quarta-feira, abril 29, 2009

Artigo - 100 dias em 10 capas

Em pouco mais de três meses no governo, Obama aparece cada vez mais cabisbaixo e pensativo na capa das principais revistas norte-americanas

Renan Damasceno

Barack Obama está preocupado. Embora goze de popularidade acima de qualquer suspeita, o novo timoneiro da América tem andado mais introspectivo e pensativo nas últimas semanas, imagem oposta ao semblante rijo e olhar determinado que o levou à Washington, em eleição vencida em novembro do ano passado. Cem dias após assumir a Casa Branca, o 44º presidente da maior potência mundial – 14º democrata a ocupar o posto –, já sente precocemente o peso de governar o país, uma vez que a população exije postura firme diante da crise e o restante do mundo anseia novas diretrizes na política externa.

Desde que assumiu oficialmente o governo estadunidense, em 20 de janeiro, Mr. Obama apareceu na capa de 10 edições de três revistas de grande circulação no país: The Economist, Newsweek e Times. Neste período, foram lançadas 45 edições semanais e o rosto do presidente, em foto ou charge, é destaque, pelo menos, uma vez por mês em cada uma delas. A 11º capa será no próximo número da Times, em 4 de maio, que traz Obama, fotografado pelas costas, caminhando pensativo.

O novo comandante tem curvado seu queixo cada vez mais para baixo nas capas das revistas. O semblante de novo imperador, o sorriso largo ao lado da primeira-dama Michelle e a serenidade das primeiras semanas – explorados em cinco edições entre 17 de janeiro e 2 de fevereiro, acompanhados por frases esperançosas como “Renovando a América” (The Economist, 17/01/2009) e “Grande Expectativa” (Time, 26/01/2009) –, deram lugar no último mês à preocupação e à cautela.

Obama – e parte de 2/3 do eleitorado americano que o apóia – descobriu que a política externa não se resolve apenas com apertos de mão (bem apertados!) com Hugo Chávez ou troca de afagos com Cuba. O presidente, embora inexperiente, terá que manejar ainda a questão da fronteira com o México, manter a ordem de retirada do exercito do Iraque, conciliar-se com o mundo islâmico e recuperar o país do virulento antiamericanismo, que aumentou na Era Bush. Ao mesmo tempo, lidará com um problema que deve ganhar contornos maiores nos próximos anos: a guerra no Afeganistão, tratada na capa da Newsweek, de 09/02/2009, como o “Vietnã de Obama”. A edição alerta para os contornos além do planejado que a batalha pode ganhar nos próximos meses e como pode custar caro aos americanos.

Para evitar um naufrágio – As revistas têm trocado o otimismo pela cautela. Se antes a “obamania” não deixava brechas às críticas, desde lançado o plano salvador de US$ 787 bilhões, no começo de fevereiro, a imprensa preferiu se distanciar do mito para avaliar os riscos e não deixar que o timoneiro caia no mar, levando junto o povo americano (The Economist, 14/02/2009). Para a publicação, o plano deve ser muito bem abalizado para que seja a solução e não mais uma parte do problema.

Em casa, Obama tem sido mais criticado que no exterior. Para muitos, ainda precisa mostrar mais liderança e conciliar o Congresso, para que consiga apoio em projetos mais difíceis e arrojados no futuro, como o controle na emissão de carbono e reforma da saúde pública. A crítica mais dura recebida até agora foi da The Economist, edição de 28/03/2009, que decreta que o desempenho caseiro de Obama foi fraco para aqueles que endossaram sua candidatura, incluindo a própria publicação.

O psicólogo da América – No entanto, esses obstáculos não excluem a competência de Obama no manejo da política externa e seu imensurável poder psicológico. “O novo psicólogo da América” (Newsweek, 02/03/2009) inspira confiança no seu povo e tem apoio massivo para trabalhar. Segundo levantamento recente do Barômetro Iberoamericano de Governabilidade, o governante têm 85% de avaliação positiva, superando populares da América Latina, como Luiz Inácio Lula da Silva, que aparece em terceiro com 73%. Pesquisa do Washington Post revela que 69% dos estadunidenses aprovam seu trabalho.

Os americanos, apesar da crise, tiveram sua fé no futuro restaurada e sabem que não há cura fácil para os problemas do país, por isso são pacientes. A “obamania” está longe do fim e o presidente, embora ande meio cabisbaixo pelos corredores da Casa Branca, sabe que o sol pode voltar a raiar na América nos próximos anos.



segunda-feira, abril 27, 2009

Cinema e jornalismo (ou Billy Wilder vs. jornalismo)


Boa parte dos estudantes que chegam à faculdade de jornalismo foram atraídos pela vida frenética e emocionante dos repórteres das telas de cinema. “Nossa, você vai ser jornalista igual aqueles caras malucos dos filmes?”. Muitos já responderam essa pergunta, sem saber se a profissão era vista com fascínio ou desdenho. Bem, concluo pelo lado mais positivo.

O cinema americano assume, sozinho, a culpa deste estereótipo. Em Hollywood, as redações de jornais sempre foram palco de histórias intensas, permeadas de intrigas e investigações. A lista é grande, com produções desde a década de 1930, ora denunciando os desmandos e excessos da imprensa, ora exaltando a importância do jornalismo para o bem estar social.

O mau humorado e cruel Billy Wilder é, disparado, meu preferido. Quando lançou A montanha dos sete abutres foi tachado de cínico e mentiroso. A película de 1951 – um ano após lançado a obra-prima Crepúsculo dos Deuses – é considerado o erro maior de Billy, pois confrontava não só os americanos, mas a humanidade. O repórter Chuck Tatum, interpretado por Kirk Douglas, aproveitara de um sujeito que ficara preso em um buraco para criar um grande espetáculo., consumido em capítulos pelos ávidos leitores. O fato, que merecia no máximo uma nota de pé de página, se transformou em uma cachoeiras de manchetes, com cenas e fatos manipulados por Tatum.

