quinta-feira, janeiro 16, 2014

Acenos e cotoveladas: uma viagem no trem Vitória-Minas



Mineiro, segundo Fernando Sabino, não perde o trem. Viajando pela estrada de ferro Vitória-Minas, em outubro passado, percebi, além disso, que o bom mineiro não perde a oportunidade de acenar quando a locomotiva passa. Foram 664 quilômetros, de Belo Horizonte a Cariacica, sendo prontamente e amigavelmente atendido toda vez que erguia o braço.

A viagem, muito mais do que uma ode à mineiridade, é cheia de surpresas. E, ao contrário do que supõe a longa extensão e a duração de 13 horas, é agradável. Isso, claro, se se optar pela classe executiva (R$ 87), em vez da econômica (R$ 56). São vagões com ar condicionado e cadeiras macias, iguais as de ônibus.

Você embarca em Belo Horizonte às 7h30, se surpreende com a bonita paisagem em Sabará, fica horrorizado com a devastação das mineradoras um pouco mais à frente, em Barão de Cocais, às 9h. Vai ao vagão-restaurante, toma um café com pão e manteiga (custa por volta de R$ 3). Falta pouco para um garçom passar anotando os pedidos do almoço: o preço é convidativo, com opções que vão de filé de frango (R$ 13), carré (R$ 14) à deliciosa picanha (R$16), todos acompanhados de arroz, feijão, batata frita e farofa.

Os rios são os companheiros de quase toda viagem. Pela manhã, o Rio Piracicaba. À tarde, o Rio Doce, com seus bancos de areia e água de cor barrenta. Depois do almoço, que pode ser servido no restaurante ou na poltrona, um cochilo até chegar a Governador Valadares, às 14h, o meio da viagem.

Ao passo que o trem vai descendo rumo ao Espirito Santo,  a tarde cai. Pela janela, se vê a rotina de pequenas cidades e vilarejos: Galiléia, Conselheiro Pena, Resplendor, Aimorés … sobe e desce nas estações, mãe buscando criança na escola, aposentados proseando na praça. Ao contrário do que estamos acostumados em relatos orais, músicas ou na literatura mineiriana, as 29 estações (ou simples paradas) não são cheias de romantismo. São trocas rápidas e práticas, com gente correndo para visitar parentes, trabalhar ou ir ao médico – poucos são os viajantes a turismo.

O trem cruza a divisa lá pelas 17h. Boa hora para mais um cafézinho e uma ida ao vagão de leitura, para carregar o celular, ler um trecho de livro ou, para quem prefere, trabalhar um pouco no notebook – a falta de wi-fi é o ponto negativo. O maquinista avisa para fechar as janelas, já que, na falta de coisa melhor a se fazer, costumam jogar pedras nos vagões.

Às 20h30, entre cotoveladas, abraços, malas e bugingangas, o desembarque.

Entre edredons, sustos e suspiros


Quando o acrófobo personagem de James Stewart em Um Corpo que Cai (1958) se pendurou na calha para não despencar do telhado, às 4h47 de ontem, os cerca de 30 espectadores que resistiam bravamente diante do telão montado na parte externa do Palácio das Artes esfregaram os olhos e apertaram os dedos contra as cadeiras de plástico. Esse turbilhão de sensações – a tensão, o medo, o susto, o alívio –, adicionadas a xícaras de café, bate-papo e garrafas de vinho, ajudaram o público a se manter vivo ao longo da madrugada, enquanto Alfred Hitchcock tramava planos para fulminar seus protagonistas em Os pássaros (exibido às 23h), Disque M para matar (2h) e Um corpo que cai (4h30).

Dentro da sala do Humberto Mauro, que teve todas as sessões lotadas – a fila para a sessão das 2h começou a se formar às 20h30! –, o silêncio era cortado pelos sustos, pacotes de biscoito se abrindo, um ou outro ronco e suspiros por Tippi Hedren, James Stewart, Kim Novak ou Grace Kelly (esta última, exuberante no 3D). Por volta da 1h30, José Mojica Marins evocou Zé do Caixão para amenizar o clima de tensão e tirar risadas do público.

Quem não conseguia bilhete encostava-se nos cantos para um cochilo, dividindo cobertores e edredons, ou ia ao balcão para mais um café. Segundo um dos garçons, foram mais de 200 xícaras de expresso. Um garoto ao meu lado acordou assustado com o alarme do celular às 6h30, lembrando que faltava meia hora para bater ponto no trabalho.

