quarta-feira, março 11, 2009

Dita o quê?

Durante uma década e meia, a Folha ficou sob o comando da direita golpista e muitos dos seus jornalistas ocuparam cargos na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo

Está no jornal paulistano Brasil de Fato desta semana:

O editorial da Folha de S.Paulo da semana passada, que qualificou a sanguinária ditadura militar brasileira de “ditabranda”, foi um tiro no pé. Em pleno carnaval, serviu para tirar sua fantasia de jornal eclético e plural, que até hoje engana alguns ingên uos. A balela publicitária de que a Folha “tem o rabo preso com o leitor” foi para o esgoto. Em poucos dias, dois mil leitores indignados assinaram um manifesto de repúdio ao jornal. Eduardo Guimarães, do blog Cidadania, já propõe realizar um ato de protesto em frente ao prédio do Grupo Folhas, na Rua Barão de Limeira.


Da própria redação, o jornalista Fernando de Barros e Silva resolveu se indignar - infelizmente, a maioria mantém o silêncio cúmplice: “Certamente não é a primeira vez que um colunista da casa diverge da posição expressa pelo jornal em editorial. Mas é a primeira vez que este colunista se sente compelido a tornar pública sua discordância... O mundo mudou um bocado, mas ‘ditabranda’ é demais. O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou ‘níveis baixos de violência política e institucional’ parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção”.

Indignação e silêncio cúmplice – “Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante... Se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno e o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido ‘brandos’. Quando a tortura se transforma em política de Estado, como de fato ocorreu após o AI-5, o que se tem é a ‘ditadura escancarada’, para falar como Elio Gaspari”, reagiu o editor de política da Folha na sua coluna desta terça-feira, dia 24.

É certo que Fernando de Barros dá uma no cravo e outra na ferradura, enfatizando sua concepção liberal. Democracia política sim; democracia social, nem tanto. Como ele registra, o seu protesto se dá “em nome do que aprendi durante 20 anos de Folha”. Demarcando com os que aderiram ao manifesto de repúdio, ele ataca gratuitamente Cuba, Venezuela e “os figurões e as figurinhas da esquerda nativa” com a sua “retórica igualitária” – por ironia, o mesmo argumento utilizado pela ditadura para não ser nada branca no Brasil. Apesar deste escorregão liberal, entretanto, ele pelo menos resolveu se indignar com o odioso editorial da Folha. Melhor do que o silêncio cúmplice.

“O diário oficial da Oban” – Na onda de repúdio à postura fascistóide da Folha também ressurge sua história sinistra. O livro de Beatriz Kushnir, “Cães de guarda”, renegado pelos resenhistas quando foi lançado em 2004, agora aparece como uma obra indispensável para se entender as íntimas ligações da mídia com o regime militar. Com 404 páginas, ela é resultado da tese de doutorado da historiadora carioca e foi aprovada com louvor na Unicamp. Com base em documentos oficiais e entrevistas, Kushnir prova o “colaboracionismo” dos veículos privados e de muitos jornalistas, que se tornaram “cães de guarda” da ditadura, encobrindo seus crimes e justificando o seu projeto político-econômico.

A autora dedica longo capítulo à Folha de Tarde, o principal jornal da Famíglia Frias nos anos de chumbo da repressão. Editado na época por Antonio Aggio, que depois foi assessorar o senador Romeu Tuma, ex-chefe da Polícia Federal, o jornal virou “o diário oficial da Oban” – a Operação Bandeirantes, que torturou e assassinou vários patriotas. Ele desqualificou os que lutaram contra a ditadura – Lamarca era rotulado de “louco” –; ignorou a morte do jornalista Wladimir Herzog; não deu destaque à prisão de Frei Betto, que fora da sua equipe de reportagem; e transmitiu a versão oficial sobre mortos e desaparecidos – como o do ex-metalúrgico Joaquim Seixas.

A mudança tática do discurso – Durante uma década e meia, a Folha ficou sob o comando da direita golpista e muitos dos seus jornalistas ocuparam cargos na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Tanto que passou a ser ironizada como o jornal de “maior tiragem” devido à forte presença de “tiras” (policiais) na redação. Com o fim do regime militar, a Folha da Tarde entrou em declínio e faliu; seu lugar foi ocupado pela Folha de S.Paulo. A famíglia Frias tentou esconder seu passado sujo e reciclar seu discurso. Numa entrevista ao jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Kushnir afirma que esta mudança foi tática – a empresa nunca abandonou suas posições de direita.

“Em 1977, o Boris Casoy assumiu a redação da Folha. São tirados todos os nomes dos Frias do expediente, que só vão ser recolocados no jornal em 1984, na época das Diretas. É toda uma jogada de marketing da Folha. Se você repensar hoje o Projeto Folha, ela está muito longe de qualquer análise que diga: ali tínhamos uma redação neutra. Mas as pessoas continuam lendo o projeto Folha como isso. Como um momento em que a Folha vai sair de tudo isso como se nada desse passado tivesse a ver com a família Frias, e vai entrar limpar para a história nesse momento de redemocratização do país, o que não é verdade”.

Agora, com o editorial da “ditabranda”, a Folha retoma sua verdadeira história e tira a máscara!

domingo, março 01, 2009

O destino em um lance de dados


Quem quer ser um milionário? mereceu o Oscar. É original, sensível e não cai no lugar comum de apenas denunciar a miséria terceiromundista – aí, a principal diferença com Cidade de Deus. O filme faz bem mais que isso ao mostrar a luta diária dos habitantes destes lugares inóspitos para fugir da própria realidade, a todo custo.

D
ar a volta por cima é o objetivo dos irmãos Salim e Jamal, cada um ao seu jeito. O primeiro, o mais velho, toma o mesmo rumo de tantos outros jovens miseráveis. Munido de arma de fogo, conquista o poder, o respeito e o sexo da jovem Latifa – paixão do irmão mais novo, que se torna, anos mais tarde, um simples servidor de chá em um call center de Munbai.

