segunda-feira, abril 27, 2009

Cinema e jornalismo (ou Billy Wilder vs. jornalismo)


Boa parte dos estudantes que chegam à faculdade de jornalismo foram atraídos pela vida frenética e emocionante dos repórteres das telas de cinema. “Nossa, você vai ser jornalista igual aqueles caras malucos dos filmes?”. Muitos já responderam essa pergunta, sem saber se a profissão era vista com fascínio ou desdenho. Bem, concluo pelo lado mais positivo.

O cinema americano assume, sozinho, a culpa deste estereótipo. Em Hollywood, as redações de jornais sempre foram palco de histórias intensas, permeadas de intrigas e investigações. A lista é grande, com produções desde a década de 1930, ora denunciando os desmandos e excessos da imprensa, ora exaltando a importância do jornalismo para o bem estar social.

O mau humorado e cruel Billy Wilder é, disparado, meu preferido. Quando lançou A montanha dos sete abutres foi tachado de cínico e mentiroso. A película de 1951 – um ano após lançado a obra-prima Crepúsculo dos Deuses – é considerado o erro maior de Billy, pois confrontava não só os americanos, mas a humanidade. O repórter Chuck Tatum, interpretado por Kirk Douglas, aproveitara de um sujeito que ficara preso em um buraco para criar um grande espetáculo., consumido em capítulos pelos ávidos leitores. O fato, que merecia no máximo uma nota de pé de página, se transformou em uma cachoeiras de manchetes, com cenas e fatos manipulados por Tatum.

Mais de duas décadas depois, Wilder retoma o assunto. Preferiu uma deliciosa comédia a repetir a acidez. Em A Primeira Página, de 1977, Jack Lemmon e Walter Matthau fazem de tudo para superar os jornais concorrentes de Chicago na cobertura da fuga do criminoso bolchevique condenado à cadeira elétrica. Se antes Billy acertou em cheio a humanidade, faltava nocautear diretamente o jornalismo. O frenesi pelo furo era (mau) tratado com o peculiar humor do diretor.

Está no blog do Sérgio Dávila desta semana:

De quando em quando, o cinema norte-americano produz um filme importante sobre jornalismo. Para ficar em apenas dois exemplos, os anos 70 tiveram "Todos os Homens do Presidente", de Alan Pakula, em que Robert Redford e Dustin Hoffman reencenavam a apuração do escândalo de Watergate. Duas décadas depois, era a vez de Ron Howard mostrar o pulso de um tabloide nova-iorquino em "The Paper".

Agora, chega às telas dos EUA "State of Play", "o estado das coisas", em tradução livre, que no Brasil se chamará "Intrigas de Estado" e tem estreia prevista para 12 de junho. É um grande filme, mais na linha "O Dossiê Pelicano" (1993, do mesmo Pakula), no sentido de que a trama policial é o fio condutor, do que de "Todos os Homens", em que a discussão política costurava a narrativa.

Mas é o tema incidental que tem chamado mais a atenção e levado jornalistas às lágrimas ao final dos 127 minutos de exibição: a importância institucional da imprensa escrita e a crise por que ela passa nos EUA, causada por um modelo de negócios que se provou equivocado e alimentada pela recessão econômica.

O argumento de "State" é de que sem repórteres com experiência e tempo para trabalhar numa história não há jornalismo digno do nome, e, sem esse, o sistema de freios e contrapesos que regula os poderes perde um componente vital.

O filme não rejeita o "novo mundo" dos blogues, por exemplo, apenas sugere que a nova mídia tem a ganhar se incorporar a consistência da velha, em vez de simplesmente a negar ou torcer por sua extinção, como é o caso de nove em cada dez blogueiros.

"State" faz isso ao reimaginar para os novos tempos a parceria Carl Bernstein-Bob Woodward, agora com um jornalista veterano (Russell Crowe) que é obrigado a se aliar a uma jovem blogueira (Rachel McAdams) para investigar uma história, que envolve um político (Ben Affleck) e uma empresa de mercenários que lembra a Blackwater. Ambos trabalham para o mesmo jornal em crise, o fictício "Washington Globe".

No final, ganham todos, a República, Hollywood e o jornalismo.
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