Mais de duas décadas depois, Wilder retoma o assunto. Preferiu uma deliciosa comédia a repetir a acidez. Em A Primeira Página, de 1977, Jack Lemmon e Walter Matthau fazem de tudo para superar os jornais concorrentes de Chicago na cobertura da fuga do criminoso bolchevique condenado à cadeira elétrica. Se antes Billy acertou em cheio a humanidade, faltava nocautear diretamente o jornalismo. O frenesi pelo furo era (mau) tratado com o peculiar humor do diretor.

Está no blog do Sérgio Dávila desta semana:

De quando em quando, o cinema norte-americano produz um filme importante sobre jornalismo. Para ficar em apenas dois exemplos, os anos 70 tiveram "Todos os Homens do Presidente", de Alan Pakula, em que Robert Redford e Dustin Hoffman reencenavam a apuração do escândalo de Watergate. Duas décadas depois, era a vez de Ron Howard mostrar o pulso de um tabloide nova-iorquino em "The Paper".

Agora, chega às telas dos EUA "State of Play", "o estado das coisas", em tradução livre, que no Brasil se chamará "Intrigas de Estado" e tem estreia prevista para 12 de junho. É um grande filme, mais na linha "O Dossiê Pelicano" (1993, do mesmo Pakula), no sentido de que a trama policial é o fio condutor, do que de "Todos os Homens", em que a discussão política costurava a narrativa.

Mas é o tema incidental que tem chamado mais a atenção e levado jornalistas às lágrimas ao final dos 127 minutos de exibição: a importância institucional da imprensa escrita e a crise por que ela passa nos EUA, causada por um modelo de negócios que se provou equivocado e alimentada pela recessão econômica.

O argumento de "State" é de que sem repórteres com experiência e tempo para trabalhar numa história não há jornalismo digno do nome, e, sem esse, o sistema de freios e contrapesos que regula os poderes perde um componente vital.

O filme não rejeita o "novo mundo" dos blogues, por exemplo, apenas sugere que a nova mídia tem a ganhar se incorporar a consistência da velha, em vez de simplesmente a negar ou torcer por sua extinção, como é o caso de nove em cada dez blogueiros.

"State" faz isso ao reimaginar para os novos tempos a parceria Carl Bernstein-Bob Woodward, agora com um jornalista veterano (Russell Crowe) que é obrigado a se aliar a uma jovem blogueira (Rachel McAdams) para investigar uma história, que envolve um político (Ben Affleck) e uma empresa de mercenários que lembra a Blackwater. Ambos trabalham para o mesmo jornal em crise, o fictício "Washington Globe".

No final, ganham todos, a República, Hollywood e o jornalismo.
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+ Cinema americano e jornalismo neste blog:

Kubrick - o poeta do cinema visual
A arte dos obituários



terça-feira, abril 21, 2009

Frase

"O dia em que se estudar as causas da integração nacional, vai-se descobrir que, além do Flamengo, somente a Igreja Católica e o jogo do bicho são tão abrangentes. Não por acaso, essas instituições se alimentam da mesma matéria-prima: a fé"

Ruy Castro

sexta-feira, abril 17, 2009

Fim de Semana - As façanhas de Farnésio


Em 16 de abril foi comemorado o dia da Voz. Não sabia até ligar a televisão para assistir o Pontapé Inicial, melhor programa de esporte da televisão, comandado por José Trajano, na ESPN Brasil. Embora Trajano, ardoroso torcedor do América carioca, tenha se lembrado de grandes intérpretes como Frank Sinatra e Lúcio Alves, cometeu uma injustiça: esqueceu Dick Farney.

Farnésio Dutra e Silva, o Dick, conta Ruy Castro em Chega de Saudade, arrebanhou fãs no período pré-Bossa Nova e continuou afinado com o novo estilo nas décadas seguintes. O Sinatra-Farney Fan Club, fundado por Carlos Lyra e Roberto Menescal, era dos mais populares do Rio e rival do Haymes-Lúcio Fan Club, dedicado a Dick Haymes e Lúcio Alves. Mesmo com a rivalidade dos fãs, os dois brasileiros estavam longe de alimentar qualquer briga, tanto que gravaram juntos discos e clássicos como “Tereza da Praia”, ao lado de “Copacabana”, a mais famosa gravação de Dick.

Para Ruy Castro, Farney foi uma espécie de São João Batista da Bossa Nova – mesmo com pouco mais de 30 anos, já era veterano nas boates, com passagens por Hollywood, padrinho de cantores como Johnny Alf e admirado até por Bing Crosby. Seu arquivo de foto é recheado de personalidades como o próprio Sinatra e Nat ‘King’ Cole.

Mas sua façanha maior é de ter sido, possivelmente, o primeiro a gravar “Tenderly", em 1947. Biógrafos não chegam a uma conclusão, atribuindo o debute também a Sarah Vaughan. Discussões à parte, o intérprete e pianista deixou um playlist enorme de clássicos e versões, em português e inglês...”Inútil Paisagem”, “Fotografia”, “Marina”, “Night and Day”, “This Love of Mine”....

Encontrei, no Youtube, um documentário dedicado a Dick feito pela TV Cultura, em 2007, em sete partes:

terça-feira, abril 14, 2009

Levante no interior – História do cinema em Alfenas


Em 1967, Glauber Rocha, o maior de nossos cineastas, já havia escancarado nossa fome e alçava voos mais arrojados e alegóricos ao esmiuçar nossa Terra em Transe. Na França, Godard antecipava a revolução em La Chinoise e terminava ali, na minha opinião, seu ciclo genial, no qual retomaria duas décadas depois com Je Vous Salue, Marie. Antonioni, já o maior italiano da década, partia para a Inglaterra para discutir o conceito da imagem em Blow Up – rodado um ano antes. Buñuel se rendia às tardes parisienses em A belle de jour. A liberdade da América-on-the-road chegava aos cinemas com Easy Rider e, aqui, a liberdade estava com seus dias contados à espera do AI-5.

