segunda-feira, dezembro 02, 2013

Escobares


Há exatos 20 anos, em 2 de dezembro de 1993, era assassinado o narcotraficante Pablo Escobar, o colombiano que contrabandeou centenas de toneladas de cocaína para os EUA, controlou a agenda de presidentes e mandou assassinar quem se opusesse ao cartel de Medellín, na virada dos anos 1980 para 1990.

No auge do poder, Escobar iluminou centenas de campos de futebol nas periferias da cidade e transformou o seu time, o Atlético Nacional (apelidado de Narconal) em potência continental, campeão da Libertadores’1989, com time que era base da Seleção da Colômbia, comandada por Francisco Maturana.

No Nacional jogava um de seus atletas favoritos, o zagueiro e capitão Andrés Escobar, que em 1994 marcou o gol contra que culminou na eliminação da Colômbia na Copa do Mundo. Escobar foi assassinado 10 dias depois de chegar ao país, muito provavelmente a mando do narcotráfico e de apostadores que perderam dinheiro com a eliminação do time.

Fim de linha trágico para dois homens com o mesmo sobrenome e de histórias entrelaçadas, embora um fosse totalmente inocente. Para quem se interessar, a ESPN contou a história brilhantemente neste documentário aqui


Leia também: O fantasma de Pablo Escobar

segunda-feira, junho 17, 2013

O maior Taiti de todos os tempos



Acompanhei de perto nos últimos 10 dias a epopeia da Seleção Taitiana na sua primeira aventura longe da Oceania em competição adulta organizada pela Fifa. Fiquei tão familiarizado, que temi até ser relacionado para o jogo de hoje contra a Nigéria. Fui presenteado com colar de conchas da Polinésia, aprendi sobre a cultura dos To’a Aitos (guerreiros de aço, na língua local) e vi que, em termos de esporte, a praia deles é outra – belíssimas praias, por sinal, não faltam na ilha de pouco mais de 150 mil habitantes.

Em tempos de burocracia, jogadores recusando entrevistas, salários astronômicos e até ameaças de não disputar a Copa das Confederações por discordar da premiação, o Taiti foi um presente para os apaixonados pelo futebol. Não pela qualidade técnica, que certamente vai ficar devendo, mas por ainda guardar um romantismo há muito tempo em falta no esporte: joga pelo amor ao futebol, dividindo os treinos com rotinas pesadas de trabalho. Seus jogadores são amadores, no sentido mais puro da palavra.

Hoje, a Seleção do Taiti seremos eu, você e todos nós que um dia sonhamos em entrar em um estádio e ser aplaudidos de pé. É a vitória da pelada, da várzea, do futebol de fim de semana. Talvez seja essa a essência que o profissionalismo perdeu pelo caminho: a possibilidade de transformar o sonho em realidade.

Somente o esporte e o cinema são capazes de traçar roteiros como a vinda do Taiti ao Brasil, do time jamaicano de bobsled à Olimpíada de Inverno’1988 (que inspirou o filme Jamaica abaixo de zero), ou a participação de Eric Moussambani na Olimpíada de Sydney’2000 – aquele nadador da Guiné Equatorial que quase morreu afogado por nunca ter treinado em piscina olímpica.

Talvez os taitianos não marquem nenhum gol – sim, é bem possível – ou sofram mais de 10 em uma só partida – isso é mais provável ainda. Mas a missão dos comandados do técnico Eddy Etaeta está cumprida. Não são eles que têm de nos agradecer pela oportunidade – como fizeram, educadamente, na última sexta-feira ao cantar para a imprensa uma música escrita pelo goleiro. Nós é que temos de aplaudi-los por reacender nossa capacidade de acreditar e sonhar. Allez, To’a Aito!

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Saudades e cinzas não foram apenas o que restou



Ao receber a incumbência de comandar esta croniqueta durante a festa de Momo, não perdi tempo e fui vasculhar músicas, discos e livros sobre a folia. Logo no primeiro dia, porém, descobri que nem os versos de Vinicius nem o samba de Nelson Cavaquinho, Noel e Cartola substituíam a experiência de ficar espremido no meio de um bloco, embolado ladeira abaixo, cantando e se arriscando ao tamborim.

Em quatro dias, visitei duas dúzias de blocos, subi e desci ruas e avenidas, com várias perguntas na cabeça e um bloco de papel na mão. Rasguei e rabisquei anotações que julguei impublicáveis. Descobri, entre outras coisas, que a dor é parte essencial do samba – e não falo das irremediáveis paixões de carnaval, que os foliões costumam levar uma quaresma inteira para curar.

