domingo, fevereiro 10, 2013

Brilhante!


Fui assaltado uma única vez em Belo Horizonte, em um sossegado e ermo sábado de carnaval. Desde então (já se passaram oito anos), por esses dias, olho para os dois lados ao colocar o pé direito na calçada e me benzo três vezes antes de cruzar a rua. Há quatro anos, porém, não me sinto tão sozinho na capital nos dias de Momo. A folia – que chegou a BH 47 dias depois da fundação, em fevereiro de 1898, mas perdeu força a partir da década de 1980 – recuperou o fôlego, sacudiu a poeira e deu a volta por cima.

Desde as primeiras horas da manhã de ontem um rastro de cor, suor e batucada tomou as ruas do Centro e bairros de BH. Desceram Pernambuco, cruzaram Bahia, sambaram na Rio de Janeiro. Grupos se reuniram no Santo Antônio, no Santa Tereza, na Savassi e no Calafate. Para algumas centenas de foliões (chegando a milhares ao longo do dia), a Afonso Pena e a Praça da Estação eram a mais pura e apoteótica passarela.

Mas nada foi tão emblemático, tão brilhante, quanto o sambão do lado de baixo da Santos Dumont. Na Guaicurus, onde se concentra boa parte do meretrício, boates e malandros sem gravata e capital, o bloco Então Brilha! animou foliões e foliãs vestidos a caráter, comerciantes, transeuntes e, claro, as profissionais que labutavam a todo o vapor. No intervalo do sobe e desce frenético, algumas moças saíram e se arriscaram no samba. As roupas cintilantes e minúsculas, usadas para sedução, se tornaram abadás. As janelas de vidro fumê viraram camarotes. Baldes d’água refrescavam quem passava. Com sorriso largo, elas acenavam para quem curtia a festa.

O carnaval ainda anima uma pequena parcela dos moradores de BH. A calmaria ainda reina na maior parte dos bairros e praças. Os grupos que resolveram botar o bloco na rua são em boa parte ligados ao sentimento de ruptura com o establishment e de ocupação consciente do espaço público. Sob o clima de festa, paira uma forte crítica social e política, em músicas e atitudes. Os alvos, em especial, são figuras públicas que se perpetuam no poder ou se envolveram em escândalos recentes. Eu, por exemplo, sofria chacotas e reprimendas sempre que descobriam que meu nome é Renan.


Publicação: 10/02/2013 04:00  (Renan Damasceno/EM/D.A Press) 

Um comentário:

Lili Nogueira disse...

O Bloco mais Brilhante da cidade está chegando mais uma vez pra alegrar a parte de baixo da Av. Santos Dumont. Muito bom este post que só vi agora, quase 1 ano depois... Vem pro nosso bloco! É o quente do verão! Gente é pra brilhar!