Quis o destino, num simples coup de dés (e ‘um lance de dados não abolirá o acaso’, segundo Mallarmé), colocar Jamal no programa mais popular do país. E, novamente, tão fugaz quanto a jogada, por acaso, Jamal responde às perguntas, mesmo semi-alfabetizado.
Tudo bem. Água com açucar. Mas o pecado é redimido pela costura bem feita do filme, que tem como cenário a contrastante Munbai, dividida entre a alta tecnologia e as favelas de terra encharcada pelo esgoto a céu aberto.

O Curioso caso de Benjamin Button tinha os ingredientes certos para angariar o principal prêmio do cinema: atores renomados, roteiro adaptado de um dos escritores mais querido dos americanos, figurino impecável e ótima fotografia. Mas não levou. A Academia, assim como todo o mundo lá de cima, parece bem disposta a dialogar com os BRIC’S.

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Baixar o filme Quem quer ser um milionário?
+ Cinema americano x Terceiro mundo
Diamante de Sangue: A áfrica hollywoodiana





sexta-feira, janeiro 30, 2009

Será o fim do jornalismo impresso? – parte 2


Circulação de jornais cresce 5% em 2008

A circulação média diária de jornais no Brasil cresceu 5% em 2008 em relação a 2007. O número médio de exemplares vendidos passou de 4,14 milhões para 4,35 milhões. Apesar do crescimento, o resultado é inferior ao alcançado em anos anteriores. Em 2007 o aumento foi de 11,8% e em 2006, de 6,5%. Os dados são do Instituto Verificador de Circulação (IVC).

É prematuro qualquer análise no momento: “O crescimento de 2007 é que foi muito alto. Ainda está um pouco cedo para fazer qualquer estimativa. Mas acreditamos que, mesmo com o cenário desfavorável, existem boas oportunidades para a circulação de jornais ter um bom comportamento, de continuar crescendo em 2009”, diz Ricardo Costa, diretor-geral do IVC.

O diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais Ricardo Pedreira comemorou o resultado alcançado no ano. Também considera cedo para fazer previsões para 2009, mas acredita em crescimento, principalmente dos jornais populares.

“É um crescimento bastante bom, embora seja menor que o alcançado em 2007. Mas não havia qualquer expectativa que a gente pudesse repetir o mesmo resultado de 2007. A explicação principal para esse crescimento continua sendo o jornal popular. Para 2009, acreditamos que ainda existe espaço para crescimento, principalmente nas camadas populares”, avalia.

Super Notícia cresce 27% – O mineiro Super Notícia é um exemplo disso. Em 2007 ocupava o quinto lugar no ranking de circulação. Em 2008 foi o segundo. As vendas do jornal, que custa R$ 0,25, aumentaram 27,02% em um ano, deixando para trás os tradicionais O Globo e O Estado de S. Paulo.

Folha é o jornal com maior circulação – A Folha de S. Paulo continua na ponta do ranking, fechando 2008 com circulação média diária de 311.287 exemplares, 2,87% maior que em 2007. Ela é seguida pelo Super Notícia, com média de 303.087.

O Globo, que em 2007 ocupava o segundo lugar no ranking de circulação, também foi ultrapassado pelo Extra. Não por ter perdido circulação, mas por crescer em um ritmo mais lento, apenas 0,38%, com média diária de 281.407. O Extra cresceu 5,05%, alcançando 287.382.

O Estado de S. Paulo aparece em quinto lugar, com 245.966 e crescimento de 1,82%. Na lista dos 15 maiores jornais diários, apenas O Dia e o Diário de S. Paulo perderam circulação em 2008.

Está no Comunique-se, de 29/01/2009.

(Ao lado, o ranking dos jornais mais vendidos no Brasil)

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segunda-feira, janeiro 26, 2009

Kind of Blue: 50 anos - Jimmy Cobb no Brasil


Último remanescente do sexteto que gravou o cultuado Kind of Blue, de Miles Davis, o baterista Jimmy Cobb virá ao Brasil para um concerto comemorativo dos 50 anos dessa obra-prima do jazz, gravada em 1959, pela Columbia Records, em Nova York – John Coltrane, Paul Chambers, Bill Evans, Cannonball adderley, já falecidos, completavam o grupo.

O show fará parte do 2º festival Bridgestone Music, que acontecerá em maio, no Citibank Hall, em São Paulo. Cobb, que nos anos 70 esteve no Brasil com Sarah Vaughan, terá a seu lado a So What Band. O concerto "Kind of Blue @ 50" já está agendado para alguns dos maiores festivais americanos, além de clubes e festivais da Europa e do Japão.

O músico estadunidense, de 79 anos, tem currículo invejável: já acompanhou Dizzy Gillespie, Gil Evans e Billie Holiday, mas costuma ser mencionado como o baterista do cultuado disco de Miles, o mais vendido de todos os tempos, com cerca de 3 milhões de cópias. "Se Miles pudesse saber que 'Kind of Blue' se tornaria tão famoso, teria exigido ao menos uma ou duas Ferraris como adiantamento para gravá-lo", disse o baterista, em entrevista à Folha, em janeiro.


sexta-feira, janeiro 16, 2009

Faça sua festa!


Update: Acabo de conhecer o site Bush Bye Bye Party, página que convoca pessoas do mundo inteiro para um verdadeiro ‘bota-fora', em 19 de janeiro: uma grande festa comemorando a saída do presidente estadunidense George W. Bush. Até esta sexta-feira (a dois dias, 23 horas e 39 minutos do fim do mandato, de acordo com o próprio site), 922 haviam cadastrado suas festinhas, algumas no Brasil.