Além da saudade e das cinzas, restaram bolhas nos pés, ressaca e a sensação de uma bateria inteira dentro da cabeça ao deitar no travesseiro. Acordei com gosto de fim de festa na boca e arrematei mais uma dose de animação antes de cair novamente na farra. Tive a certeza de que as entidades divinas criaram a quarta-feira justamente para os filhos de Deus não se acabarem na esbórnia.

Vi ciganas e falsos profetas, anjos e cafetinas. Prometeram-me o céu em uma roda de samba e, diante da minha recusa, desejaram-me um show de funk. Vi ruas quietas serem tomadas por confetes e serpentinas e, poucas horas depois, voltarem ao sossego típico de feriado. Muitos que espiavam pelas janelas não apenas viram a banda passar, como se juntaram cantando e dançando coisas de amor.

Pulei carnaval do Mangabeiras ao Padre Eustáquio, da Cidade Jardim ao Concórdia e vi a Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza, mais cheia do que Mineirão em dia de Cruzeiro e Atlético – mas com água e tropeiro de boa qualidade.



Renan Damasceno (Publicação: 13/02/2013 04:00)

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Do mangue beat aos Beatles




Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar. Está certo. Diferentemente do introspectivo folião de Quando o carnaval chegar, de Chico Buarque, que se preservava calado para os dias de Momo, mexer o corpo com coordenação nunca foi meu forte, nem mesmo no futebol. Ontem, porém, tive de me concentrar nos diversos ritmos e acordes das ruas de Belo Horizonte para não perder o compasso.

No começo não foi muito fácil. Ao chegar ao Barro Preto, demorei alguns minutos para compreender o batuque, mais cadenciado do que maracatu, reforçado por berimbaus e tambores de capoeira de angola. Agogô, reco-reco e atabaque ditavam o ritmo das saias e cabelos das meninas que giravam feito peões. Música “sacolejante e malemolente, a mais fina flor da música popular preta brasileira”, como definiu um dos organizadores. Arrisquei um pouco e entendi o requebrado.

No berço de uma das mais antigas guardas de congo e moçambique, a dança folclórica africana, no Concórdia, o Filhos de Tcha Tcha apurava os tamborins para sair pelas ruas do bairro. Aplaudi a atitude e saquei o ritmo. Sem perder tempo, descendo a ladeira da Afonso Pena, o Bom Bloquiu pedia bênção a Tim Maia e Jorge Benjor. Quatro estudantes, com fardas coloridas sob sol a pino, me convidaram para cantar com eles o refrão de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Me senti confortável, em casa.

A viagem sonora – beirando sociológica e etnográfica – terminou com o Baianas Ozadas, aos pés do viaduto de Santa Tereza, que me apresentou uma terminologia diferente: “axé vintage”. Um axé old school, de raiz, sacou? Algo com pitadas de Luiz Caldas, que permite também inserções bem-humoradas do grupo Molejo e de Sidney Magal.

Confesso que foi difícil ficar parado – até para não ser atropelado. O folião Vinícius Grissi, cansado de dançar por três dias em BH, me confidenciou que está pensando em descansar em Diamantina no próximo carnaval.




Renan Damasceno (Publicação: 12/02/2013 04:00)

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

As esquinas (e curvas) de Santa Tereza






O escritor e jornalista Ruy Castro escreveu certa vez que, além da Igreja Católica, apenas o jogo do bicho e o Flamengo são tão abrangentes no Brasil – não por acaso se alimentam da mesma matéria-prima: a fé. Fico em dúvida se, embora seja essencialmente uma festa pagã, o carnaval não se inclua nesta lista. Afinal, alguma crença, dogma ou força estranha deve agir durante quatro dias para um grupo de foliões, sob sol ou chuva, se espremer na luta por uma cerveja, encarar filas em banheiros químicos e subir Bahia e descer Floresta dançando incessantemente como se não houvesse quarta-feira de cinzas.

Tantas ressacas, intempéries e bolhas nos pés se justificam, em parte, por um detalhe – pelo menos para nós, homens: os shortinhos. Aqueles, de pouco mais de um palmo, desbotados ou coloridos, colados ou desfiados. Jeans, de tecido estampado florido, com ou sem bolso. Ontem ao entardecer, nas ladeiras de Santa Tereza, as micropeças ajudavam a definir as curvas e pernas bem torneadas das meninas. As silhuetas se fundiam no compasso dos tantos blocos espalhados pelas históricas ruas do bairro.