O cinema brasileiro não decidia se continuava Novo ou trazia de volta as chanchadas, desta vez pouco mais apimentadas. Alguns, como Sganzerla, preferiram embrulhar tudo, jogar na lata de lixo e expor as entranhas das metrópoles que nasciam. Sufocados pelo regime, que estreitava o espaço da produção cultural, os artistas tiveram de se virar e arrumar um sem fim de metáforas para falar o que queriam. Conseguiram. Afinal, a dita era burra.

Embora as principais manifestações estivessem nas capitais, o interior se fez valer. No mesmo ano que Glauber, Godard e o cinema americano falavam em liberdade, poder e manifestações, o texto “Levante das saias”, do teatrólogo Valdir de Luna Carneiro, de Alfenas, Sul de Minas, ganhava versão nas telas, sob a direção de Ismar Porto. A história se mostra atual e visionária, ao trazer à tona o feminismo, antecipar as passeatas e greves francesas, a proteção da igreja aos perseguidos e o fenômeno da industrialização que rumava, tardiamente, ao interior do país.

O texto é simples e pontual. O enredo se passa na fictícia Palha Verde (Alfenas). Um empresa se instalara na cidade e a esposa do dono do negócio está prestes a cair nas garras do garanhão. Com medo de perder o investimento e a fim de resguardar a honra das mulheres, o prefeito e os homens de bem decidem expulsar o galã de Palha Verde. Apoiadas pela igreja, as mulheres se reunem e saem às ruas em defesa do galanteador. Não vou contar o final. Toda essa deliciosa comédia muito bem amarrada e com diálogos enxutos e rápidos.

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Os detalhes da produção, as histórias e entrevistas sobre o filme serão apresentados na primeira edição da nossa revista eletrônica, que ainda está no forno. As reuniões – às duras penas, discussões e cafés –, ainda estão decidindo o rumo desta nova empreitada.
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Estive com Valdir de Luna no último fim de semana, em Alfenas. Em uma ótima tarde de conversa, falamos de literatura, cinema e jornalismo. Fui presenteado com alguns livros seus, entre eles “Sex...teto”, que originou o filme, e o primeiro volume de Teatro Completo, organizado e editado pela prefeitura local.
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Na imagem está o pedido de censura ao filme, liberado como “impróprio para menos de 18 anos e livre para exportação”, em 18/12/1967.


sexta-feira, março 27, 2009

Fim de semana – Tostão por Chico Buarque


Chico é torcedor do Fluminense. E, como todo fanático tricolor, tem sempre na ponta da língua a histórica escalação do seu time...”Castilho; Píndaro, Pinheiro...”, escrete dos anos 1950, encorpado por ídolos como Telê e Didi.

Apesar da paixão e devoção ao clube das Laranjeiras, o compositor admira gênios de outras cores: diz que aprendeu a amarrar as chuteiras com o rubro-negro Zizinho e elege Canhoteiro, do outro tricolor, o paulista, o melhor ponta-esquerda que já viu jogar.

Na série de DVD’s que lançou em 2000, Chico dedica um dos filmes ao futebol. No primeiro da série, “Chico e as cidades”, o músico faz pequena homenagem às peladas de campo de terra batida e conversa com o jornalista Fernando Calazans (de O Globo) e com Tostão, centroavante campeão mundial em 1970, no México.

Pela precisão cirúrgica na análise do futebol, as colunas do Dr. Eduardo (nome que Tostão voltou a usar ao encerrar prematuramente a carreira nos gramados e estudar medicina) são uma das minhas leituras obrigatórias. Como atleta, o vi jogar em reprise de algumas partidas da Copa do México e pelo Cruzeiro, na conquista da Taça Brasil de 1966 – desbancando a hegemonia de meia década do Santos, de Pepe e Pelé. Na final contra o alvinegro, marcou o quarto gol da goleada por 6 a 2.

Para não estender por laudas o assunto, segue abaixo o texto de Chico em homenagem a Tostão:

"Na minha mesa, Tostão virou botão. Eu já era bem crescido quando ele apareceu e fica um pouco ridículo fazer botão de jogador mais novo que você. Eu vi Tostão deslizar nos gramados e sem querer demerecê-lo era mesmo homem de braços e pernas. Nem por isso há de nascer um centroavante que se compare, como nunca haverá ponta-esquerda igual a Canhoteiro, que só eu vi jogar.

Desde já discordo de quem, concordando comigo, sustenta que o futebol era bem mais bonito no passado. Ao contrário de nós, mortais, que éramos todos mais bonitos no passado, os craques do passado são ainda melhores hoje. Penduraram as chuteiras, mas a permanente edição da nossa memória vão produzindo novos lances memoráveis. Tostão não fazia idéia dos gols que continua a marcar dentro da minha cabeça."
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+ Chico Buarque neste blog:
Chico homenageia: Oscar Niemeyer
+ Futebol neste blog:
Entrevista: José Roberto Torero
Entrevista: Kelen Cristina
Entrevista: Juca Kfouri
Especial: Grupos de investimento e futebol
Canal 100: Imagens líricas do futebol
Futebol e Música: fatídica combinação

quarta-feira, março 25, 2009

Cine-mundi - Romênia (ou: Sob a sombra de Ceausescu)


Está em cartaz no Palácio das Artes, de 23 de março a 7 de abril, a mostra Cinema Romeno Atual, com a exibição de três longa-metragens de importantes realizadores contemporâneos. Bem aceitos pela crítica e observado com bons olhos pelos principais festivais, A Leste de Bucareste (2006), Como Eu Festejei o Fim do Mundo (2006) e 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007) representam a melhor fase do cinema da Romênia – que, antes disso, só havia conseguido prestígio internacional com A floresta dos enforcados, de Liviu Ciulei, na década de 1960.