Às 6h53, quando terminou a exibição de Um corpo que cai, o sol prejudicava consideravelmente a visibilidade do telão. Em vez de reclamações, veio um clima de alívio na fila para o café: entre as árvores do Parque Municipal, os passarinhos assobiavam uma melodia tranquila, sem dar pistas de que iriam assassinar os transeuntes.

(Publicado originalmente no caderno Gerais, do Estado de Minas, em 25/8/2013, em página dedicada a Mostra Hitchcock, no Cine Humberto Mauro)

terça-feira, janeiro 14, 2014

Gol de letra



Embora tenha chegado ao Brasil no fim do século 19 e se organizado a partir de 1916, com a criação da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), hoje CBF, o futebol só abandonou a cartola e o fraque no início da década de 1930, quando os principais jornais, sobretudo os cariocas, sob influência de jornalistas como Mário Filho, trocaram a pompa e a sisudez – “será levado a efeito amanhã, no aprazível field, o esperado match...” – por expressões que o aproximassem do público, dando tratamento lírico, dramático e, por que não?, épico à disputa e a seus protagonistas.

Flamengo é puro amor, do paraibano José Lins do Rego (Editora José Olympio), é mais uma importante coleção de textos de um dos períodos mais férteis do futebol brasileiro. São 111 crônicas pinçadas entre as 1.517 publicadas pelo autor de Menino de engenho no Jornal dos Sports, de março de 1945 a julho de 1957 – ano de sua morte. Titular da coluna Esporte e vida, José Lins se dedicou bravamente a defender o rubro-negro, a quem ele definia como “o clube do povo”.

Mais do que uma ode ao rubro-negro, o espaço concedido ao autor serviu para enriquecer a crônica esportiva, que, assim como o próprio futebol, engatinhava no profissionalismo. Embora outros literatos já tivessem dedicado textos ao futebol – João do Rio, outro rubro-negro notável, já tratava de seu amor clubístico na década de 1910 –, José Lins foi o primeiro grande escritor brasileiro a escrever sistematicamente sobre o esporte. Quando estreou a coluna, já se passava quase uma década da conclusão dos já consagrados livros que compõem o ciclo da cana, de Menino de engenho (1932) a Usina (1936).

Um dos mais importantes romancistas regionalistas do país, José Lins aceitou o convite de Mário Filho – dono do Jornal dos Sports e responsável por abdicar do formalismo em favor de um registro mais coloquial, próximo do linguajar do torcedor. Foi Mário, que dá nome ao Maracanã, quem popularizou termos como o Fla-Flu, ajudando a tornar o futebol o esporte das multidões e influenciando todos os grandes cronistas esportivos posteriores, de seu irmão mais novo, Nelson Rodrigues, a Sandro Moreyra, João Saldanha e Armando Nogueira.

Nas 111 crônicas selecionadas pelo jornalista Marcos de Castro, José Lins se notabiliza muito mais pela leveza de seus textos do que pela profundidade social e psicológica, que caracterizam as crônicas dos irmãos Rodrigues. São textos curtos, que muitas vezes fogem ao futebol para fazer um retrato dos costumes do Rio dos anos 1940 e 1950, e desprovidos de detalhes – na maioria dos textos nem sequer cita o resultado ou times envolvidos nas partidas que comenta, tornando essenciais as detalhadas notas do autor, que ocupam quase um terço do livro. São crônicas sobre o Flamengo de Domingos, Biguá, Perácio ou Zizinho, mas que também trata sobre os ídolos do América, Botafogo, Fluminense e Vasco.

Provocações Para aflorar a rivalidade entre os clubes, Zé Lins (como era chamado pelos próximos) utiliza amigos e personagens do seu cotidiano, com provocações ao livreiro Bertrand, da Rua do Ouvidor, torcedor do Fluminense, ou ao garçom Antero, da Confeitaria Colombo, vascaíno, assim como a amiga Rachel de Queiroz, a quem trata como uma vascaína por engano, por ter alma amadora, típica de rubro-negra. Por fim, ainda no campo das relações pessoais, o autor demonstra predileção pelos dirigentes – atitude que causaria estranheza nos tempos atuais, já que a crônica, ao longo das décadas, deu passos importantes no sentido de transformar os craques em protagonistas, e não os cartolas.

