domingo, outubro 28, 2007

Café com... Cláudio Assis brincando de ser Deus

Na abertura da 3ª Mostra de Cinema da Estácio, o diretor Cláudio Assis fala de cinema, perversões, vacas sacrificadas, publicidade e de seu maior prazer: desagradar

Renan Damasceno
Cláudio Assis não é, nem de longe, um gentleman ou um verdadeiro “homem de cinema”. Está mais para um personagem de pornochanchada – nordestino, camisa florida, boné e palavrões na ponta da língua. Não faz questão de responder todas as perguntas, faz alongamento com os braços e boceja na hora que tem vontade. Prefere os comentários sobre as reações dos espectadores a divagações filosóficas ou interpretações da sua obra.

“Sabe o que é o melhor do cinema? É que no cinema você pode fazer o que quiser”. A mensagem de Assis em Baixio das Bestas (2007), segundo filme do diretor, precedido por Amarelo Manga (2003), não é por acaso. Seu índice de rejeição e capacidade de provocar ojeriza no público é das maiores do mercado. Não se preocupa em filmar vacas sendo sacrificadas, prostitutas sendo violentadas ou cenas de perversão sexual. Afinal, o filme é dele.


O vigor com que o diretor defende suas idéias é bem maior que a preocupação estética e teórica para realizar seus filmes. Assis tem razão. Em um mundo que “muita gente fala merda com tom de coisa séria”, um pouco de carne crua não faz mal a ninguém. “Filmo o que quero. Provo com meus filmes que o cinema brasileiro tem capacidade para produzir muito mais que triângulo amoroso, com fundo político”, comenta com veemência e gestos ríspidos. “Se eu quisesse agradar ia fazer propaganda da OMO. Faço o que tenho vontade. O cinema é o único lugar que o homem pode ser Deus”.

Não existe tréplica para as respostas do pernambucano. A força de suas idéias parecem incontestáveis. Não havia ninguém na platéia que ousasse criticar Amarelo Manga na frente do autor. “É , ele tem razão”, repetiam, quase em coro, os que assistiram a palestra até o final. Não por covardia, e, sim, por Assis demonstrar, com muita honestidade, que o homem não é capaz de confrontar com sua própria imagem nas telas.

Os personagens de Amarelo Manga são capazes das mais diversas perversões, resguardadas pelos mais falsos pudores. Os desejos mais estranhos e as motivações mais esquisitas. Tudo acontece em uma dia, mas nada muda na vida das pessoas. Continuam as mesmas, girando em torno de órbitas próprias tingindo o mundo de um amarelo hepático e pulsante. Não o amarelo das coisas postas, mas um amarelo manga farto!

sábado, outubro 20, 2007

Cine Mundi - Peru

Pantaleão e as visitadoras (dir. Francisco Lombardi. 1999)

- À primeira impressão, a versão cinematográfica do clássico de Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, parece uma 'pornochanchada', no melhor estilo brasileiro, com pitadas de erotismo e muito humor. Ambientado no meio da Amazônia Peruana, os planos muito se assemelha aos de Fitzcarraldo, de Werner Herzog. Enfim, um realismo fantástico, assinado por Llosa e adaptado à risca pelo diretor Francisco Lombardi.

"Pantaleon y las visitadoras", (Vargas Llosa, em 1973), foi a forma encontrada pelo escritor peruano de criticar as hipocrisias do poder e da sociedade. O resultado: o defronte entre o exército, guardião da moral e protetor da pátria, e a profissão mais antiga do mundo, prostituição. A narrativa: Realismo Fantástico, assinado pelo escritor que mais representa o país no exterior. Uma mistura de realidade e ficção. Personagens reais em situações surreais.

O humor é irretocável. Característica de Llosa que o diferencia de grandes escritores latinos, de escrita semelhante, como Garcia Márquez e Júlio Cortázar.

Em 1975, o livro foi transformado em roteiro e co-dirigido pelo próprio autor. A nova versão (foto) foi o único filme produzido no país vizinho, em 1999. Venceu o prêmio Goya de melhor película estrangeira falada em espanhol e ganhou sete Kikitos de Ouro, em Gramado.

Além de Pantaleon, "A cidade e os cachorros", de Llosa, também foi adaptado para o cinema.


Madeinusa (dir. Cláudia Llosa. 2006)

Deus está morto. O filme é vermelho, cor do sangue que escorre da virgem Madeinusa, que no Dia Santo é prometida ao próprio pai.
A loucura, inquieta. A inocência, perdida. A submissão, eterna.
Com os valores religiosos acima dos valores humanos, a hipocrisia segue escondida atrás das Cordilheiras Brancas, longe dos olhos de Deus.

Um filme curioso, mas não deixa de ser interessante. Madeinusa é uma menina de 14 anos que vive no vilarejo de Manayaycuna, localizado em algum ponto remoto das montanhas da Cordilheira Branca peruana. Os habitantes, são conhecidos pelo fervor religioso e por um estranho ritual, celebrado tradicionalmente todos os anos. Para eles da Sexta-Feira Santa ao Domingo de Páscoa o pecado não existe, pois Deus está morto.

Assim todas as pessoas do povoado podem fazer o que quiserem no decorrer desses dias, sem nenhum remorso ou culpa. Porém a chegada acidental do jovem geólogo Salvador, justamente na véspera da celebração, desperta a curiosidade de Madeinusa.