. Pois, do violento e polêmico Laranja Mecânica ao romântico Barry Lindon (1975) são apenas quatro anos.

A beleza plástica de Barry Lindon é única.Os planos se retirados do vídeo são verdadeiros quadros, pintados pelo perfeccionismo de Kubrick. O filme todo foi realizado com iluminação natural, descartando qualquer auxilio de luzes artificiais, inclusive nas cenas à luz de velas. É uma viajem pelo século XVIII ao som de Bach, Mozart e Schubert... Barry Lindon é a história da ascensão e queda de um charlatão, amante dos duelos, do jogo e da vida boêmia. Mesmo sendo um de seus filmes mais belos, é um dos menos divulgados.

Cinco anos mais tarde foi incumbido a Kubrick a adaptação da obra “The Shinning”, de Stephen King. O trabalho não agradou o autor do livro, porém
O Iluminado (1980) faz o expectador mais cético cobrir-se até o pescoço e rezar o pai-nosso antes de dormir. Não há quem não se lembre da expressão ensandecida de Jack Nicholson. O filme aposta no clima claustrofóbico, na profundidade psicológica e na lenta metamorfose da mente de Nicholson, atormentado por forças malignas.

Apesar de uma excelente direção e roteiro, a produção beirou o fracasso, sendo reavaliado pela crítica tempos mais tarde. Nas filmagens, Kubrick usou um total de 390 000 metros de película para um filme de 142 minutos, que gasta, em média, 2.800 metros.Uma média de 102 takes por plano, enquanto a média normal é de 10 takes. Foi usado apenas 1% do material filmado no produto final. (Acho que depois desses números ninguém mais discordará quando falo em perfeccionismo).

O grande sonho de Kubrick era dirigir um longa-metragem sobre Napoleão. Era fixado pela vida do imperador francês. Não o fez. Sete anos mais tarde, resolveu dirigir um filme sobre a guerra do Vietnã. Nada original, pois já haviam sido produzidos Platoon e mais uma dezena. Nada original se o filme não tivesse o padrão Kubrick de qualidade. Nascido para matar (1987) é uma crítica ao absurdo da guerra e à viciosa estrutura norte-americana. Mostra, como nenhum outro filme, o processo de transformação dos jovens recrutas em máquinas de matar sem escrúpulos. A mesma expressão de loucura de Jack Nicholson, em O Iluminado, é percebida no rosto do jovem destruído pelo absurdo dos campos de treinamento.A guerra é a ruína da sociedade e do psicológico, despedaçado e desfragmentado pelos seus horrores.

Todos imaginavam a aposentadoria do diretor. Já havia dirigido, ao menos, dois dos maiores filmes da história do cinema e seu nome figurava ente os maiores gênios da sétima arte.Discretamente vivendo na Inglaterra, longe da mídia e do glamour hollywoodiano, era difícil prever sua volta.

Porém, dez anos após o lançamento de Nascido para matar, Kubrick volta aos estúdios para as filmagens de Eyes Wide Shut (1999). A produção durou quase três anos, obrigando o casal de protagonistas, Tom Crise e Nicole Kidman, se estabelecerem na Inglaterra durante os 18 meses de filmagens. Mesmo a história sendo passada em Nova York, todas as cenas foram filmadas em solo inglês, inclusive as cenas de externas, reproduzidas em estúdio.

O filme volta a explorar um tema pouco abordado pelas obras kubrickianas: o sexo. Um casal, aparentemente perfeito, mergulha nos seus desejos individuais.A infidelidade não é representada apenas no plano físico (no ato de trair), mas no psicológico, explorando as fantasias e a busca de cada um pelo labirinto enigmático do desejo.

De olhos bem fechados (título do filme no Brasil) ficou abaixo das expectativas dos fãs e foi vítima do circo armado ao redor da volta de Kubrick e da sua extensa produção.