Flamengo é puro amor, mais do que um livro restrito aos valores e paixão rubro-negros, é um rico instrumento para analisar a crônica esportiva às luzes da literatura. Foi na experiência de 12 anos no Jornal dos Sports que o autor verificou “que a crônica esportiva era maior agente de paixão que polêmica literária ou o jornalismo político” (7/3/1945) e que “a informação esportiva, mais do que qualquer outra, deve se impor pela sua cordialidade e lisura de trato (carregando) a responsabilidade de educar o povo” (22/6/1945).

Publicado, originalmente, no caderno Pensar, do Estado de Minas

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Escobares


Há exatos 20 anos, em 2 de dezembro de 1993, era assassinado o narcotraficante Pablo Escobar, o colombiano que contrabandeou centenas de toneladas de cocaína para os EUA, controlou a agenda de presidentes e mandou assassinar quem se opusesse ao cartel de Medellín, na virada dos anos 1980 para 1990.

No auge do poder, Escobar iluminou centenas de campos de futebol nas periferias da cidade e transformou o seu time, o Atlético Nacional (apelidado de Narconal) em potência continental, campeão da Libertadores’1989, com time que era base da Seleção da Colômbia, comandada por Francisco Maturana.

No Nacional jogava um de seus atletas favoritos, o zagueiro e capitão Andrés Escobar, que em 1994 marcou o gol contra que culminou na eliminação da Colômbia na Copa do Mundo. Escobar foi assassinado 10 dias depois de chegar ao país, muito provavelmente a mando do narcotráfico e de apostadores que perderam dinheiro com a eliminação do time.

Fim de linha trágico para dois homens com o mesmo sobrenome e de histórias entrelaçadas, embora um fosse totalmente inocente. Para quem se interessar, a ESPN contou a história brilhantemente neste documentário aqui


Leia também: O fantasma de Pablo Escobar

segunda-feira, junho 17, 2013

O maior Taiti de todos os tempos



Acompanhei de perto nos últimos 10 dias a epopeia da Seleção Taitiana na sua primeira aventura longe da Oceania em competição adulta organizada pela Fifa. Fiquei tão familiarizado, que temi até ser relacionado para o jogo de hoje contra a Nigéria. Fui presenteado com colar de conchas da Polinésia, aprendi sobre a cultura dos To’a Aitos (guerreiros de aço, na língua local) e vi que, em termos de esporte, a praia deles é outra – belíssimas praias, por sinal, não faltam na ilha de pouco mais de 150 mil habitantes.

Em tempos de burocracia, jogadores recusando entrevistas, salários astronômicos e até ameaças de não disputar a Copa das Confederações por discordar da premiação, o Taiti foi um presente para os apaixonados pelo futebol. Não pela qualidade técnica, que certamente vai ficar devendo, mas por ainda guardar um romantismo há muito tempo em falta no esporte: joga pelo amor ao futebol, dividindo os treinos com rotinas pesadas de trabalho. Seus jogadores são amadores, no sentido mais puro da palavra.

Hoje, a Seleção do Taiti seremos eu, você e todos nós que um dia sonhamos em entrar em um estádio e ser aplaudidos de pé. É a vitória da pelada, da várzea, do futebol de fim de semana. Talvez seja essa a essência que o profissionalismo perdeu pelo caminho: a possibilidade de transformar o sonho em realidade.

Somente o esporte e o cinema são capazes de traçar roteiros como a vinda do Taiti ao Brasil, do time jamaicano de bobsled à Olimpíada de Inverno’1988 (que inspirou o filme Jamaica abaixo de zero), ou a participação de Eric Moussambani na Olimpíada de Sydney’2000 – aquele nadador da Guiné Equatorial que quase morreu afogado por nunca ter treinado em piscina olímpica.

Talvez os taitianos não marquem nenhum gol – sim, é bem possível – ou sofram mais de 10 em uma só partida – isso é mais provável ainda. Mas a missão dos comandados do técnico Eddy Etaeta está cumprida. Não são eles que têm de nos agradecer pela oportunidade – como fizeram, educadamente, na última sexta-feira ao cantar para a imprensa uma música escrita pelo goleiro. Nós é que temos de aplaudi-los por reacender nossa capacidade de acreditar e sonhar. Allez, To’a Aito!