As 10 piores frases de George Bush


1 - "Eu quero agradecer ao meu amigo, o senador Bill Frist, por se juntar a nós hoje. Ele se casou com uma menina do Texas. Uma menina do Oeste do Texas, exatamente como eu." (Nashville, Tennessee, 27/05/2004)

2 - "Eu sei que os seres humanos e os peixes não podem coexistir pacificamente." (Saginaw, Michigan, 29/09/2000)

3 - "Aqueles que entram no país ilegalmente violam a lei." (Tucson, Arizona, 28/11/2005)

4 - "Eu acho que a guerra é um lugar perigoso." (Washington, 7/05/2003)

5 - "O embaixador e o general estavam me relatando: a grande maioria dos iraquianos querem viver em um mundo pacífico e livre. E nós vamos achar essas pessoas e levá-las à Justiça." (Washington, 27/10/2003)

6 - "Ler é básico para todo o aprendizado." (Reston, Virginia, 28/05/2000)

7 - "Eu entendo o crescimento dos negócios pequenos. Eu fui um." (Entrevista ao New York Daily News, 19/02/2000)

8 - "É claramente um orçamento. Tem muitos números nele." (Entrevista à agência de notícias Reuters, 5/05/2000)

9 - "Doutores demais estão deixando o negócio. Muitos obstetras e ginecologistas não estão podendo praticar o seu amor às mulheres pelo país." (Poplar Bluff, Missouri, 6/10/2004)

10 - "Eu sou o decisor, e eu decido o que é melhor."(Washington, 18/04/2006)

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Lista completa de oito anos de 'bushismos'
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terça-feira, janeiro 06, 2009

Será o fim do jornal impresso?


Dizem que o jornal impresso está com os dias contados: pesquisas indicam que não durará mais do que trinta anos. Apesar dos estudos apontarem para esse rumo quase inevitável, acredito que a imprensa de papel passará por mudanças. Em vez do jornalismo rápido, seco e instantâneo da internet, se tornará mais analítico, especializado e crítico. É evidente que, no meio dessa enxurrada de informações, uma hora precisaremos sentar, respirar e analisar os acontecimentos desse início de milênio...

E aí, será que o reino de papel vai se esfarelar?

Está em O Globo de 05/01/2009:

Internet supera jornais como principal fonte de noticias nos EUA

A internet bateu os jornais impressos como principal fonte de informação nos EUA, de acordo com um relatório do Pew Research Center divulgado nesta segunda-feira pelo New York Times. Segundo a reportagem, a mudança não representa um declínio na popularidade dos jornais de papel, que tiverem maior audiência no ano passado do quem em 2007. Os números mostram, por outro lado, um grande aumento da internet como fonte primária de notícias, de 24% em 2007 para 40% no ano passado. Os jornais ficam com 35% do total.

Leia na íntegra....
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domingo, janeiro 04, 2009

FUTEBOL E PAIXÃO III - ENTREVISTA - KELEN CRISTINA


Para encerrar a série de entrevistas, conversei com a colunista Kelen Cristina, do caderno de Esportes do Estado de Minas. A jornalista foi pontual ao definir a crônica esportiva atual como filha do seu tempo, por absorver características do jornalismo praticado hoje em dia, principalmente na internet. Ela não acredita em um empobrecimento do texto esportivo, mas numa mudança de época. Hoje, o leitor estaria mais habituado a textos curtos, rápidos e informativos.

Você acredita em um empobrecimento da crônica esportiva atual, quando comparada aos textos da década de 1950, assinados por Nelson Rodrigues, Mário Filho, Armando Nogueira?

Kelen Cristina – Outros tempos, outros leitores, outra linguagem. Acredito que generalizar e dizer que sim seria fácil demais. A discussão não se encerra no empobrecimento do autor/cronista, o que de fato pode ter havido, até mesmo em função do preparo dos jornalistas. É visível o desinteresse em muitos deles em se dedicar mais à leitura, ao conhecimento, ao preparo intelectual. Estão muito mais preocupados com a parte prática, em ir a campo, sem saber como esse background é importante no fim das contas. Falar de erros de português, então, é bobagem! Absurdos! Então, se não tem o básico, não vai ter mesmo a cereja do bolo, o vocabulário mais elaborado, uma linha de raciocínio clara e lógica. Daí o resultado.

Mas não se trata de todos - de novo, seria generalizar. Parafraseando o gênio Nelson Rodrigues - um de meus mestres, ao lado de Armando Nogueira - toda generalização é burra. Além disso, há uma via de mão dupla. Será que o leitor atual gostaria de ler crônicas ao estilo (rebuscado) daquelas escritas na década de 1950? Não estaria ele mais interessado em escritores objetivos e de linguagem mais direta, até pela profusão de novas ferramentas proporcionadas pela internet, como os blogs, que os habitua a leituras mais rápidas e condensadas?

Nas crônicas em que o enredo gira em torno de um personagem, como você faz a escolha e quais os critérios utilizados? Esse tipo de enredo, com um personagem principal, é bastante utilizado?

KC – Depende muito da relevância do personagem. Acho que cabe, sim, discorrer sobre um atleta ou um momento em especial, desde que o escritor apresente bons argumentos aos leitores e torne a leitura, além de agradável, informativa. Acredito que ele não deve se prender somente a divagar, limitando-se às suas opiniões. Sou da turma que gosta de aliar opinião e informação. É importante dar ao leitor subsídios para que ele também tire sua própria conclusão, em vez de chegar com respostas prontas.

Qual a prioridade em suas crônicas (comentário dos jogos, análise tática). E como o leitor reage: faz críticas, sugestões de pauta? A interatividade com o leitor ajuda na escolha da pauta do dia?

KC – A prioridade da coluna Tiro Livre é mostrar, sob um olhar especial, uma perspectiva diferente, o esporte, em geral, e especialmente o futebol. Não é analisar taticamente as partidas, descrever lances ou dizer apenas se o técnico está certo ou errado. Complementando a pergunta anterior, é levar ao leitor um personagem ou um lance que tenha passado despercebido ou não tenha merecido tanta atenção do noticiário do repórter. É sair do factual, mas, sobretudo, de forma informativa.

