sexta-feira, novembro 16, 2007

Kubrick - O filósofo do cinema visual (III)

A imprevisibilidade é característica na filmografia kubrickiana. Pois, do violento e polêmico Laranja Mecânica ao romântico Barry Lindon (1975) são apenas quatro anos.

A beleza plástica de Barry Lindon é única.Os planos se retirados do vídeo são verdadeiros quadros, pintados pelo perfeccionismo de Kubrick. O filme todo foi realizado com iluminação natural, descartando qualquer auxilio de luzes artificiais, inclusive nas cenas à luz de velas. É uma viajem pelo século XVIII ao som de Bach, Mozart e Schubert... Barry Lindon é a história da ascensão e queda de um charlatão, amante dos duelos, do jogo e da vida boêmia. Mesmo sendo um de seus filmes mais belos, é um dos menos divulgados.

Cinco anos mais tarde foi incumbido a Kubrick a adaptação da obra “The Shinning”, de Stephen King. O trabalho não agradou o autor do livro, porém
O Iluminado (1980) faz o expectador mais cético cobrir-se até o pescoço e rezar o pai-nosso antes de dormir. Não há quem não se lembre da expressão ensandecida de Jack Nicholson. O filme aposta no clima claustrofóbico, na profundidade psicológica e na lenta metamorfose da mente de Nicholson, atormentado por forças malignas.

Apesar de uma excelente direção e roteiro, a produção beirou o fracasso, sendo reavaliado pela crítica tempos mais tarde. Nas filmagens, Kubrick usou um total de 390 000 metros de película para um filme de 142 minutos, que gasta, em média, 2.800 metros.Uma média de 102 takes por plano, enquanto a média normal é de 10 takes. Foi usado apenas 1% do material filmado no produto final. (Acho que depois desses números ninguém mais discordará quando falo em perfeccionismo).

O grande sonho de Kubrick era dirigir um longa-metragem sobre Napoleão. Era fixado pela vida do imperador francês. Não o fez. Sete anos mais tarde, resolveu dirigir um filme sobre a guerra do Vietnã. Nada original, pois já haviam sido produzidos Platoon e mais uma dezena. Nada original se o filme não tivesse o padrão Kubrick de qualidade. Nascido para matar (1987) é uma crítica ao absurdo da guerra e à viciosa estrutura norte-americana. Mostra, como nenhum outro filme, o processo de transformação dos jovens recrutas em máquinas de matar sem escrúpulos. A mesma expressão de loucura de Jack Nicholson, em O Iluminado, é percebida no rosto do jovem destruído pelo absurdo dos campos de treinamento.A guerra é a ruína da sociedade e do psicológico, despedaçado e desfragmentado pelos seus horrores.

Todos imaginavam a aposentadoria do diretor. Já havia dirigido, ao menos, dois dos maiores filmes da história do cinema e seu nome figurava ente os maiores gênios da sétima arte.Discretamente vivendo na Inglaterra, longe da mídia e do glamour hollywoodiano, era difícil prever sua volta.

Porém, dez anos após o lançamento de Nascido para matar, Kubrick volta aos estúdios para as filmagens de Eyes Wide Shut (1999). A produção durou quase três anos, obrigando o casal de protagonistas, Tom Crise e Nicole Kidman, se estabelecerem na Inglaterra durante os 18 meses de filmagens. Mesmo a história sendo passada em Nova York, todas as cenas foram filmadas em solo inglês, inclusive as cenas de externas, reproduzidas em estúdio.

O filme volta a explorar um tema pouco abordado pelas obras kubrickianas: o sexo. Um casal, aparentemente perfeito, mergulha nos seus desejos individuais.A infidelidade não é representada apenas no plano físico (no ato de trair), mas no psicológico, explorando as fantasias e a busca de cada um pelo labirinto enigmático do desejo.

De olhos bem fechados (título do filme no Brasil) ficou abaixo das expectativas dos fãs e foi vítima do circo armado ao redor da volta de Kubrick e da sua extensa produção.

_________________________Kubrick faleceu em 7 de março de 1999, antes da estréia de sua última obra. O diretor tinha a característica de alterar seus filmes mesmo dias antes da estréia, o que deixa a dúvida em todos os fãs sobre o final de Eyes Wide Shut. A Warner Bros, produtora de seus filmes, afirma que o filme é 100% Kubrickiano. Mas se Kubrick sempre tratou os extintos mais primitivos do ser humano com especial atenção, nada melhor que encerrar sua filmografia com a maravilhosa Nicole Kidman sussurrando o verbo: “To Fuck”.

Aos apocalípticos e aficionados por teorias obscuras de plantão, Kubrick faleceu 666 dias antes da chegada do ano de 2001, o ano da odisséia no espaço.

O diretor foi indicado a 13 Oscar (um pelos efeitos especiais em 2001, três como produtor, quatro como roteirista e cinco como diretor) entre outros prêmios pelo mundo pela sua contribuição à história do cinema.

FILMOGRAFIA

1. Fear and desire (1953)
2. A morte passou por perto (1955)
3. O grande golpe (1956)
4. Glória feita de sangue (1957)
5. Spartacus (1960)
6. Lolita (1962)
7. Doutor Fantástico (1964)
8. 2001 – Uma odisséia no espaço (1968)
9. Laranja mecânica (1971)
10. Barry Lyndon" (1975)
11. O iluminado" (1980)
12. Nascido para matar (1987)
13. Eyes wide shut (1999).

Renan Damasceno, 04/2006 - 10/2007