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Saudades e cinzas não foram apenas o que restou



Ao receber a incumbência de comandar esta croniqueta durante a festa de Momo, não perdi tempo e fui vasculhar músicas, discos e livros sobre a folia. Logo no primeiro dia, porém, descobri que nem os versos de Vinicius nem o samba de Nelson Cavaquinho, Noel e Cartola substituíam a experiência de ficar espremido no meio de um bloco, embolado ladeira abaixo, cantando e se arriscando ao tamborim.

Em quatro dias, visitei duas dúzias de blocos, subi e desci ruas e avenidas, com várias perguntas na cabeça e um bloco de papel na mão. Rasguei e rabisquei anotações que julguei impublicáveis. Descobri, entre outras coisas, que a dor é parte essencial do samba – e não falo das irremediáveis paixões de carnaval, que os foliões costumam levar uma quaresma inteira para curar.

Além da saudade e das cinzas, restaram bolhas nos pés, ressaca e a sensação de uma bateria inteira dentro da cabeça ao deitar no travesseiro. Acordei com gosto de fim de festa na boca e arrematei mais uma dose de animação antes de cair novamente na farra. Tive a certeza de que as entidades divinas criaram a quarta-feira justamente para os filhos de Deus não se acabarem na esbórnia.

Vi ciganas e falsos profetas, anjos e cafetinas. Prometeram-me o céu em uma roda de samba e, diante da minha recusa, desejaram-me um show de funk. Vi ruas quietas serem tomadas por confetes e serpentinas e, poucas horas depois, voltarem ao sossego típico de feriado. Muitos que espiavam pelas janelas não apenas viram a banda passar, como se juntaram cantando e dançando coisas de amor.

Pulei carnaval do Mangabeiras ao Padre Eustáquio, da Cidade Jardim ao Concórdia e vi a Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza, mais cheia do que Mineirão em dia de Cruzeiro e Atlético – mas com água e tropeiro de boa qualidade.



Renan Damasceno (Publicação: 13/02/2013 04:00)

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Do mangue beat aos Beatles




Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar. Está certo. Diferentemente do introspectivo folião de Quando o carnaval chegar, de Chico Buarque, que se preservava calado para os dias de Momo, mexer o corpo com coordenação nunca foi meu forte, nem mesmo no futebol. Ontem, porém, tive de me concentrar nos diversos ritmos e acordes das ruas de Belo Horizonte para não perder o compasso.

No começo não foi muito fácil. Ao chegar ao Barro Preto, demorei alguns minutos para compreender o batuque, mais cadenciado do que maracatu, reforçado por berimbaus e tambores de capoeira de angola. Agogô, reco-reco e atabaque ditavam o ritmo das saias e cabelos das meninas que giravam feito peões. Música “sacolejante e malemolente, a mais fina flor da música popular preta brasileira”, como definiu um dos organizadores. Arrisquei um pouco e entendi o requebrado.

No berço de uma das mais antigas guardas de congo e moçambique, a dança folclórica africana, no Concórdia, o Filhos de Tcha Tcha apurava os tamborins para sair pelas ruas do bairro. Aplaudi a atitude e saquei o ritmo. Sem perder tempo, descendo a ladeira da Afonso Pena, o Bom Bloquiu pedia bênção a Tim Maia e Jorge Benjor. Quatro estudantes, com fardas coloridas sob sol a pino, me convidaram para cantar com eles o refrão de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Me senti confortável, em casa.

A viagem sonora – beirando sociológica e etnográfica – terminou com o Baianas Ozadas, aos pés do viaduto de Santa Tereza, que me apresentou uma terminologia diferente: “axé vintage”. Um axé old school, de raiz, sacou? Algo com pitadas de Luiz Caldas, que permite também inserções bem-humoradas do grupo Molejo e de Sidney Magal.

Confesso que foi difícil ficar parado – até para não ser atropelado. O folião Vinícius Grissi, cansado de dançar por três dias em BH, me confidenciou que está pensando em descansar em Diamantina no próximo carnaval.




Renan Damasceno (Publicação: 12/02/2013 04:00)

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

As esquinas (e curvas) de Santa Tereza






O escritor e jornalista Ruy Castro escreveu certa vez que, além da Igreja Católica, apenas o jogo do bicho e o Flamengo são tão abrangentes no Brasil – não por acaso se alimentam da mesma matéria-prima: a fé. Fico em dúvida se, embora seja essencialmente uma festa pagã, o carnaval não se inclua nesta lista. Afinal, alguma crença, dogma ou força estranha deve agir durante quatro dias para um grupo de foliões, sob sol ou chuva, se espremer na luta por uma cerveja, encarar filas em banheiros químicos e subir Bahia e descer Floresta dançando incessantemente como se não houvesse quarta-feira de cinzas.