Os leitores participam muito, alguns elogiando, até por ver uma mulher assinando coluna de esportes, e alguns criticando, a maioria naquela velha dualidade: cruzeirense reclamando se escrevo sobre o Atlético e vice-versa. Talvez esse seja o grande desafio que percebi nos primeiros meses como colunista. É preciso ser universalista, sem esquecer do que ocorre em nosso quintal, para aproximar os temas dos leitores. Mas também tenho de procurar atender às duas torcidas. Buscar aspectos interessantes e tornar o texto aprazível, para merecer a leitura não apenas dos torcedores dos times à que a coluna se refere. E essa interatividade, às vezes, vira combustível para colunas sim.

Uma crônica desprovida de paixão é capaz de jogar na vala comum atletas que merecem um lugar na história? Jogadores como Rivaldo, Ronaldo, Romário, Bebeto e Dunga, que deram ao país o quarto e o quinto título mundial, e que jamais foram tratados com a reverência dedicada aos campeões de 1958, 1962 e 1970, tiveram tratamento adequado pelos cronistas atuais?

KC – Parei, pensei… mas não consegui responder a essa pergunta.

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Kelen Cristina é responsável pela coluna Tiro Livre, do jornal Estado de Minas. Assumiu o espaço ano passado, antes era repórter do próprio caderno. Respondeu às questões, por e-mail, em novembro de 2008

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Entrevista – Juca Kfouri
Canal 100 – Imagens líricas do futebol
O fatídico dia em que eles resolveram trocar de palco
Especial: Como os grupos de investimento atacam o futebol

quinta-feira, janeiro 01, 2009

FUTEBOL E PAIXÃO II - ENTREVISTA: JOSÉ ROBERTO TORERO

As mesmas perguntas sobre o passado e o futuro do jornalismo esportivo feitas ao Juca (no último post), foram enviadas ao jornalista José Roberto Torero – ao meu ver, um dos poucos representantes dos textos de futebol apaixonados e inventivos. Não houve grandes divergências entre as respostas dos dois. Aliás, ambos convergem a um mesmo questionamento: os leitores de hoje, ávidos por notícias rápidas e secas, teriam 'saco' para textos longos, apaixonados, poéticos, cheios de lirismo, que muitas vezes fogem a realidade do próprio esporte?

Você acredita em um empobrecimento da crônica esportiva atual, quando comparada aos textos da década de 1950, assinados por Nelson Rodrigues, Mário Filho, Armando Nogueira?

José Roberto Torero – Sim e não. Sim porque ninguém consegue ser tão bom quanto Nelson Rodrigues. Assim, qualquer tempo sem ele já é mais pobre. Por outro lado, hoje a crônica é mais técnica, mais bem informada, com mais conhecimento específico que a geração dos anos 50. E os textos, se não são tão bons quanto o do Nelson, têm uma boa variedade. Há gente mais política, como o Juca, mais filosófica, como o Tostão, e os metidos a engraçadinhos, como eu. Comparando com anos 80, por exemplo, esta primeira década do século está mais interessante.

Nas crônicas em que o enredo gira em torno de um personagem, como você faz a escolha e quais os critérios utilizados? Esse tipo de enredo, com um personagem principal, é bastante utilizado?

JRT – No meu caso, sim. Um bom exemplo são os textos onde uso o Zé Cabala para entrevistar algum jogador morto. Neste caso, o assunto é apenas e tão somente o defunto em questão.

Qual a prioridade em suas crônicas (comentário dos jogos, análise tática). E como o leitor reage: faz críticas, sugestões de pauta? Em caso de resposta positiva, a interatividade com o leitor ajuda na escolha da pauta do dia?

JRT – Como escrevo longe dos dias de jogos, tive que me especializar em textos frios, ou seja, raramente comento jogos ou assuntos mais quentes. Daí o uso de personagens como o Zé Cabala, Tico e Teco, etc... Acho que faço mais um comentário do comentário, são mais contos que crônicas esportivas.
O leitor faz críticas e sugestões de pauta, mas pouco. Mesmo na internet, ele ainda é um tanto passivo. Comenta muito, mas sugere pouco. Mas, em parte, porque nós, escritores de futebol, ainda não soubemos como aproveitar a internet. Uma exceção, no meu caso, foi a Copa dos Pesadelos, uma série que fiz em meu blog e que teve textos feitos a partir de sugestões enviadas pelos leitores (está disponível no blog).

Uma crônica desprovida de paixão é capaz de jogar na vala comum atletas que merecem um lugar na história? Jogadores como Rivaldo, Ronaldo, Romário, Bebeto e Dunga, que deram ao país o quarto e o quinto título mundial, e que jamais foram tratados com a reverência dedicada aos campeões de 1958, 1962 e 1970, tiveram tratamento adequado pelos cronistas atuais?

JRT – Acho que tiveram a atenção e os elogios que mereceram. E vou defender aqui a crônica sem paixão, ou melhor, sem babação: acredito que a paixão não é uma qualidade absoluta. Ela pode ser desagradável (tirando Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, que outro cronista com paixão faz textos decentes?). Acho que não se pode ter Nelson Rodrigues como o paradigma absoluto da crônica esportiva, assim como não deve ser do teatro e do conto. Criar apelidos fantásticos e tecer loas épicos é divertido, mas não combina tanto com o futebol de hoje, e a crônica é filha do seu tempo.

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José Roberto Torero, 47, é formado em Letras pela USP. É escritor, roteirista, jornalista e, de quebra, cronista esportivo da Folha. Começou a escrever sobre futebol no Jornal da Tarde e, depois, mudou-se para a Placar. Venceu o Prêmio Jabuti, em 1995. Respondeu às questões, por e-mail, em outubro de 2008.


