terça-feira, junho 10, 2008

O cinema gritante de Ana Carolina


Renan Damasceno


Os filmes de Ana Carolina não devem ser assistidos em silêncio. A loucura das personagens é levada ao espectador de forma desconexa, feia e inquietante. Tudo é barulhento, caótico. Os atores parecem não respeitar um roteiro, falam o que querem e quando desejam (Mar de Rosas, 1977). As cenas são amareladas, como coisas que apodrecem e se decompõe, e embaçadas, como se as dúvidas e as inquietações das personagens causassem uma opacidade desesperadora na lente das câmeras.
Ana Carolina foi uma das maiores autoras do nosso cinema. E caiu no ostracismo. Ao contrário do cinema autoral alegórico de Glauber Rocha – nosso maior autor de cinema – e de outros estilos assinados por grandes diretores e fases do nosso cinema, Ana Carolina faz algo novo: eleva a loucura ao grau máximo em seu cinema. É tudo
manicomial e sem visível tratamento.
Ana Carolina Teixeira Soares nasceu em São Paulo, em 1949. Formou-se em Medicina e passou pelo curso de Ciências Sociais antes de estudar cinema em São Luiz (MA). Foi continuísta de Walter Hugo Khouri em As amorosas (1967) e dirigiu alguns curtas na década de 1970 antes de realizar seu primeiro filme, Mar de Rosas (1977), no qual agradou a crítica que o classificou como inventivo e desconcertante.


Filmografia:

2003 – Gregório de Mattos
2000 - Amélia
1987 - Sonho de Valsa
1982 – Das Tripas Coração
1977 - Mar de Rosas


Os três filmes abaixo formam a trilogia, considerada obra-prima da autora, que trata de mulheres deslocadas do seu contexto social.

Mar de Rosas (1977)


Sinopse: Mar de Rosas, estrelado por Cristina Pereira, Norma Bengell, Hugo Carvana e Otávio Augusto, é a história de uma mulher que, após assassinar o marido, foge com a filha e acaba entrando em um tenso e delirante jogo de manipulação, refletido na narrativa não-linear que conta com elementos surreais. O elenco de primeira ainda conta com Ary Fontoura e Myrian Muniz. (Cinema em cena)

Comentário: Assim como nos thrillers americanos, a trilha sonora alerta o espectador para os momentos crucias do filme: dita a mudança de ritmo e de estado de espírito das personagens. Além disso, conta com elementos surreais, como o monte de terra na sala de visitas. Destaque também para os diálogos, as reações inesperadas e mudança de temperamento dos protagonistas.

Das Tripas Coração (1982)

Sinopse: Um interventor dirige-se à reunião marcada para as cinco horas da tarde, num internato de meninas onde será formalmente determinado o encerramento das atividades por motivos administrativos e econômicos. Enquanto aguarda os cinco minutos que faltam, tira um rápido cochilo, durante o qual vive fantasias com as mulheres do estabelecimento. Sua imaginação é inicialmente estimulada pela conversa, na cozinha, de duas professoras, Miriam e Renata, sobre as verbas desviadas. Como professor Guido, o interventor se transporta a uma sala de aula, onde discursa sobre o homem, a mulher, a loucura e o moralismo, e passa a viver intensamente todos os problemas do colégio e as loucuras dos professores e alunas. Depois de participar de situações totalmente fora da normalidade, vê-se perseguido pelas serventes, quando o relógio bate as cinco horas e desperta o inspetor. As professoras surgem na sala de reunião, todos se apresentam e a ata que decreta o fim da instituição é assinada. (Adoro cinema brasileiro)

Comentário: Fenomenal atuação de Antônio Fagundes. Quem depois viu o ator em Deus é Brasileiro....

Sonho de Valsa (1987)

Sinopse: O amor que eu tenho pelo meu amor que eu ainda não tenho. Esta é Tereza começando seu Sonho de Valsa. Uma linda mulher, seus 30 anos e suas fantasias. A cruz que carrega no peito tem a marca do pai, seu primeiro amor. E o desejo que esconde atinge a todos os homens. Entre desesperos, desencontros e desejos, Tereza caminha sentindo-se cada vez mais abandonada, cada vez mais sozinha. Tereza deseja o amor. Os homens desejam Tereza. Um ex-namorado, um pretendente, um amigo do pai e até seu irmão...

Comentário: As cenas são uma mistura de Sagrado e profano. O filme é cheio de chavões e lugares comuns, como carregar a cruz, engolir sapos e fundo do posso. Esses chavões pontuam o desenrolar da trama, protagonizada por Xuxa Lopes, como Tereza. Ney Matogrosso faz o papel do irmão da protagonista.


Saiba + sobre Ana Carolina:

O inquietante cinema de Ana Carolina

Crítica de Luiz Carlos Merten (Estadão)

Aramis Millarch - Ana Carolina, a bela inimiga da embrafilme

Gregório – a origem da alma brasileira