Considerando os intensos conflitos étnicos da região, salpicados pelas reviravoltas políticas desde a II Guerra Mundial – o Leste europeu permaneceu sob domínio soviético até 1989 –, não surpreende que as produções significativas tenham hiatos de décadas. Assim como o próprio Balcãs, a indústria cinematográfica está se recontruindo, o que reflete no enredo dos seus longa-metragens. Produz, hoje, cerca de 15 filmes por ano.

O cinema dos países que ficaram sob o domínio do regime até 1989 – principalmente os produzidos nos Balcãs e na Polônia, que são bem parecidos – ainda sofrem com a sombra soviética. Ainda são melancólicos, escuros e frios, que tentam rir da vida com pitadas de humor seco e ingênuo, como em A leste de Bucareste. Já os dramas pessoais são permeados por incertezas, erros e medo, a exemplo da protagonista Otília de 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Aliás, o filme de Mungiu é essencial em tempos de discussão sobre a liberação do aborto. Assista e tire suas conclusões.

Seja comédia de costumes, dramas individuais ou narrativas inusitadas, as histórias mostram uma nova Romênia, que tenta se desvencilhar de seu passado. O moderno tenta caminhar pelas ruas escuras, pelos prédios em frangalhos e, de vez enquando, se esbarra em algum caco das estátuas de Stálin e Ceausescu derrubadas no fim da década de 1980.

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+ Cine-mundi neste blog

Cine-mundi: Polônia (08/07/2005)
Cine-mundi: Peru (20/10/2007)
Cine-mundi: Bolívia (09/12/2008)
Cine-mundi: América Latina (13/05/2008)


+ Sobre cinema na Romênia

Programação completa da Mostra
Crítica: Estadão - 4 meses, 3 semanas e 2 dias
Crítica: Estadão - A leste de Bucareste
Crítica: Contracampo - Como festejei o fim do mundo

quinta-feira, março 19, 2009

Futebol e segurança pública

A cinco anos da realização da segunda Copa do Mundo no Brasil – a primeira foi em 1950 –, a segurança dentro e fora dos estádios emerge como principal preocupação do governo e da CBF. Ficar atento aos gastos com infra-estrutura e ao jogo de interesse de cartolas e autoridades é essencial para evitar que um rio de dinheiro público seja consumido e afogue o contribuinte.

A primeira atitude tomada (à custa da morte de dois torcedores nos últimos clássicos estaduais em São Paulo e em Belo Horizonte) é o controverso cadastro nacional de torcedores. Até agora a promessa é que o fã de futebol não precisará desembolsar nenhum centavo pela carteirinha, obrigatória a todos a partir do ano que vem. Basta esperar para saber quem vai pagar a bagatela.

O cadastramento não seria necessário se as leis fossem respeitadas e as medidas contra vândalos, enérgicas. Não será uma catraca na porta de estádio que inibirá a ação de animais que se transvestem de torcedores em dia de jogo como álibi para cometer crimes contra a sociedade e patrimônio público. A solução já temos, resta aplicá-la. Ou parece mais cômodo gastar milhões? (Renan Damasceno).


Está no editorial da Folha, de 15/03/09:

QUANDO CARTOLAS e autoridades se reúnem para promover uma Copa do Mundo no Brasil, ao cidadão, em especial na condição de contribuinte, é recomendável dose extra de desconfiança. A ideia agora é implantar um cadastro nacional de torcedores, que seria condição necessária para ter acesso aos estádios de futebol.

Boas intenções, como sempre, não faltam.

O propalado objetivo da medida é ampliar a segurança nas partidas de futebol. De posse de um cartão magnético contendo suas digitais, só torcedor "ficha-limpa" seria admitido depois da checagem numa catraca ultratecnológica; quem deve à Justiça seria barrado.

Ao que consta, contudo, poucos se puseram a verificar se, para atingir a pacificação nos estádios, é mesmo necessária tamanha elucubração cibernética. De saída, o método escolhido pelos dirigentes inverte a lógica: em vez de fichar apenas os suspeitos, os torcedores violentos, ficham-se todos. Além disso, barrar a entrada de uma pessoa num evento público porque ela não tem um "cartão de torcedor" parece abertamente inconstitucional.

Outro aspecto intrigante do projeto é que ele não fala em custos. Implementar o cadastro nacional, imprimir milhões de cartões magnéticos e instalar catracas "inteligentes" nos estádios não é barato.Mas o governo promete que a carteirinha sairá de graça para o torcedor.

Pretende destinar dinheiro dos impostos à aventura? Que suspeitos de sempre serão beneficiados com o monopólio da impressão de carteirinhas e outras facilidades?

A experiência internacional demonstra que a violência nos estádios se combate com ações convencionais das autoridades policiais e judiciárias e com um mínimo de adaptação nas leis penais. A receita é identificar os arruaceiros e bani-los das partidas de futebol -para sempre, nos casos mais extremos.

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+ Futebol neste blog:
Entrevista: José Roberto Torero
Entrevista: Kelen Cristina
Entrevista: Juca Kfouri
Especial: Como os grupos de investimento atacam o futebol
Canal 100 – Imagens líricas do futebol
O fatídico dia em que eles resolveram trocar de palco


terça-feira, março 17, 2009

Frase...

"Você só escreverá bem se desfrutar a liberdade de poder experimentar várias formas de contar uma história, e de tempo para amadurecer um estilo. Se não lhe permitirem errar e bancar o ridículo , e se você não admitir ser criticado, o mais provável é que você jamais escreverá algo que preste".

Ricardo Noblat

quarta-feira, março 11, 2009

Dita o quê?