Tantas ressacas, intempéries e bolhas nos pés se justificam, em parte, por um detalhe – pelo menos para nós, homens: os shortinhos. Aqueles, de pouco mais de um palmo, desbotados ou coloridos, colados ou desfiados. Jeans, de tecido estampado florido, com ou sem bolso. Ontem ao entardecer, nas ladeiras de Santa Tereza, as micropeças ajudavam a definir as curvas e pernas bem torneadas das meninas. As silhuetas se fundiam no compasso dos tantos blocos espalhados pelas históricas ruas do bairro.

Belo Horizonte foi para dentro do pulsante e efervescente bairro da boemia e da música. As meninas (que eram em maior número que os homens) deram brilho às ruas de pedra e às esquinas. As que não nos deram o prazer do shortinho – e minissaias – se fantasiaram sem perder a simpatia. Deixaram o coração bater sem medo, cantando em homenagem a Clara Nunes, Vinicius e, claro, Milton Nascimento. O Bloco da Esquina, em devoção a Milton e cia., fez seus votos no cruzamento das ruas Paraisópolis e Divinópolis, onde o Clube começou.

Ninguém escapava às brincadeiras. Uma falsa baiana prometeu trazer meu amor em apenas dois minutos. Ao explicar que minha namorada estava longe dali, a baiana desconversou e achou melhor não buscá-la com medo de alguma blitz da Lei Seca.


Renan Damasceno (Publicação: 11/02/2013 04:00)

domingo, fevereiro 10, 2013

Brilhante!


Fui assaltado uma única vez em Belo Horizonte, em um sossegado e ermo sábado de carnaval. Desde então (já se passaram oito anos), por esses dias, olho para os dois lados ao colocar o pé direito na calçada e me benzo três vezes antes de cruzar a rua. Há quatro anos, porém, não me sinto tão sozinho na capital nos dias de Momo. A folia – que chegou a BH 47 dias depois da fundação, em fevereiro de 1898, mas perdeu força a partir da década de 1980 – recuperou o fôlego, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.

Desde as primeiras horas da manhã de ontem um rastro de cor, suor e batucada tomou as ruas do Centro e bairros de BH. Desceram Pernambuco, cruzaram Bahia, sambaram na Rio de Janeiro. Grupos se reuniram no Santo Antônio, no Santa Tereza, na Savassi e no Calafate. Para algumas centenas de foliões (chegando a milhares ao longo do dia), a Afonso Pena e a Praça da Estação eram a mais pura e apoteótica passarela.

Mas nada foi tão emblemático, tão brilhante, quanto o sambão do lado de baixo da Santos Dumont. Na Guaicurus, onde se concentra boa parte do meretrício, boates e malandros sem gravata e capital, o bloco Então Brilha! animou foliões e foliãs vestidos a caráter, comerciantes, transeuntes e, claro, as profissionais que labutavam a todo o vapor. No intervalo do sobe e desce frenético, algumas moças saíram e se arriscaram no samba. As roupas cintilantes e minúsculas, usadas para sedução, se tornaram abadás. As janelas de vidro fumê viraram camarotes. Baldes d’água refrescavam quem passava. Com sorriso largo, elas acenavam para quem curtia a festa.

O carnaval ainda anima uma pequena parcela dos moradores de BH. A calmaria ainda reina na maior parte dos bairros e praças. Os grupos que resolveram botar o bloco na rua são em boa parte ligados ao sentimento de ruptura com o establishment e de ocupação consciente do espaço público. Sob o clima de festa, paira uma forte crítica social e política, em músicas e atitudes. Os alvos, em especial, são figuras públicas que se perpetuam no poder ou se envolveram em escândalos recentes. Eu, por exemplo, sofria chacotas e reprimendas sempre que descobriam que meu nome é Renan.


Publicação: 10/02/2013 04:00  (Renan Damasceno/EM/D.A Press) 

quinta-feira, janeiro 03, 2013

O último corte do Moviola

O Moviola encerra hoje suas atividades. 