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quarta-feira, dezembro 31, 2008

FUTEBOL E PAIXÃO - ENTREVISTA - JUCA KFOURI

Para fechar bem 2008, vou lançar uma série de entrevistas com três dos maiores cronistas esportivos da atualidade, que tive oportunidade de trocar e-mails nos últimos meses. O assunto permitiu uma análise do jornalismo esportivo atual e como o 'empobrecimento' deste pode influir na própria relação torcedor/esporte.

As perguntas que guiaram o trabalho – compartilhada por Paulo Vinicius Coelho –, foram: uma crônica desprovida de paixão pode jogar na vala comum atletas importantes da nossa história como Romário, Bebeto, Dunga, etc.? Esses jogadores também poderiam ganhar status quase 'sobre-humanos', como os campeões dos três primeiros mundiais pela Seleção, caso fossem descritos por jornalistas como Nelson, Armando Nogueira e Mário Filho?

A dissertação evidenciou as principais mudanças do gênero nos últimos 50 anos. Foram analisados textos de Tostão, Daniel Piza, Torero, Kfouri e Kelen Cristina, sob a luz de Nelson. Enfim, nossa crônica esportiva empobreceu ou não?

Você acredita em um empobrecimento da crônica esportiva atual, quando comparada aos textos da década de 1950, assinados por Nelson Rodrigues, Mário Filho, Armando Nogueira?

Juca Kfouri – Sem dúvida, porque, então, existia o “cronista” esportivo, coisa que hoje tem apenas mestre Armando Nogueira como representante. Mas me pergunto se nesta época de pouco tempo para leitura, de necessidade de informação, se seria mesmo possível manter o estilo dos citados. Ainda mais que eles se beneficiavam do fato de nem existir o videotape...

Nas crônicas em que o enredo gira em torno de um personagem, como você faz a escolha e quais os critérios utilizados? Esse tipo de enredo, com um personagem principal, é bastante utilizado?

JK – Eu raramente uso esse artifício, principalmente no quente de uma rodada. A menos que seja uma atuação assim como a do Zidane, contra o Brasil, na Copa passada. Ou que haja um drama pessoal como um frango decisivo de São Marcos.

Qual a prioridade em suas crônicas (comentário dos jogos, análise tática). E como o leitor reage: faz críticas, sugestões de pauta? A interatividade com o leitor ajuda na escolha da pauta do dia?

JK – A interatividade ajuda no blog, no jornal não. Eu prefiro tratar de bastidores e de emoções e não gosto muito da análise tática, porque ainda acho que o talento é que decide.

Uma crônica desprovida de paixão é capaz de jogar na vala comum atletas que merecem um lugar na história? Jogadores como Rivaldo, Ronaldo, Romário, Bebeto e Dunga, que deram ao país o quarto e o quinto título mundial, e que jamais foram tratados com a reverência dedicada aos campeões de 1958, 1962 e 1970, tiveram tratamento adequado pelos cronistas atuais?

JK – Os três primeiros, sem dúvida. Há belíssimos textos sobre todos eles. Bebeto e Dunga são, de fato, personagens menores.

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Juca Kfouri, 67, é o cronista esportivo brasileiro mais influente da atualidade. Formado em Ciências Sociais, trabalha com esportes desde a década de 1970, quando foi convidado para ser chefe de reportagem da Placar. Tem um defeito: é corintiano. Escreve na Folha de São Paulo e no Blog do Juca, apresenta programas na rádio CBN e na ESPN Brasil. Respondeu à entrevista, por e-mail, em outubro de 2008.

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O blogue moviolaposmoderna foi destaque no Blog do Noblat nesta terça-feira, 30 de dezembro. O jornalista – blogueiro mais acessado do gênero no país – dedicou um post de indicação para esta página, como recomendação de leitura. Agradeço ao Ricardo Noblat, um dos meus guias no exercício da profissão, e ao companheiro Leo Quintino, que apresentou minha página a ele.

Agradeço também aos mais de 200 visitantes, que renderam o número recorde de 400 pageviews em um só dia. Continuem por aqui. Espero que tenham gostado.

Posts novos no forno.

Abraço!
Renan Damasceno

terça-feira, dezembro 30, 2008

CANAL 100 - Imagens líricas do futebol


"Foi a equipe do CANAL 100 que inventou uma nova distância entre o torcedor e o craque, entre o torcedor e o jogo, grandes mitos do nosso futebol, em dimensão miguelangesca, em plena cólera do gol. Suas coxas plásticas, elásticas enchendo a tela. Tudo o que o futebol brasileiro possa ter de lírico, dramático, patético, delirante..." Nelson Rodrigues.

Sobretudo, o cinema mostrou seu valor à sociedade ao registrar e imortalizar os fatos dos últimos 112 anos, ao retratar as mudanças culturais, políticas e sociais desse período – e, ao recriar e representar a história da humanidade, tornar-se fonte confiável de um tempo antecessor à sua própria criação.

Antes mesmo de assumir o formato no qual o conhecemos hoje, em 1916, com Griffith, o cinema já padecia de uma cruel dúvida: enveredava ao registro fiel da sociedade, tal Lumiére, ou partia para um mundo abstrato, lírico, onírico, que não podíamos alcançar, à exemplo de Mélies?

Felizmente, fez os grandes mestres do cinema que essas duas vertentes, antes incompatíveis, pudessem se juntar mais adiante (como em Borges, em Ficciones, as veredas se bifurcam). Nasceram os cinejornais que, num período pré-televisão, transmitiam os acontecimentos entre uma edição e outra (notícias) utilizando os recursos grandiosos das imagens de cinema.