Durante uma década e meia, a Folha ficou sob o comando da direita golpista e muitos dos seus jornalistas ocuparam cargos na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo

Está no jornal paulistano Brasil de Fato desta semana:

O editorial da Folha de S.Paulo da semana passada, que qualificou a sanguinária ditadura militar brasileira de “ditabranda”, foi um tiro no pé. Em pleno carnaval, serviu para tirar sua fantasia de jornal eclético e plural, que até hoje engana alguns ingên uos. A balela publicitária de que a Folha “tem o rabo preso com o leitor” foi para o esgoto. Em poucos dias, dois mil leitores indignados assinaram um manifesto de repúdio ao jornal. Eduardo Guimarães, do blog Cidadania, já propõe realizar um ato de protesto em frente ao prédio do Grupo Folhas, na Rua Barão de Limeira.


Da própria redação, o jornalista Fernando de Barros e Silva resolveu se indignar - infelizmente, a maioria mantém o silêncio cúmplice: “Certamente não é a primeira vez que um colunista da casa diverge da posição expressa pelo jornal em editorial. Mas é a primeira vez que este colunista se sente compelido a tornar pública sua discordância... O mundo mudou um bocado, mas ‘ditabranda’ é demais. O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou ‘níveis baixos de violência política e institucional’ parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção”.

Indignação e silêncio cúmplice – “Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante... Se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno e o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido ‘brandos’. Quando a tortura se transforma em política de Estado, como de fato ocorreu após o AI-5, o que se tem é a ‘ditadura escancarada’, para falar como Elio Gaspari”, reagiu o editor de política da Folha na sua coluna desta terça-feira, dia 24.

É certo que Fernando de Barros dá uma no cravo e outra na ferradura, enfatizando sua concepção liberal. Democracia política sim; democracia social, nem tanto. Como ele registra, o seu protesto se dá “em nome do que aprendi durante 20 anos de Folha”. Demarcando com os que aderiram ao manifesto de repúdio, ele ataca gratuitamente Cuba, Venezuela e “os figurões e as figurinhas da esquerda nativa” com a sua “retórica igualitária” – por ironia, o mesmo argumento utilizado pela ditadura para não ser nada branca no Brasil. Apesar deste escorregão liberal, entretanto, ele pelo menos resolveu se indignar com o odioso editorial da Folha. Melhor do que o silêncio cúmplice.

“O diário oficial da Oban” – Na onda de repúdio à postura fascistóide da Folha também ressurge sua história sinistra. O livro de Beatriz Kushnir, “Cães de guarda”, renegado pelos resenhistas quando foi lançado em 2004, agora aparece como uma obra indispensável para se entender as íntimas ligações da mídia com o regime militar. Com 404 páginas, ela é resultado da tese de doutorado da historiadora carioca e foi aprovada com louvor na Unicamp. Com base em documentos oficiais e entrevistas, Kushnir prova o “colaboracionismo” dos veículos privados e de muitos jornalistas, que se tornaram “cães de guarda” da ditadura, encobrindo seus crimes e justificando o seu projeto político-econômico.

A autora dedica longo capítulo à Folha de Tarde, o principal jornal da Famíglia Frias nos anos de chumbo da repressão. Editado na época por Antonio Aggio, que depois foi assessorar o senador Romeu Tuma, ex-chefe da Polícia Federal, o jornal virou “o diário oficial da Oban” – a Operação Bandeirantes, que torturou e assassinou vários patriotas. Ele desqualificou os que lutaram contra a ditadura – Lamarca era rotulado de “louco” –; ignorou a morte do jornalista Wladimir Herzog; não deu destaque à prisão de Frei Betto, que fora da sua equipe de reportagem; e transmitiu a versão oficial sobre mortos e desaparecidos – como o do ex-metalúrgico Joaquim Seixas.

A mudança tática do discurso – Durante uma década e meia, a Folha ficou sob o comando da direita golpista e muitos dos seus jornalistas ocuparam cargos na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Tanto que passou a ser ironizada como o jornal de “maior tiragem” devido à forte presença de “tiras” (policiais) na redação. Com o fim do regime militar, a Folha da Tarde entrou em declínio e faliu; seu lugar foi ocupado pela Folha de S.Paulo. A famíglia Frias tentou esconder seu passado sujo e reciclar seu discurso. Numa entrevista ao jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Kushnir afirma que esta mudança foi tática – a empresa nunca abandonou suas posições de direita.

“Em 1977, o Boris Casoy assumiu a redação da Folha. São tirados todos os nomes dos Frias do expediente, que só vão ser recolocados no jornal em 1984, na época das Diretas. É toda uma jogada de marketing da Folha. Se você repensar hoje o Projeto Folha, ela está muito longe de qualquer análise que diga: ali tínhamos uma redação neutra. Mas as pessoas continuam lendo o projeto Folha como isso. Como um momento em que a Folha vai sair de tudo isso como se nada desse passado tivesse a ver com a família Frias, e vai entrar limpar para a história nesse momento de redemocratização do país, o que não é verdade”.

Agora, com o editorial da “ditabranda”, a Folha retoma sua verdadeira história e tira a máscara!

domingo, março 01, 2009

O destino em um lance de dados


Quem quer ser um milionário? mereceu o Oscar. É original, sensível e não cai no lugar comum de apenas denunciar a miséria terceiromundista – aí, a principal diferença com Cidade de Deus. O filme faz bem mais que isso ao mostrar a luta diária dos habitantes destes lugares inóspitos para fugir da própria realidade, a todo custo.

D
ar a volta por cima é o objetivo dos irmãos Salim e Jamal, cada um ao seu jeito. O primeiro, o mais velho, toma o mesmo rumo de tantos outros jovens miseráveis. Munido de arma de fogo, conquista o poder, o respeito e o sexo da jovem Latifa – paixão do irmão mais novo, que se torna, anos mais tarde, um simples servidor de chá em um call center de Munbai.