Desde 5/7/2005 – quase oito anos, portanto – foram 313 postagens, modestas 60,3 mil visitas (até ontem) e muitas histórias. O blog, que nasceu despretensiosamente como forma de exercitar em texto as ideias que nasciam na faculdade de jornalismo, foi ganhando forma e fui tomando gosto.

Rendeu muita coisa legal. Quando clico aleatoriamente em algum texto antigo, vejo o quanto meus gostos, interesses e forma de enxergar o mundo mudaram em quase uma década, que coincide com minha vinda para Belo Horizonte.

Continuo com dois projetos: um particular e outro profissional. Desde 1/1/2013 mantenho o 365movies, com o objetivo de registrar um filme por dia até o último dia do ano. Como extensão do meu trabalho como repórter de esportes especializados do Estado de Minas, edito desde o fim do ano passado o blog Bola ao alto,que assumi após uma exceleten experiência comandando o Mind the Gap, durante a Paralimpíada de Londres.

Um abraço, feliz 2013 e nos vemos aqui:




Estação central de Amsterdam. Setembro/2012. Foto: Renan Damasceno

terça-feira, novembro 06, 2012

quarta-feira, setembro 26, 2012

Chance para ver Bird


Até quarta-feira que vem, o Cine Humberto Mauro, do Palácio das Artes, exibe a mostra Clint Eastwood com 11 filmes do diretor, sendo dois imperdíveis: o western os Imperdoáveis, (gênero que consagrou Clint como ator) e Bird, cinebiografia do saxofonista Charlie Parker, em atuação irretocável de Forest Whitaker. 


Bird é de 1988 e o terceiro de uma sequência de trabalhos de Whitaker com grandes diretores. Em 1986, atuou em Platoon, de Oliver Stone, e em A cor do dinheiro, de Martin Scorsese. Ao viver de forma impecável o pai do Bebop, Whitaker ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes e indicação ao Globo de Ouro -- não foi indicado ao Oscar, que foi, com justiça, para Dustin Hoffman (Rain Man).

Bird também marca a carreira de Clint por ser o primeiro filme em que trabalhou exclusivamente na direção e produção, sem atuar. Ele interpretava desde 1955, quando estreou em Revenge of the Creature, em papel tão coadjuvante que sequer é citado nos créditos. A estreia na direção foi em 1971, no thriller Play Misty for Me.

A seleção de filmes mostra um Clint Eastwood capaz de passear com desenvoltura por diferentes gêneros cinematográficos: do western (gênero no qual se consagrou como ator) com "Os Imperdoáveis", ao melodrama em "As Pontes de Madison"; do cinema de biografia, com "Bird", ao drama social de "Menina de Ouro"; do thriller psicológico presente em "Sobre Meninos e Lobos", ao filme de guerra, em "Conquista da Honra" e "Cartas de Ivo Jima".



terça-feira, julho 17, 2012

Olimpíada em rede

Estamos a pouco mais de uma semana dos Jogos Olímpicos de Londres. Apesar do esforço de organizadores em controlar o acesso dos atletas às redes sociais e limitar o compartilhamento de conteúdo feito pelo público de dentro das arenas, a internet vai ter impacto significativo na maneira em que os espectadores se relacionam com o maior evento no esporte. Ninguém ficará de fora, mesmo se o interesse for mínimo.

Em Pequim, eram 6 milhões de contas no Twitter. Hoje, mais de 140 milhões. Neste período, o Facebook se consolidou como principal rede social, com mais de 900 milhões de usuários. Alguém duvida que qualquer fato olímpico relevante -- conquista ou fiasco -- vai ocupar em poucos minutos o topo dos Trending Topics ou a timeline do Facebook?



Com informações do Mashable via @midia8

O novo Pelé

A edição especial Veja Olimpíada, nas bancas desde ontem, faz alusão à histórica capa da primeira edição da extinta Realidade, de abril de 1966, com Pelé vestido de guarda da rainha, dois meses antes da Copa do Mundo da Inglaterra. O "novo Pelé" é Neymar, também ídolo santista, principal esperança da inédita medalha de ouro olímpica – a conquista que falta para a galeria de títulos da Seleção Brasileira.