Belo Horizonte foi para dentro do pulsante e efervescente bairro da boemia e da música. As meninas (que eram em maior número que os homens) deram brilho às ruas de pedra e às esquinas. As que não nos deram o prazer do shortinho – e minissaias – se fantasiaram sem perder a simpatia. Deixaram o coração bater sem medo, cantando em homenagem a Clara Nunes, Vinicius e, claro, Milton Nascimento. O Bloco da Esquina, em devoção a Milton e cia., fez seus votos no cruzamento das ruas Paraisópolis e Divinópolis, onde o Clube começou.

Ninguém escapava às brincadeiras. Uma falsa baiana prometeu trazer meu amor em apenas dois minutos. Ao explicar que minha namorada estava longe dali, a baiana desconversou e achou melhor não buscá-la com medo de alguma blitz da Lei Seca.


Renan Damasceno (Publicação: 11/02/2013 04:00)

domingo, fevereiro 10, 2013

Brilhante!


Fui assaltado uma única vez em Belo Horizonte, em um sossegado e ermo sábado de carnaval. Desde então (já se passaram oito anos), por esses dias, olho para os dois lados ao colocar o pé direito na calçada e me benzo três vezes antes de cruzar a rua. Há quatro anos, porém, não me sinto tão sozinho na capital nos dias de Momo. A folia – que chegou a BH 47 dias depois da fundação, em fevereiro de 1898, mas perdeu força a partir da década de 1980 – recuperou o fôlego, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.

Desde as primeiras horas da manhã de ontem um rastro de cor, suor e batucada tomou as ruas do Centro e bairros de BH. Desceram Pernambuco, cruzaram Bahia, sambaram na Rio de Janeiro. Grupos se reuniram no Santo Antônio, no Santa Tereza, na Savassi e no Calafate. Para algumas centenas de foliões (chegando a milhares ao longo do dia), a Afonso Pena e a Praça da Estação eram a mais pura e apoteótica passarela.

Mas nada foi tão emblemático, tão brilhante, quanto o sambão do lado de baixo da Santos Dumont. Na Guaicurus, onde se concentra boa parte do meretrício, boates e malandros sem gravata e capital, o bloco Então Brilha! animou foliões e foliãs vestidos a caráter, comerciantes, transeuntes e, claro, as profissionais que labutavam a todo o vapor. No intervalo do sobe e desce frenético, algumas moças saíram e se arriscaram no samba. As roupas cintilantes e minúsculas, usadas para sedução, se tornaram abadás. As janelas de vidro fumê viraram camarotes. Baldes d’água refrescavam quem passava. Com sorriso largo, elas acenavam para quem curtia a festa.

O carnaval ainda anima uma pequena parcela dos moradores de BH. A calmaria ainda reina na maior parte dos bairros e praças. Os grupos que resolveram botar o bloco na rua são em boa parte ligados ao sentimento de ruptura com o establishment e de ocupação consciente do espaço público. Sob o clima de festa, paira uma forte crítica social e política, em músicas e atitudes. Os alvos, em especial, são figuras públicas que se perpetuam no poder ou se envolveram em escândalos recentes. Eu, por exemplo, sofria chacotas e reprimendas sempre que descobriam que meu nome é Renan.


Publicação: 10/02/2013 04:00  (Renan Damasceno/EM/D.A Press) 

quinta-feira, janeiro 03, 2013

O último corte do Moviola

O Moviola encerra hoje suas atividades. 

Desde 5/7/2005 – quase oito anos, portanto – foram 313 postagens, modestas 60,3 mil visitas (até ontem) e muitas histórias. O blog, que nasceu despretensiosamente como forma de exercitar em texto as ideias que nasciam na faculdade de jornalismo, foi ganhando forma e fui tomando gosto.

Rendeu muita coisa legal. Quando clico aleatoriamente em algum texto antigo, vejo o quanto meus gostos, interesses e forma de enxergar o mundo mudaram em quase uma década, que coincide com minha vinda para Belo Horizonte.

Continuo com dois projetos: um particular e outro profissional. Desde 1/1/2013 mantenho o 365movies, com o objetivo de registrar um filme por dia até o último dia do ano. Como extensão do meu trabalho como repórter de esportes especializados do Estado de Minas, edito desde o fim do ano passado o blog Bola ao alto,que assumi após uma exceleten experiência comandando o Mind the Gap, durante a Paralimpíada de Londres.

Um abraço, feliz 2013 e nos vemos aqui:




Estação central de Amsterdam. Setembro/2012. Foto: Renan Damasceno