Quis o destino, num simples coup de dés (e ‘um lance de dados não abolirá o acaso’, segundo Mallarmé), colocar Jamal no programa mais popular do país. E, novamente, tão fugaz quanto a jogada, por acaso, Jamal responde às perguntas, mesmo semi-alfabetizado.
Tudo bem. Água com açucar. Mas o pecado é redimido pela costura bem feita do filme, que tem como cenário a contrastante Munbai, dividida entre a alta tecnologia e as favelas de terra encharcada pelo esgoto a céu aberto.

O Curioso caso de Benjamin Button tinha os ingredientes certos para angariar o principal prêmio do cinema: atores renomados, roteiro adaptado de um dos escritores mais querido dos americanos, figurino impecável e ótima fotografia. Mas não levou. A Academia, assim como todo o mundo lá de cima, parece bem disposta a dialogar com os BRIC’S.

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+ Slumdog Millionaire na rede
Baixar o filme Quem quer ser um milionário?
+ Cinema americano x Terceiro mundo
Diamante de Sangue: A áfrica hollywoodiana





sexta-feira, janeiro 30, 2009

Será o fim do jornalismo impresso? – parte 2


Circulação de jornais cresce 5% em 2008

A circulação média diária de jornais no Brasil cresceu 5% em 2008 em relação a 2007. O número médio de exemplares vendidos passou de 4,14 milhões para 4,35 milhões. Apesar do crescimento, o resultado é inferior ao alcançado em anos anteriores. Em 2007 o aumento foi de 11,8% e em 2006, de 6,5%. Os dados são do Instituto Verificador de Circulação (IVC).

É prematuro qualquer análise no momento: “O crescimento de 2007 é que foi muito alto. Ainda está um pouco cedo para fazer qualquer estimativa. Mas acreditamos que, mesmo com o cenário desfavorável, existem boas oportunidades para a circulação de jornais ter um bom comportamento, de continuar crescendo em 2009”, diz Ricardo Costa, diretor-geral do IVC.

O diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais Ricardo Pedreira comemorou o resultado alcançado no ano. Também considera cedo para fazer previsões para 2009, mas acredita em crescimento, principalmente dos jornais populares.

“É um crescimento bastante bom, embora seja menor que o alcançado em 2007. Mas não havia qualquer expectativa que a gente pudesse repetir o mesmo resultado de 2007. A explicação principal para esse crescimento continua sendo o jornal popular. Para 2009, acreditamos que ainda existe espaço para crescimento, principalmente nas camadas populares”, avalia.

Super Notícia cresce 27% – O mineiro Super Notícia é um exemplo disso. Em 2007 ocupava o quinto lugar no ranking de circulação. Em 2008 foi o segundo. As vendas do jornal, que custa R$ 0,25, aumentaram 27,02% em um ano, deixando para trás os tradicionais O Globo e O Estado de S. Paulo.

Folha é o jornal com maior circulação – A Folha de S. Paulo continua na ponta do ranking, fechando 2008 com circulação média diária de 311.287 exemplares, 2,87% maior que em 2007. Ela é seguida pelo Super Notícia, com média de 303.087.

O Globo, que em 2007 ocupava o segundo lugar no ranking de circulação, também foi ultrapassado pelo Extra. Não por ter perdido circulação, mas por crescer em um ritmo mais lento, apenas 0,38%, com média diária de 281.407. O Extra cresceu 5,05%, alcançando 287.382.

O Estado de S. Paulo aparece em quinto lugar, com 245.966 e crescimento de 1,82%. Na lista dos 15 maiores jornais diários, apenas O Dia e o Diário de S. Paulo perderam circulação em 2008.

Está no Comunique-se, de 29/01/2009.

(Ao lado, o ranking dos jornais mais vendidos no Brasil)

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segunda-feira, janeiro 26, 2009

Kind of Blue: 50 anos - Jimmy Cobb no Brasil


Último remanescente do sexteto que gravou o cultuado Kind of Blue, de Miles Davis, o baterista Jimmy Cobb virá ao Brasil para um concerto comemorativo dos 50 anos dessa obra-prima do jazz, gravada em 1959, pela Columbia Records, em Nova York – John Coltrane, Paul Chambers, Bill Evans, Cannonball adderley, já falecidos, completavam o grupo.

O show fará parte do 2º festival Bridgestone Music, que acontecerá em maio, no Citibank Hall, em São Paulo. Cobb, que nos anos 70 esteve no Brasil com Sarah Vaughan, terá a seu lado a So What Band. O concerto "Kind of Blue @ 50" já está agendado para alguns dos maiores festivais americanos, além de clubes e festivais da Europa e do Japão.

O músico estadunidense, de 79 anos, tem currículo invejável: já acompanhou Dizzy Gillespie, Gil Evans e Billie Holiday, mas costuma ser mencionado como o baterista do cultuado disco de Miles, o mais vendido de todos os tempos, com cerca de 3 milhões de cópias. "Se Miles pudesse saber que 'Kind of Blue' se tornaria tão famoso, teria exigido ao menos uma ou duas Ferraris como adiantamento para gravá-lo", disse o baterista, em entrevista à Folha, em janeiro.


sexta-feira, janeiro 16, 2009

Faça sua festa!


Update: Acabo de conhecer o site Bush Bye Bye Party, página que convoca pessoas do mundo inteiro para um verdadeiro ‘bota-fora', em 19 de janeiro: uma grande festa comemorando a saída do presidente estadunidense George W. Bush. Até esta sexta-feira (a dois dias, 23 horas e 39 minutos do fim do mandato, de acordo com o próprio site), 922 haviam cadastrado suas festinhas, algumas no Brasil.

