sábado, janeiro 21, 2006

BBB - O espetáculo superficial

(*) Renan Damasceno

Os limites da exploração do corpo humano foram quase atingidos e vê-se agora uma exploração do próprio ser social. Uma exploração não ligada ao nosso voyeurismo pornô – já que sexo e pornografia encontram-se por toda parte -, mas ao espetáculo banal, da convivência social manipulada, do ser humano como centro de uma sociedade superficial.

Os reality-shows vêm consolidar esse processo. A realidade virtual se torna mais interessante que a vivência da própria realidade. O telespectador passa a obter um poder que na sociedade ele não desfruta, controlar, decidir e eliminar.Se sentem menos idiotas ao enxergar os erros banais dos participantes, se sentem menos idiotas que o espetáculo. Essa é a grande estratégia do programa.Um sentimento de poder e controle.

Assim, estamos diante da ruptura dos ideais políticos, dos conceitos de poder e democracia, o que o sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard conceitua de “Democracia Radical”, exaltação máxima por uma qualificação mínima, glória virtual.Assistimos ao programa, votamos, decidimos, nos mobilizamos em um clima eleitoral esperando um vencedor. Ao término do programa, nada. Um grande passo ao niilismo democrático. A linha exata entre democracia e ditadura, combinando o poder do voto democrático com o paredão ditatorial fidelista, eliminando participantes.

O termo Big Brother (Grande Irmão) é referência direta ao personagem homônimo do livro 1984, de George Orwell. No livro, escrito em 1948, o autor prevê que em 1984 o mundo viveria em uma ditadura totalitária e o governo controlaria a vida da população através do Grande Irmão. Nada foge à visão dessa figura abstrata. Esse controle nos faz pensar melhor, não só nos reality-shows, mas nas redes de amigos criadas na Internet, como o Orkut, que detém informações de milhões de pessoas em todo do mundo, observando-as através de fotos e mensagens.

Enfim, a sociedade chega ao seu estopim: observar seus próprios indivíduos em casas de vidros e espelhos, um narcisismo de auto-observação.O fim do ser singular, do individualismo, dos valores políticos.Tudo se tornou banal e superficial com o Big Brother.

(*) Texto do Caderno Opinião do Jornal dos Lagos, Alfenas MG. 14/01/05, pag. 02

Para ler, assistir e ouvir....

Assistir:
Ilha das Flores (Brasil, 1989, dir. Jorge Furtado)
O documentario encontra-se no site Curta o curta.

Em 13 minutos Jorge Furtado consegue criticar o capitalismo, a ganância, a prepotência e as inversões dos valores.
Ilha das flores situa-se no Rio Grande do Sul,o local é usado para depositar o lixo de Porto Alegre e cidades vizinhas. O local foi comprado por um criador de porcos e o restos organicos são aproveitado para a alimentação de seus animais.
O restante rejeitado pelos porcos é ofereciado aos moradores das regiões periféricas da ilha. Eles se organizam em grupos de 10 pessoas para escolher o restante de verduras e legumes.
Forte, reflexivo e de causar indignação.

Ler :
Viver para Contar (Gabriel Garcia Marquez, 2002, 467 pags.)

Indispensável para compreender a obra de um dos maiores escritores latino- americano. Nessa autobiografia Marquez passa por sua infância até chegar ao trabalho como jornalista e escreve passagens importantes que serviram de inspiração para livros como " O amor no tempo do cólera.

Ouvir:
Squirel Nut Zippers

Banda americana de jazz criada nos meados da década de 90 . variedade de sonoridades e vocais bem trabalhados.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

O metal sob os olhos da mídia.

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Titulo Original: O metal sob os olhos da mídia
Por: Renan Damasceno
Texto publicado no site www.metalfuria.com.br



Um dos fundadores do grupo de Thrash Metal Pantera – juntamente com seu irmão, o baterista Vinnie Barrel -, “Dimebag” Darrel foi assassinado durante a apresentação de seu grupo Damageplan, há pouco mais de um ano. O que traz grandiosidade ao fato não é apenas a perda que Dimebag representa, haja visto a importância do Pantera na influência de uma gama de bandas estadunidenses, e sim a repercussão que o fato obteve na mídia.

Parece desatualizado tocar num assunto intensamente discutido durante os meses que sucederam a morte de Darrel. Ledo engano. Quero, não apenas apresentar uma análise da cobertura feita pelos comandados de Roberto Marinho, como mostrar o legado da morte e uma posterior conscientização.

Vamos ao fato.

Em 09 de dezembro, o guitarrista Dimebag Darrel morreu assassinado por um maluco chamado Nathan Gale, de 25 anos, que disparou cinco tiros contra o músico. Além de Darrel, mais duas pessoas que assistiam ao show e um segurança foram mortos.Segundo testemunhas, antes dos disparos, Gale teria dito “Você acabou com o Pantera. Você arruinou a minha vida.”

O fato foi noticiado na mesma noite pelo jornal noturno da Rede Globo, o Jornal da Globo. Encabeçado pelo âncora Willian Wack, o canal mostrou seu despreparo, desprezo e preconceito contra os gêneros musicais “underground’s” . Wack apresentou Darrel como usuário de drogas – fazendo uma alusão ao seu apelido “dimebag”, trouxa de maconha – e como pregador do ódio e da violência. Não bastou. A ignorância não cessou e foi necessário convocar Arnaldo Jabor.

Sim, Arnaldo Jabor, aquele cineasta, que pertencia à esquerda comunista do país e hoje ataca a mesma como um direitista nato. Aquele que se vendeu ao cinema comercial, traindo Glauber Rocha e os ideais do Cinema Novo. Aquele que critica incessavelmente as colunas sociais de Caras, mas não perde uma oportunidade de desfilar entre celebridades em fotos de revista.