Daí nasceram mitos. No Brasil, pelas lentes das câmeras do Canal 100, Pelé foi entronado Rei; Garrincha virou anjo das pernas tortas e Zizinho tornou-se herói. Chefiado pelo diretor Carlos Niemeyer, a produtora funcionou até 1985, quando o governo de Figueiredo (influenciado por lobistas ligados ao cinema americano) cortou as verbas e inviabilizou a produção.

Ao estudar o jornalismo esportivo da década de 1950, em meu trabalho de conclusão de curso, descobri que o Canal 100, ao lado das crônicas de Nelson, Armando Nogueira e Mário Filho, são alguns dos poucos registros de uma época que o futebol era fascinante, grandioso, mítico.

Vale conferir o site do canal 100 e seu arquivo de vídeos. Assistir aos dribles de Garrincha, aos lançamentos de Gérson, à genialidade de Tostão. Conferir jogos memoráveis, como a vitória do Cruzeiro, de Evaldo, Natal e Dirceu Lopes, sobre o Santos, de Pelé, por 6 a 2, na final da Taça Brasil, em 1966.
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domingo, dezembro 28, 2008

Café com TaNGO




Estréia nos cinemas brasileiros Café dos Maestros, primeiro longa do diretor argentino Miguel Kohan. Entre ensaios e performances ao vivo, o filme monta um mosaico da cultura do tango. Grandes artistas como Leopoldo Federico, Lágrima Rios, Aníbal Rios, José Libertella e Luis Stazo ensaiam para uma apresentação ao vivo de gala no Teatro Colón, na capital argentina. Eles possuem diferentes estilos, diferentes origens. Conversam, contam histórias e Miguel Kohan vai montando o que é muito mais do que um documento sobre esse ritmo que é tão importante para os argentinos quanto o samba para os brasileiros.

(Agência Estado, 26/12/2008)

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Estadão – Filme faz um tributo ao tango
La Nación –Los ases del tango




terça-feira, dezembro 16, 2008

O Jazz na tela grande


O Estadão.com disponibilizou na seção multimídia dois podcasts intitulados O Jazz na tela grande. O jornalista Emerson Lopes, responsável pela série Jazzy, listou uma gama de músicas e músicos que estreitaram a relação entre esse gênero musical e o cinema. Os áudios estão divididos em duas partes, em mais de duas horas de programa.


Filmes como Bird, de Clint Eastwood, que conta a trajetória do saxofonista Charlie Parker – ao lado de Dizzy Gillespie, o pais do bebop, em fins dos anos 1940 –, e as trilhas sonoras de Hary e Sally e A era do rádio estão no cardápio.

Forest Whitaker, que foi genial ao reviver o inferno astral sob efeito de heroína de Parker, em Bird, vai novamente interpretar um dos grandes nomes do jazz: Louis Armstrong, em What a Wonderful World, sem previsão de estréia. A cinebiografia autorizada do trompetista será produzida pelo estúdio francês Legende – o mesmo de La vie en Rose, sobre Edith Piaf.

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sexta-feira, dezembro 12, 2008

Supermercado de produtos culturais


Dizem por aí que já não se faz jornalismo cultural como antigamente, com textos extensos, críticas mordazes e perfis minuciosos e densos. Aliás, falam por todos os cantos que tudo que é bom está morrendo: o futebol arte, o cinema como arte, a arte.

Encontram fundamentos para julgar os cadernos de cultura atuais, os críticos que destacam que essas páginas tem se transformado em um aglomerado de textos de serviços. Talvez isso seja reflexo da própria cultura: se vende um espetáculo, um filme. Lógica do consumo. Lobão – que está longe de ser um grande ídolo meu –, já esbravejou uma frase sintomática: 'A arte se torna arte ao ser consumida'.

A Folha está comemorando os 50 anos do caderno Ilustrada. Uma série de debates sobre o passado e o futuro da cultura e do jornalismo ocorre no MASP, em São Paulo, que pode ser acompanhado na íntegra no Folha Online.

Aos fãs das rodas de boa conversa, abaixo está o vídeo integral da discussão sobre "Cultura e Jornalismo" – o último de três debates. Estão presentes, Ruy Castro e Martinas Suzuki. Vale a pena.





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+ jornalismo cultural no blog:
A arte dos obituários
+ jornalismo cultural na rede:
Ilustrada – Especial 50 anos
Gonzo – O filho bastardo do newjournalism
+ download:
Baixe o livro Jornalismo Cultural (Fábio Gomes)

terça-feira, dezembro 09, 2008

Cine-mundi: Bolívia – A proposta libertária de Ukamau


Ukamau (dir. Jorge Sanjinés, 1966) é uma das mais instigantes e belas obras do rico cinema latino-americano da década de 1960. Com enredo envolvente, denuncia os atritos entre o povo andino e os mestiços – uma alegoria das reivindicações indígenas, tão maltratados pelos colonizadores.

A história gira em torno do assassinato da mulher de um camponês, a mando de um mestiço. Durante um ano, o aymara Andrés Mayta, arquiteta sua vingança. No dia escolhido, numa tomada aérea – que muito lembra a luta de Antônio das Mortes, em o Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber –, os dois partem para a luta corpo a corpo.

Aí, o choque de genialidade de Sanjínes: em vez de dar ao camponês a chance de matar sem piedades o mestiço, propõe um luta, na qual o indígena dita as regras. Há uma inversão de valores sociais. Não há um triunfo pelo simples sabor da vingança e, sim, uma proposta libertária, que dá ao oprimido a chance de exercer o poder sobre o ex-opressor.

Em Ukamau, assim como em outros filmes da época, há uma ligação muito forte com a terra. Seja no arado, no cultivo, ou mesmo na proposta nacionalista de defesa do território. Aliás, o viés documental, é proposta chave do cinema da época: menos vale o roteiro dos filmes – apesar que Sanjinés foi brilhante no seu –, do que o retrato social da América Latina feito pelas lentes desses diretores.