As 10 piores frases de George Bush


1 - "Eu quero agradecer ao meu amigo, o senador Bill Frist, por se juntar a nós hoje. Ele se casou com uma menina do Texas. Uma menina do Oeste do Texas, exatamente como eu." (Nashville, Tennessee, 27/05/2004)

2 - "Eu sei que os seres humanos e os peixes não podem coexistir pacificamente." (Saginaw, Michigan, 29/09/2000)

3 - "Aqueles que entram no país ilegalmente violam a lei." (Tucson, Arizona, 28/11/2005)

4 - "Eu acho que a guerra é um lugar perigoso." (Washington, 7/05/2003)

5 - "O embaixador e o general estavam me relatando: a grande maioria dos iraquianos querem viver em um mundo pacífico e livre. E nós vamos achar essas pessoas e levá-las à Justiça." (Washington, 27/10/2003)

6 - "Ler é básico para todo o aprendizado." (Reston, Virginia, 28/05/2000)

7 - "Eu entendo o crescimento dos negócios pequenos. Eu fui um." (Entrevista ao New York Daily News, 19/02/2000)

8 - "É claramente um orçamento. Tem muitos números nele." (Entrevista à agência de notícias Reuters, 5/05/2000)

9 - "Doutores demais estão deixando o negócio. Muitos obstetras e ginecologistas não estão podendo praticar o seu amor às mulheres pelo país." (Poplar Bluff, Missouri, 6/10/2004)

10 - "Eu sou o decisor, e eu decido o que é melhor."(Washington, 18/04/2006)

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Lista completa de oito anos de 'bushismos'
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terça-feira, janeiro 06, 2009

Será o fim do jornal impresso?


Dizem que o jornal impresso está com os dias contados: pesquisas indicam que não durará mais do que trinta anos. Apesar dos estudos apontarem para esse rumo quase inevitável, acredito que a imprensa de papel passará por mudanças. Em vez do jornalismo rápido, seco e instantâneo da internet, se tornará mais analítico, especializado e crítico. É evidente que, no meio dessa enxurrada de informações, uma hora precisaremos sentar, respirar e analisar os acontecimentos desse início de milênio...

E aí, será que o reino de papel vai se esfarelar?

Está em O Globo de 05/01/2009:

Internet supera jornais como principal fonte de noticias nos EUA

A internet bateu os jornais impressos como principal fonte de informação nos EUA, de acordo com um relatório do Pew Research Center divulgado nesta segunda-feira pelo New York Times. Segundo a reportagem, a mudança não representa um declínio na popularidade dos jornais de papel, que tiverem maior audiência no ano passado do quem em 2007. Os números mostram, por outro lado, um grande aumento da internet como fonte primária de notícias, de 24% em 2007 para 40% no ano passado. Os jornais ficam com 35% do total.

Leia na íntegra....
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domingo, janeiro 04, 2009

FUTEBOL E PAIXÃO III - ENTREVISTA - KELEN CRISTINA


Para encerrar a série de entrevistas, conversei com a colunista Kelen Cristina, do caderno de Esportes do Estado de Minas. A jornalista foi pontual ao definir a crônica esportiva atual como filha do seu tempo, por absorver características do jornalismo praticado hoje em dia, principalmente na internet. Ela não acredita em um empobrecimento do texto esportivo, mas numa mudança de época. Hoje, o leitor estaria mais habituado a textos curtos, rápidos e informativos.

Você acredita em um empobrecimento da crônica esportiva atual, quando comparada aos textos da década de 1950, assinados por Nelson Rodrigues, Mário Filho, Armando Nogueira?

Kelen Cristina – Outros tempos, outros leitores, outra linguagem. Acredito que generalizar e dizer que sim seria fácil demais. A discussão não se encerra no empobrecimento do autor/cronista, o que de fato pode ter havido, até mesmo em função do preparo dos jornalistas. É visível o desinteresse em muitos deles em se dedicar mais à leitura, ao conhecimento, ao preparo intelectual. Estão muito mais preocupados com a parte prática, em ir a campo, sem saber como esse background é importante no fim das contas. Falar de erros de português, então, é bobagem! Absurdos! Então, se não tem o básico, não vai ter mesmo a cereja do bolo, o vocabulário mais elaborado, uma linha de raciocínio clara e lógica. Daí o resultado.

Mas não se trata de todos - de novo, seria generalizar. Parafraseando o gênio Nelson Rodrigues - um de meus mestres, ao lado de Armando Nogueira - toda generalização é burra. Além disso, há uma via de mão dupla. Será que o leitor atual gostaria de ler crônicas ao estilo (rebuscado) daquelas escritas na década de 1950? Não estaria ele mais interessado em escritores objetivos e de linguagem mais direta, até pela profusão de novas ferramentas proporcionadas pela internet, como os blogs, que os habitua a leituras mais rápidas e condensadas?

Nas crônicas em que o enredo gira em torno de um personagem, como você faz a escolha e quais os critérios utilizados? Esse tipo de enredo, com um personagem principal, é bastante utilizado?

KC – Depende muito da relevância do personagem. Acho que cabe, sim, discorrer sobre um atleta ou um momento em especial, desde que o escritor apresente bons argumentos aos leitores e torne a leitura, além de agradável, informativa. Acredito que ele não deve se prender somente a divagar, limitando-se às suas opiniões. Sou da turma que gosta de aliar opinião e informação. É importante dar ao leitor subsídios para que ele também tire sua própria conclusão, em vez de chegar com respostas prontas.

Qual a prioridade em suas crônicas (comentário dos jogos, análise tática). E como o leitor reage: faz críticas, sugestões de pauta? A interatividade com o leitor ajuda na escolha da pauta do dia?

KC – A prioridade da coluna Tiro Livre é mostrar, sob um olhar especial, uma perspectiva diferente, o esporte, em geral, e especialmente o futebol. Não é analisar taticamente as partidas, descrever lances ou dizer apenas se o técnico está certo ou errado. Complementando a pergunta anterior, é levar ao leitor um personagem ou um lance que tenha passado despercebido ou não tenha merecido tanta atenção do noticiário do repórter. É sair do factual, mas, sobretudo, de forma informativa.