_________________________Kubrick faleceu em 7 de março de 1999, antes da estréia de sua última obra. O diretor tinha a característica de alterar seus filmes mesmo dias antes da estréia, o que deixa a dúvida em todos os fãs sobre o final de Eyes Wide Shut. A Warner Bros, produtora de seus filmes, afirma que o filme é 100% Kubrickiano. Mas se Kubrick sempre tratou os extintos mais primitivos do ser humano com especial atenção, nada melhor que encerrar sua filmografia com a maravilhosa Nicole Kidman sussurrando o verbo: “To Fuck”.

Aos apocalípticos e aficionados por teorias obscuras de plantão, Kubrick faleceu 666 dias antes da chegada do ano de 2001, o ano da odisséia no espaço.

O diretor foi indicado a 13 Oscar (um pelos efeitos especiais em 2001, três como produtor, quatro como roteirista e cinco como diretor) entre outros prêmios pelo mundo pela sua contribuição à história do cinema.

FILMOGRAFIA

1. Fear and desire (1953)
2. A morte passou por perto (1955)
3. O grande golpe (1956)
4. Glória feita de sangue (1957)
5. Spartacus (1960)
6. Lolita (1962)
7. Doutor Fantástico (1964)
8. 2001 – Uma odisséia no espaço (1968)
9. Laranja mecânica (1971)
10. Barry Lyndon" (1975)
11. O iluminado" (1980)
12. Nascido para matar (1987)
13. Eyes wide shut (1999).

Renan Damasceno, 04/2006 - 10/2007

sábado, outubro 20, 2007

Cine Mundi - Peru

Pantaleão e as visitadoras (dir. Francisco Lombardi. 1999)

- À primeira impressão, a versão cinematográfica do clássico de Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, parece uma 'pornochanchada', no melhor estilo brasileiro, com pitadas de erotismo e muito humor. Ambientado no meio da Amazônia Peruana, os planos muito se assemelha aos de Fitzcarraldo, de Werner Herzog. Enfim, um realismo fantástico, assinado por Llosa e adaptado à risca pelo diretor Francisco Lombardi.

"Pantaleon y las visitadoras", (Vargas Llosa, em 1973), foi a forma encontrada pelo escritor peruano de criticar as hipocrisias do poder e da sociedade. O resultado: o defronte entre o exército, guardião da moral e protetor da pátria, e a profissão mais antiga do mundo, prostituição. A narrativa: Realismo Fantástico, assinado pelo escritor que mais representa o país no exterior. Uma mistura de realidade e ficção. Personagens reais em situações surreais.

O humor é irretocável. Característica de Llosa que o diferencia de grandes escritores latinos, de escrita semelhante, como Garcia Márquez e Júlio Cortázar.

Em 1975, o livro foi transformado em roteiro e co-dirigido pelo próprio autor. A nova versão (foto) foi o único filme produzido no país vizinho, em 1999. Venceu o prêmio Goya de melhor película estrangeira falada em espanhol e ganhou sete Kikitos de Ouro, em Gramado.

Além de Pantaleon, "A cidade e os cachorros", de Llosa, também foi adaptado para o cinema.


Madeinusa (dir. Cláudia Llosa. 2006)

Deus está morto. O filme é vermelho, cor do sangue que escorre da virgem Madeinusa, que no Dia Santo é prometida ao próprio pai.
A loucura, inquieta. A inocência, perdida. A submissão, eterna.
Com os valores religiosos acima dos valores humanos, a hipocrisia segue escondida atrás das Cordilheiras Brancas, longe dos olhos de Deus.

Um filme curioso, mas não deixa de ser interessante. Madeinusa é uma menina de 14 anos que vive no vilarejo de Manayaycuna, localizado em algum ponto remoto das montanhas da Cordilheira Branca peruana. Os habitantes, são conhecidos pelo fervor religioso e por um estranho ritual, celebrado tradicionalmente todos os anos. Para eles da Sexta-Feira Santa ao Domingo de Páscoa o pecado não existe, pois Deus está morto.