A aposta foi boa, mas que a homenagem não termine de forma trágica, a exemplo da campanha verde-amarela que buscava o tri consecutivo em 1966. Na ocasião, o time do técnico Feola venceu Bulgária por 2 a 0 e foi derrotado por Portugal e Hungria, ambos por 3 a 1, caindo na primeira fase.



segunda-feira, julho 16, 2012

Woody Allen, meus 10 filmes preferidos

Ainda no embalo de "Para Roma, com amor" -- novo filme do Woody Allen em homenagem às cidades europeias, que chega à capital italiana depois de passar por Londres, Barcelona e Paris --, saí do cinema tentando listar meus filmes preferidos do diretor.

Claro que Woody Allen dirige mais filmes do que eu tenho tempo para vê-los. Mas assistir um, assim como abrir um pacote de biscoitos, torna impossível deixar de devorar o próximo. E assim foi desde que vi Desconstruíndo Harry, há alguns anos.

Depois de muito pensar e pesar cheguei à lista dos 10, respeitando ESTRITAMENTE MEU GOSTO. Desta forma, alguns títulos, como o consagrado Hannah e suas irmãs, na lista de 9 em cada 10 apaixonados por Allen, não está na minha relação. Também por este critério, deixo claro que qualquer filme com Diane Keaton leva ampla vantagem sobre os demais.

Por não ter conhecimento técnico e cinematográfico suficientes, desconsidero fotografia ou profundidade do roteiro, deixando de fora, por exemplo, filmes daquela onda meio bergmaniana da década de 1980, para mim, meio chatos. Para me limitar, resolvi escrever poucas linhas sobre cada filme. Para saber mais, corra para a locadora (ou para o Megaupload, f*** S.O.P.A).


1 - Meia-noite em Paris (2010)
Juntar Hemingway, Fitzgerald, Buñuel, entre outros, em um mesmo enredo tornando-os personagens tipicamentes de Woody Allen, sem ser artificial e ainda conectando-os ao nosso tempo, é o grande trunfo do filme. E ainda tem Paris e Marion Cottilard.

2 - Manhattan (1979)
Tem a Diane Keaton. A trilha sonora é assinada por Gershwin, a fotografia em um romântico preto e branco e os personagens naqueles desencontros e questionamentos de sempre.

3 - Zelig (1983)
Um falso-documentário divertidíssimo sobre Zelig (WA), que assumia as feições das pessoas que convivia. Atuação primorosa.

4 - Tudo o que você queria saber sobre sexo (mas tinha medo de perguntar) (1972)
Uma série de esquetes que vai do TV show "qual é a sua perversão?", com Gene Kelly, à ficção científica que resulta em uma teta gigante e assassina. O Grand Finale é o espermatozóide quertionador vivido por Allen.

5 - Annie Hall (1977)
É o auge dos romances neuróticos do diretor. Talvez seja o filme que melhor sintetiza o seu estilo.

6 - A última noite de Boris Grushenko (1975)
Uma sátira dos grandes romances russos. Boris é um soldado covarde e medroso, um anti-herói que, temeroso com a morte, resolve chamá-la para dançar.

7 - Desconstruíndo Harry (1996) 
Depois de passar por uma fase com filmes mais "profundos" e viver um inferno astral no divórcio com Mia Ferrow, Allen renasce com esse filme. Comédia ao seu melhor estilo.

8 - A Era do Rádio (1987)
As trilhas sonoras são a cereja de bolo dos filmes do diretor, geralmente revivendo e redescobrindo algum clássico do jazz da década de 1930/1940. Neste filme, ele resolve fazer da música e dos anos de ouro os seus protagonistas.

9 - Dorminhoco (1973)
Comédia pastelão de primeiríssima qualidade. Allen em atuação a Buster Keaton. Por falar em Keaton, tem a Diane (no auge).

10 - Vicky Cristina Barcelona (2008)
Poderia fechar a lista com o ágil e sarcástico Bananas ou com o mamão com açucar Match Point. Mas Vicky Cristina reúne ótimos atores, uma bela cidade e um diretor que não tem medo de se reinventar.

segunda-feira, julho 09, 2012

Perdeu como britânico


Uma frase do chefe de esportes da BBC, Tom Fordyce, resumiu na medida exata a derrota do anfitrião Andy Murray para o suíço Roger Federer, na decisão do Aberto de Wimbledon, neste domingo, no sul da capital inglesa: Murray perdeu a final, mas ganhou o coração dos britânicos. Sem título de um tenista da casa desde o tri de Fred Perry, 1934-1936, e com a frustração de sete quedas em semifinais nos últimos anos com Tim Henman e com o próprio Murray, os britânicos vislumbravam, enfim, encerrar o jejum de sete décadas. Mas ainda não foi desta vez.