Esse recorte da sociedade foi proposto por quase todos diretores e produtores dos anos 1960. A Argentina tem seu documento histórico na Escola de Santa Fé, de Fernando Birri; Cuba, nas lentes de Gutierrez Alea; e assim por diante. Talvez o Brasil seja o país mais difícil de identificar apenas um diretor que retrate o país, uma vez que Glauber Rocha se propôs em criar um cinema universal.

A universalidade também parece eficaz na luta pela solidificação do cinema latino-americano. Dessa forma, Glauber se propõe a desmitificar oprimido e opressor, dominante e dominado. Ao criar um sujeito universal, ele repensa a organização da sociedade e modifica nossa concepção histórica de que o povo latino-americano sempre será oprimido.

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segunda-feira, dezembro 08, 2008

O Lado B das coisas


Depois de quase um mês mergulhado nos textos de futebol de Nelson Rodrigues, sem tempo para qualquer outra atividade – inclusive para um melhor acabamento deste humilde blogue –, retomo o andamento desta página sem muitas promessas de fim de ano. De novidade somente o nome, que mudou para Moviola Pós-Moderna, as colaborações e as atualizações, que serão mais constantes, já que não tenho mais as atribuições de universitário (enfim, 98,5% jornalista).

O nome foi escolhido uma vez que o anterior (espacopinião) não fazia mais sentido – se algum dia fez. Moviola é uma marca de equipamentos cinematográficos que se tornou sinônimo de mesa de montagem. Nela, o rolo do filme passa por um visor, que permite ao montador assistir, cortar e colar os frames. Coisa de russo, que, aliás, entendiam tudo de montagem – Einsenstein e Vertov não me deixam mentir.

Já o ‘pós-moderno’, como tudo que é pós-moderno, serviu como adjetivo para algo que não tem definição correta. Como esse blogue sempre foi um baú asiático, sem muitas pretensões ou objetivos, casa-se perfeitamente.

Por fim, nada aqui será tão moderno ou pós-moderno (para o azar de quem procura coerência). Retorno à missão de escrever sobre filmes pouco vistos, temas nada discutíveis e assuntos pouco interessantes.

Agradeço às 9.000 visitas nos dois anos da primeira era dessa página. Continuem por aqui. Abraços.
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Foto: arquivo Alessandro Bastos. Excelente fotógrafo de portifólio invejável. Clique aqui para ver o site, e aqui para acessar seu multiply.

Leon Hirszman - Deixa que eu falo...


Responsável pela organização e relançamento da obra de Leon Hirszman, o montador Eduardo Escorel não poderia ter escolhido forma melhor de homenagear o diretor, morto em 1987: Deixa que eu falo – exibido no Forumdoc.bh, ainda não lançado em circuito comercial –, destaca-se pela riqueza de imagens de arquivo, que ditam por si só o andamento do documentário.

O título foi escolhido para que Escorel não se colocasse na posição de narrador onipresente sobre a vida e obra de um amigo tão íntimo. O subterfúrgio narrativo foi atribuir ao próprio Leon as coordenadas, em uma espécie de documentário póstumo. Para isso, Escorel resgatou entrevistas e arquivos pessoais do diretor e “deixou que ele falasse”.

Segundo o diretor, o documentário não teve roteiro e foi construído a partir da pesquisa de material. Tratando-se de um exímio montador, Escorel organiza 70 minutos de filme com fragmentos que fogem da própria realidade e filmografia de Hirszman: para falar da chegada da família de Leon ao Brasil, utiliza trechos de O Imigrante (Chaplin, 1917), para citar a relação do diretor com os grevistas do ABC Paulista, evoca imagens de A Greve (Eisenstein, 1924).

Deixa que eu falo se destaca por falar muito em pouco tempo. É uma viagem ao mais íntimo de Leon Hirszman – um dos mais importantes nomes da cultura brasileira e um dos fundadores do Cinema Novo –, sem cair no lugar comum de tantos documentários biográficos.
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+ Cinema Novo neste blog:
- Breve biografia diGlauber
- Clássicos do cinema brasileiro: Vidas Secas
+ Vídeos
- Assista ao curta Partido Alto, dirigido por Hirszman, em 1982
- Assista ao trailer de Eles Não Usam Black Tie, de 1981
+ Leon na rede
- Site oficial do diretor

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domingo, dezembro 07, 2008

Agrippino nas Panaméricas de Áfricas utópicas


José Agrippino de Paula deixa qualquer cinema alternativo dito ‘underground’ no chinelo. Comparado às suas produções, Sganzerla e o cinema marginal tornam-se Hollywood. Assisti um de seus filmes há poucas semanas: Hitler terceiro mundo, de 1968, uma obra futurista e visionária, fragmentada em blocos desconexos, com direito a Jô Soares, em papel de samurai, e participação de Zé Ramalho.

Aliás, tudo parece de vanguarda em Agrippino: seja no teatro, no cinema ou em seu mais conhecido livro: “PanAmérica”, de 1967, relançado pela Editora Papagaio. Essa obra de contracultura tem como protagonistas Marilyn Monroe, Che Guevara, Cecil B. de Mille, Marlon Brando John Wayne, entre outros ícones da cultura de massa. Eles participam de uma filmagem de episódios da Bíblia, interagindo com o narrador em primeira pessoa em uma atmosfera alucinógena.

Morreu ano passado, aos 69 anos, de infarto, em Embu, onde morava envolto de livros antigos, traças e teias de aranha, recluso e sem qualquer ligação com a tecnologia.

Fiz esse post para linkar um excelente curta sobre o autor. Abaixo em duas partes.