Assim todas as pessoas do povoado podem fazer o que quiserem no decorrer desses dias, sem nenhum remorso ou culpa. Porém a chegada acidental do jovem geólogo Salvador, justamente na véspera da celebração, desperta a curiosidade de Madeinusa.

domingo, junho 17, 2007

Edifício Master - Solidão no meio da metrópole



"Edifício Master, ao trazer o homem comum, simples e banal para as telas nos faz pensar nas vidas, histórias e personagens que se encontram dentro de cada estreito apartamento na imensa selva vertical em que vivemos nas grandes metrópoles".

O cinema é uma arte que nasceu na cidade e ao longo do século XX foi responsável por retratar as transformações de suas formas de organização. Ao contrário da pintura e da fotografia que imortalizam a paisagem, a sétima arte usou da capacidade de captar imagens em movimento para documentar o nascimento das grandes metrópoles. Ao trazer o homem comum para as telas – principalmente, após o neo-realismo italiano -, o cinema foi responsável por estreitar ainda mais a relação entre homem e espaço urbano, integrando-o na sua paisagem como construtor subjetivo da própria cidade, dando alma ao lugar que habita.

Edifício Master, do diretor Eduardo Coutinho (Cabra marcado para morrer, 1984), retrata a organização por excelência das grandes cidades: o edifício. Coutinho pretende mostrar, com a performance de seus entrevistados, como a cidade esconde a existência humana atrás de seus emaranhados de arranha-céus. Fechados em apartamentos conjugados, esses moradores apresentam duas contradições características das sociedades pós-modernas: a solidão no meio do tumulto, do caos e a estreita relação entre anonimato e visibilidade.

Para retratar esse sufocamento, o documentário é fechado e as únicas imagens externas são feitas no começo do filme. Dos minutos seguintes até o final, a equipe transita entre os corredores dos 12 andares de 36 apartamentos cada. A geometria dos corredores, das portas, dos apartamentos conjugados estabelece a idéia de uma sociedade disciplinar. E a disciplina é abordada nas primeiras entrevistas do filme exaltando a presença do novo síndico que afastou a prostituição e as “casas de massagem” do edifício.

A câmera é, quase sempre, fixa e as entrevistas são o eixo dramático exclusivo. A seleção das entrevistas dá prioridade aos depoimentos auto-reflexivos, misturando trechos de silêncio e testemunhos dos moradores contando segredos, experiências, emoções e sentimentos . Uma metáfora destes testemunhos é a música cantada pelo morador Henrique, My Way (meu caminho), de Frank Sinatra.

Quanto a sua estrutura, Coutinho parece provocar e botar em discussão a própria veracidade do documentário na entrevista com Alessandra, uma garota de programa, moradora de um dos conjugados. Ela se assume como uma “mentirosa verdadeira” e diz que se pode mentir mesmo dizendo a verdade. Com a permissão de Coutinho, Alessandra evoca uma discussão presente desde as primeiras exibições de cinema: É possível recortar e retratar a realidade através do cinema, reproduzindo a imagem tal qual ela seria sem a interferência da câmera?

Eduardo Coutinho defende a impossibilidade de filmar o real, que está em constante transformação. O que se filmou nas semanas que a equipe esteve presente no edifício foi a realidade interagindo com a câmera e o diretor. A câmera transpassa a realidade, as imagens são fílmicas, mesmo não sendo estabelecidas por roteiro. A equipe aparece nas cenas desde sua entrada, filmada pela câmera de segurança do prédio.

O comprometimento de Coutinho não é com a veracidade dos depoimentos e sim de tirar a câmera da posição do simples voyerismo e levá-la à reflexão crítica da nossa sociedade. Edifício Master, ao trazer o homem comum, simples e banal para as telas nos faz pensar nas vidas, histórias e personagens que se encontram dentro de cada estreito apartamento na imensa selva vertical em que vivemos nas grandes metrópoles.

_A imagem pertence ao site sllepycity.net
_Assista um trecho do documentário Edifício Master