Como fã de Cinema Brasileiro que sou, reconheço sua importância. Leio seus artigos em diversos jornais, o considero um dos grandes entendedores da política americana e um exímio comentarista. Mas seu comentário e sua ignorância são questionáveis. Reproduzo-o a seguir, intitulado “Não Sobrou Nada”:

“O rock começou como canto à alegria e à liberdade, música de esperança numa era de utopias e flores. Aos poucos, a ilusão foi passando. Em 68, a esperança jovem foi sendo detida pela reação da caretice mundial. Os ídolos começaram a morrer: Janis Joplin, Jimmy Hendrix sumiram juntos. Na década de 70, o que era novo e belo se transforma nos embalos de sábado à noite e começa o tempo da brilhantina. Junto com a caretice dos Beegees, o que era liberdade cai na violência. Em Altamont, no show dos Stones, a morte aparece. Charles Manson é o hippie assassino e o heavy metal o punk vão glorificar o barulho e o ódio. Com a pressão do mercado mais sólida e invencível, a falsa violência comercial, sem meta, nem ideologia, fica mais louca e ridícula. Os shows de rock viram missas negras que lembram comícios fascistas. É musica péssima, sem rumo e sem ideal. A revolta se dissolve e só fica o ódio e o ritual vazio. Hoje, chegamos a isso, a essas mortes gratuitas. A cultura e a arte foram embora”.

Quem conhece Heavy Metal sabe que a intenção da música não é pregar "ódio e violência" e que os eventos destinados ao estilo musical não são "missas negras".Surpreendo-me ao saber que tal expressão ainda é usada, quando sabemos que “missas negras” é fruto do preconceito da Igreja Católica ao referir-se a cultos realizados por minorias.Uso as palavras de Ricardo Boessio em um artigo do site Duplipensar. “Nem o colunista global, nem os leitores aqui precisam gostar do peso do heavy metal. Ninguém precisa gostar de um estilo musical. Porém querer tachar como violento, ou que prega a violência é uma ignorância tamanha, digna de pessoas intolerantes e que querem empurrar os seus gostos pessoais para os outros”.

Indo ao cerne da questão, preconceito está diretamente ligado ao ódio e a violência e não a um estilo musical, vide o documentário de Michael Moore “Tiros em Columbine”, onde tentam empurrar a música de Marylin Manson como influência e causa dos assassinatos na high-school Columbine, nos Estados Unidos.

Não é surpresa que um jornal atue de forma conservadora, especialmente na Rede Globo.O problema é quando uma reportagem é prejudicada pela ignorância, pelo desejo de disseminar o preconceito e da necessidade de rotulação.

É de causar indignação como que o maior orgão formador de opinião do país pode cometer tão grandioso erro, manchando o nome de um movimento, por causa de um crime ocorrido, onde o assassino nem pertencia ao movimento; e mais questionável quando essa mesma emissora "conservadora" promove estilos como o funk, som de terceira qualidade e com letras imundas e imorais! Drogas? E o Belo, pagodeiro do grupo Soweto, condenado a 8 anos de prisão por tráfico e associação ao tráfico de drogas? E o Rafael Ilha, do grupo Pop Polegar, que engoliu um isqueiro e robou um cobrador de ônibus para sustentar seu vício? E assim enumeraria uma infinidade de ídolos “não-metaleiros” envolvidos em casos semelhantes.

Finalizando.Deve passar longe das telas e impressos de Copacabana e da Elite carioca, da qual Jabor faz parte, eventos como o Live Aid organizado em grande parte por astros do Rock, inclusive o “terror das boas famílias”, Black Sabbath; O show ocorrido em 1992 em homenagem a Freddy Mercury, ex-vocalista do Queen, reunindo nomes como Extreme, Metallica e Guns’n Roses que teve sua renda revertida para o combate a AIDS; Haja visto a reunião do Pink Floyd este ano para arrecadar dinheiro para combater a fome na África. As manifestações contra a guerra no Iraque liderada por nomes como Eddie Vedder, do Pearl Jam; As manifestações anti-capitalismo estadunidense do System of a Down, Green Day e do “The Boss”, Bruce Springsteen no hit “Born in USA”; A luta pelo direito das mulheres liderada pelo grupo L7; E uma infinidade de exemplos.

O heavy Metal certamente não é o gênero mais correto. Ódio e violência são problemas relacionados à sociedade corrompida pelo desprezo político e à desorganização social e não a um estilo musical. Não me aborreço apenas como fã do Heavy Metal, mas também como acadêmico de jornalismo, que assiste a tamanha irresponsabilidade e desprezo pelo espectador que assiste ao jornal.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Chico Buarque - A casa do Oscar

A casa do Oscar era o sonho da família. Havia o terreno
para os lados do Iguatemi, havia o ante-projeto presente no
próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar
na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu
pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava
dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num
aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o
terreno no Iguatemi. Deste modo, a casa do Oscar antes de
existir foi demolida, ou ficou intacta, suspensa no ar como
a casa do beco de Manuel Bandeira. Senti-me traído,
tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço
contra a minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha
e normanda: ‘Só volto pra casa quando for a casa do Oscar!’



Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguases, projeto
do Oscar. Vivi um seis meses naquele casarão do Oscar, achei
pouco. Decidi a ser o Oscar eu mesmo, regressei a São Paulo,
estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o
pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia que me
reprovou no exame oral, respondi calado: ‘Lá em casa tem um
canudo com a
casa do Oscar...’



Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim.
Quando minha música sai boa, penso que parece música de Tom
Jobim. Música de Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar.(Chico Buarque)