Passeio nos recantos silvestres – Parte 1



Passeio nos recantos silvestres – Parte 2



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+ Autores do cinema brasileiro neste blog
O cinema gritante de Ana Carolina
+ Agrippino na rede
Veja: Leia o perfil de Agrippino
Revista Trópico: Ficção contracultural brasileira
Folha de S. Paulo: Takes impressionistas



segunda-feira, outubro 06, 2008

Dos 500 melhores filmes da Empire, apenas um brasileiro. E em 177º

Seja para escolher filmes, músicas ou times de futebol de botão, toda lista gera discussão. E, certamente, as seleções de melhores e mais influentes películas de todos os tempos lidera o ranking das listagens mais contestadas. Afinal, qual o parâmetro correto para atribuir a Cidadão Kane um título que também pode pertencer a trilogia do Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, ou, até mesmo, em nossa era digital, ao Senhor dos Anéis?


Em 2007, a Revista Bravo lançou uma edição especial dos 100 filmes mais influentes da história, deixando de lado clássicos como Dr. Jivago (Épico baseado no romance de Boris Pasternak) e adicionando escolhas controversas como Los Angeles – Cidade Proibida e o brasileiro Lavoura Arcaica (sim, ótimo filme, de um conteúdo lírico e fotografia maravilhosa, mas pergunte sobre essa adaptação de Raduan Nassar em qualquer outro lugar do planeta...).

Essa semana, a revista britânica Empire lançou a lista dos 500 melhores filmes, eleitos por 10 mil leitores, 50 críticos e 150 cineastas, incluindo Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar e Sam Mendes. A liderança – ao contrário da publicação brasileira, que escalou o clássico de Orson Welles na primeira colocação – ficou com o primeiro filme da trilogia de O Poderoso Chefão, de 1972.

A seleção britânica impressiona por algumas peculiaridades: filmes recentes, como Pulp Fiction (dir. Quentin Tarantino, 1994) e Clube da Luta (dir. David Fincher, 1999) ocupam a nona e a décima colocação, respectivamente. Cidadão Kane apareceu na tímida 28ª colocação e o primeiro de língua não-inglesa a dar as caras foi Andrei Rublev (1969), do russo Andrei Tarkovsky, na 36ª colocação. Além da película russa, entre os 50 primeiros, apenas Os incompreendidos, de François Truffaut e Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa, em 41º e 50º posição, repectivamente.

Para quem esperava Central do Brasil, de Walter Salles, ou O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, a lista da Empire decepcionou. O único tupiniquim a ser citado foi Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, na tímida 177ª colocação. Glauber Rocha sequer foi relacionado, embora outros experimentais como a fase mexicana de Buñuel, Jean-Luc Godard e a nova onda, entre outros, tenham aparecido – e bem colocados.

A lista completa você pode ver no site da Empire ou, se preferir, nesse link (lista completa, sem fotos)

quinta-feira, outubro 02, 2008

Entenda a crise americana

Você deve estar cansado de ouvir nos jornais sobre a crise na economia americana, mas como não tem saco pra prestar atenção e entender todo aquele papo jornalístico, aqui vai uma versão para leigos do que aconteceu na economia dos EUA:

É assim:

O seu José tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça 'na caderneta' aos seus leais fregueses, todos bêbados e quase todos desempregados.

Porque decidiu vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobrepreço que os pinguços pagam pelo crédito) e ter um lucro maior.

O gerente do banco do seu José, um ousado administrador formado em curso de Administração e com MBA, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao boteco tendo a pindura dos pinguços como garantia.

Mais adiante, alguns executivos do banco lastreiam os tais recebíveis e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outra sigla financeira que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.

Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F (Bolsa de Mercadoria e de Futuros), cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu José ).

Mais adiante, esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bêbados desempregados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu José vai à falência.

E toda a cadeia desmorona.
Fim.

(Texto: http://abandapodre.blogspot.com )

quarta-feira, outubro 01, 2008

O fatídico dia em que eles resolveram trocar de palco

Esses dias, numa brincadeira de fim de treino, o técnico Adílson Batista brincou comigo, dizendo que “para agüentar vocês (jornalistas), só ao som de Maria Rita”, referindo-se ao álbum da filha da Elis, que estava no playlist. E, como a relação do futebol com as artes sempre me desperta interesse, resolvi abrir o baú de quinquilharias cibernéticas (Google) e investigar a ligação desses dois mundos tão distantes: o futebol e a música.

Descobri que alguns gênios da bola resolveram trocar de palco por alguns instantes. E confesso que minhas descobertas foram tão ruins quanto assistir Guarani e Villa Nova, pelo Campeonato Mineiro. Além da conhecida e não tão majestosa incursão do Rei Pelé pelo mundo da música, achei por intermédio do blog Ipisis Litteris um álbum gravado pelo genial Johan Cruijff.

Se nosso rei gravou faixas um tanto quanto melosas, como “O coraçao do rei”, “Amor e agressão”, sob a tutela do pianista e arranjador Sérgio Mendes, o holandês não fez por menos: lançou músicas com o nome de “Oei oei oei (dat was me weer een loei)” e “Alle stoppen ineens naar de knoppen”, que não faço a mínima idéia do que se tratam. De flamengo (idioma dos países baixos), só entendo do nosso, aliás, meu time do coração.

E não pára por ai: lembram do goleiro Ronaldo? Ele foi bandleader do Ronaldo e os Impedidos, grupo de rock’n roll, em alto e bom som, formado na capital paulista.

Você ainda acha que não dá pra piorar? Marcelinho Carioca criou o grupo Divina Inspiração, uma espécie de pagode gospel, com o auxilio do volante Amaral, que provou não ser apenas um rostinho bonito e mostrou talento aos pandeiros.
Outro companheiro de Timão, o atacante Mirandinha, foi o idealizador do grupo Só pro meu prazer. No mesmo ramo, porém fora dos palcos,
Denílson tornou-se o comandante do Soweto, na década de 1990.

Enfim, percebe-se que alguns atletas perderam preciosos minutos de peladas com os amigos para se dedicarem à musica. Para quem acha que o futebol carece de arte nos últimos tempos, basta ouvir os discos para ter certeza que esses artistas não devem sair de onde estão.