segunda-feira, abril 12, 2010

Perguntas que ofendem, mas fazem o trem cultural andar


João Marcos Veiga

“Mineiro não briga, mas também não perdoa.” A frase atribuída ao político Hélio Garcia sintetiza o espírito que rege o cotidiano entre nossas montanhas. Uma cordialidade e tranqüilidade sempre pairam no ar até que tudo vem abaixo. São nesses momentos, entretanto, que aparece uma reflexão forçada de como o bonde está andando. Quem tem sido colocada sob suspeita ultimamente é a estabilidade do meio cultural na capital mineira, mas entre mortos e feridos temos alguns motivos para comemorar a permanência de espaços, iniciativas e a efervescência de nossa produção.

Um dos mais tradicionais e aguardados eventos da cidade, por pouco o FIT não sai da agenda de 2010, logo em sua décima edição. Depois de uma lavagem de roupa suja com direito a protestos de público e categoria e ameaças de abandono caso o barco voltasse a navegar de forma insatisfatória, Prefeitura e FMC garantiram sua realização. A situação evidenciou não só problemas, mas também a importância de um encontro de artes cênicas dessa amplitude para BH.


Mas eventos precisam de espaços. E a cidade perdeu alguns de seus mais im
portantes com a passagem de década. A Praça da Estação deixou de ser área de shows e voltou a ser apenas praça – e praia, em alguns divertidos sábados. Mas logo ali, em frente à bucólica Rui Barbosa, temos o Espaço 104, com sala de cinema e de exposição infelizmente às moscas. Falando em cinema, o Usina Unibanco fechou as portas para reforma na rua Aimorés sob dúvidas quanto a sua retomada.Das películas para os acordes, o Music Hall, que já havia anunciado seu fechamento, continua a oferecer uma das poucas boas estruturas para espetáculos de médio porte em BH.

Mas o equilíbrio entre verba de patrocinadores e a oriunda das entradas ainda causa insegurança. E foi num encontro ali que os brasilienses do Móveis Coloniais de Acaju de Brasília jogaram luz ontem sobre roqueiros mineiros que estão se destacando no nosso cenário alternativo, como Pequena Morte e Fusile.

Frescor de novidade foi o que se viu esta semana nas duas noites de sala lotada no teatro João Ceschiatti, que recebeu a banda Graveola e o Lixo Polifônico e Juliana Perdigão. Com arranjos que transitam entre uma irreverência festiva e uma inusitada concepção instrumental, o grupo mineiro comemora a seleção para o Conexão Vivo. O festival vai ecoar por duas semanas sonoridades de todas as matizes, que vão de Arnaldo Antunes a Burro Morto, de Macaco Bong a João Donato, do sul à Paraíba, da MPB ao rock experimental.


Juliana Perdigão também comemora a seleção para o edital Natura. Sua voz e seu belo clarinete poderão enfim estar num cd solo. Representante da excelência da música instrumental de BH, a sumidade Esdra “Nenem” é outro que vai registrar sua bateria em um álbum através do edital.


No cenário cultural da capital mineira algumas perguntas podem até ofender, mas são necessárias. É possível casas de show se manterem apenas com bilheteria? Até que ponto artistas estão atados e dependentes de editais? Temos espaços ao nível de nossa produção? Como acontecem as negociações para os grandes festivais? Perguntas que se justificam pelo patrimônio que temos na bateria de Nenem, no talento de Juliana e no espírito criativo do Graveola. E enquanto isso o trem da cultura segue tentando alinhar seus trilhos.