Os leitores participam muito, alguns elogiando, até por ver uma mulher assinando coluna de esportes, e alguns criticando, a maioria naquela velha dualidade: cruzeirense reclamando se escrevo sobre o Atlético e vice-versa. Talvez esse seja o grande desafio que percebi nos primeiros meses como colunista. É preciso ser universalista, sem esquecer do que ocorre em nosso quintal, para aproximar os temas dos leitores. Mas também tenho de procurar atender às duas torcidas. Buscar aspectos interessantes e tornar o texto aprazível, para merecer a leitura não apenas dos torcedores dos times à que a coluna se refere. E essa interatividade, às vezes, vira combustível para colunas sim.

Uma crônica desprovida de paixão é capaz de jogar na vala comum atletas que merecem um lugar na história? Jogadores como Rivaldo, Ronaldo, Romário, Bebeto e Dunga, que deram ao país o quarto e o quinto título mundial, e que jamais foram tratados com a reverência dedicada aos campeões de 1958, 1962 e 1970, tiveram tratamento adequado pelos cronistas atuais?

KC – Parei, pensei… mas não consegui responder a essa pergunta.

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Kelen Cristina é responsável pela coluna Tiro Livre, do jornal Estado de Minas. Assumiu o espaço ano passado, antes era repórter do próprio caderno. Respondeu às questões, por e-mail, em novembro de 2008

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Entrevista – Juca Kfouri
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O fatídico dia em que eles resolveram trocar de palco
Especial: Como os grupos de investimento atacam o futebol

quinta-feira, janeiro 01, 2009

FUTEBOL E PAIXÃO II - ENTREVISTA: JOSÉ ROBERTO TORERO

As mesmas perguntas sobre o passado e o futuro do jornalismo esportivo feitas ao Juca (no último post), foram enviadas ao jornalista José Roberto Torero – ao meu ver, um dos poucos representantes dos textos de futebol apaixonados e inventivos. Não houve grandes divergências entre as respostas dos dois. Aliás, ambos convergem a um mesmo questionamento: os leitores de hoje, ávidos por notícias rápidas e secas, teriam 'saco' para textos longos, apaixonados, poéticos, cheios de lirismo, que muitas vezes fogem a realidade do próprio esporte?

Você acredita em um empobrecimento da crônica esportiva atual, quando comparada aos textos da década de 1950, assinados por Nelson Rodrigues, Mário Filho, Armando Nogueira?

José Roberto Torero – Sim e não. Sim porque ninguém consegue ser tão bom quanto Nelson Rodrigues. Assim, qualquer tempo sem ele já é mais pobre. Por outro lado, hoje a crônica é mais técnica, mais bem informada, com mais conhecimento específico que a geração dos anos 50. E os textos, se não são tão bons quanto o do Nelson, têm uma boa variedade. Há gente mais política, como o Juca, mais filosófica, como o Tostão, e os metidos a engraçadinhos, como eu. Comparando com anos 80, por exemplo, esta primeira década do século está mais interessante.

Nas crônicas em que o enredo gira em torno de um personagem, como você faz a escolha e quais os critérios utilizados? Esse tipo de enredo, com um personagem principal, é bastante utilizado?

JRT – No meu caso, sim. Um bom exemplo são os textos onde uso o Zé Cabala para entrevistar algum jogador morto. Neste caso, o assunto é apenas e tão somente o defunto em questão.

Qual a prioridade em suas crônicas (comentário dos jogos, análise tática). E como o leitor reage: faz críticas, sugestões de pauta? Em caso de resposta positiva, a interatividade com o leitor ajuda na escolha da pauta do dia?

JRT – Como escrevo longe dos dias de jogos, tive que me especializar em textos frios, ou seja, raramente comento jogos ou assuntos mais quentes. Daí o uso de personagens como o Zé Cabala, Tico e Teco, etc... Acho que faço mais um comentário do comentário, são mais contos que crônicas esportivas.
O leitor faz críticas e sugestões de pauta, mas pouco. Mesmo na internet, ele ainda é um tanto passivo. Comenta muito, mas sugere pouco. Mas, em parte, porque nós, escritores de futebol, ainda não soubemos como aproveitar a internet. Uma exceção, no meu caso, foi a Copa dos Pesadelos, uma série que fiz em meu blog e que teve textos feitos a partir de sugestões enviadas pelos leitores (está disponível no blog).

Uma crônica desprovida de paixão é capaz de jogar na vala comum atletas que merecem um lugar na história? Jogadores como Rivaldo, Ronaldo, Romário, Bebeto e Dunga, que deram ao país o quarto e o quinto título mundial, e que jamais foram tratados com a reverência dedicada aos campeões de 1958, 1962 e 1970, tiveram tratamento adequado pelos cronistas atuais?

JRT – Acho que tiveram a atenção e os elogios que mereceram. E vou defender aqui a crônica sem paixão, ou melhor, sem babação: acredito que a paixão não é uma qualidade absoluta. Ela pode ser desagradável (tirando Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, que outro cronista com paixão faz textos decentes?). Acho que não se pode ter Nelson Rodrigues como o paradigma absoluto da crônica esportiva, assim como não deve ser do teatro e do conto. Criar apelidos fantásticos e tecer loas épicos é divertido, mas não combina tanto com o futebol de hoje, e a crônica é filha do seu tempo.

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José Roberto Torero, 47, é formado em Letras pela USP. É escritor, roteirista, jornalista e, de quebra, cronista esportivo da Folha. Começou a escrever sobre futebol no Jornal da Tarde e, depois, mudou-se para a Placar. Venceu o Prêmio Jabuti, em 1995. Respondeu às questões, por e-mail, em outubro de 2008.


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