Apesar da frustração, os fãs entenderam o esforço de Murray e, claro, a superioridade de Federer -- o maior tenista de todos os tempos e, com o troféu, o melhor por mais tempo, superando Sampras em número de semanas como nº1 do mundo, com 287. As lágrimas do britânico estamparam todas as capas, acompanhadas de frases de apoio.

Murray sai fortalecido de Wimbledon e encerrou uma maldosa brincadeira que o acompanha: quando vence é britânico. Se perde é escocês.

Desta vez, Murray perdeu como britânico.

sábado, junho 23, 2012

Um dia sem futebol

Em setembro do ano passado, um torcedor do Alianza Lima morreu em uma briga entre a torcedores de sua equipe e do Universitario -- clássico do futebol peruano -- no estádio Monumental de Lima.

Walter Oyarce, que foi arremessado de uma tribuna do estádio, tinha 24 anos e faleceu quando era levado em uma ambulância a um hospital de Lima. A polícia não conseguiu prender o agressor porque torcedores impediram que as autoridades o encontrassem.

Dias depois, a Federação Peruana de Futebol anunciou que o campeonato retornaria no mês seguinte e proibiu a torcida de entrar nos estádios.

Para o diário esportivo El Bocón, a violência culminaria na morte do futebol nacional. Em protesto, saiu com os espaços comumente dedicados ao futebol em branco. Um jornal sem notícias, com uma mensagem: "Continuar com a violência só fará  nosso futebol desaparecer. Cuidemos do futebol, cuidemos da vida.

A iniciativa venceu o Leão de Ouro em Cannes, categoria "Best use in Print"



Vi no Midia Mundo

sábado, junho 16, 2012

Nocaute no boxe mineiro

A história sempre nos surpreende. E foi puxando fio por fio (do telefone), página por página (do acervo do EM) e personagem por personagem, que reconstruí uma época gloriosa do esporte mineiro que caiu no ostracismo: os anos de ouro do boxe, que revalizava com o futebol na era pré-Mineirão. As histórias dos lutadores, hoje septuagenários, são deliciosas, de cinema.

Renan Damasceno - Estado de Minas

Quarta-feira, 20h30. O público ainda se acomodava na arquibancada do Ginásio do Paissandu, na Lagoinha, e as câmeras da TV Itacolomi passavam pelo último teste antes de a luz principal acender e o alvoroço se aquietar. “Boa noite, senhoras e senhores. Está começando mais um Telebox Bemoreira. Deste lado do ringue...”, era o procedimento quase litúrgico do narrador Ulisses Nascimento, o Gravatinha, ao anunciar os lutadores que, no fim da década de 1950, movimentavam a capital mineira em acaloradas lutas de boxe....

domingo, junho 03, 2012

Mudaram as estações ...

Vídeo disponibilizado pelo British Council (aqui) mostra como era o processo de confecção de um jornal impresso em 1942.

Desde então, saíram as máquinas de escrever e chegaram os computadores, as prensas deram lugar às rotativas modernas e a pesquisa digital poupa os jornalistas de consultar tomos e mais tomos no departamento de documentação.

Já o processo de produção, da reunião de pauta ao deadline, passando pela apuração e redação, pouca coisa mudou.

  Via Webmanario

Jornalismo e memória

O Estado de S. Paulo disponibilizou no fim de maio uma preciosidade para pesquisadores, historiadores e interessados pelas mudanças do país e do mundo no último século. Estão no ar as edições editalizadas de 137 anos do diário paulista, desde a primeira edição em 4/1/1975 do então A Província de S. Paulo. São 2,4 milhões de páginas.

Os detalhes da digitalização, aqui. E o link para o Acervo Estado, aqui

Outros dois importantes jornais também têm seu acervo para pesquisas na web. A Folha de S. Paulo -- que reúne também as páginas de Folha da Manhã e Folha da Noite, desde 1921 -- e o extinto Última Hora, que teve as 36 mil páginas de cinco anos de jornal (1951-56) digitalizadas pelo Arquivo Público de São Paulo.


Divirtam-se.

quinta-feira, maio 17, 2012

Sexo na cidade


Arte arrojada na capa da revista Barcelonês
via El Portadista