domingo, setembro 21, 2008

Se Deus tivesse uma voz...


Tive a oportunidade de assistir pela segunda vez esse ano a apresentação de Milton Nascimento. Se na primeira foi primoroso vê-lo acompanhado do Jobim Trio, no show Novas Bossas, em Belo Horizonte, dessa vez teve sabor mais que especial, pelo local, peculiaridades do repertório e pela oportunidade única do evento: na praça Tiradentes, em Ouro Preto, Bituca foi acompanhado por Wayne Shorter, aos sopros),e Ron Carter, ao baixo, no encerramento do Sétimo Festival Tudo é Jazz, no qual foi o grande homenageado.

Se o atraso de quase uma hora obrigou Milton a uma entrada bem menos apoteótica, a pitada de espetáculo veio com a seqüencia de músicas populares no começo da apresentação – agradando boa parte que estava pouco ligando para quem era Carter ou Shorter. Mas, todos admitem, que o repertório agradou até quem foi para ver esses dois monstros sagrados do jazz.

Juntos – sem muito entrosamento, pois Carter assitiu boa parte da apresentação, sentado apenas batucando na face do baixo –, relembraram músicas do Native Dancer (álbum de Wayne, com participação de Milton), Angelus (de Milton, com a presença deles) e outras da veia jazzística pouco conhecida de Bituca.


Por mais que eu tenha achado uma apresentação morna (talvez idealizava assitir uma explosão de sons e musicalidade, regada pela fusão experimental dessas culturas musicais tão distintas), não nego que sempre vou ter de contar que aestive lá, acompanhado de boas pessoas, álcool e cigarro de palha. E que o último dia do Festival era propício para um desfecho dessa grandiosidade. Experimentei, a poucos metros, o improviso de Wayne em Ponta de Areia e Milagre dos Peixes, e o gravíssimo baixo de Ron criando uma atmosfera musical extremamente diferente de quase tudo que já ouvi – e olha que já experimentei de Slayer a João Donato!

+MULTImídia

+ Assista ao show de Ouro Preto, em 16 partes, no Youtube
+ Vídeo: Wayne e Milton – Lilia
+ Vídeo: Wayne e Milton – Tarde (1991)
+ Torrent: Download do CD Angelus, de 1993


quinta-feira, setembro 18, 2008

E eis que Deus adentra às quatro linhas

Excelente matéria assinada por Cathrin Gilbert, da revista alemã Der Spiegel, tradução de George El Khouri Andolfato. A matéria na íntegra você pode acompanhar no Mídia Global (para assinates UOL) e neste link (para não assinantes).



Muitos brasileiros que jogam por clubes de futebol europeus são membros de congregações pentecostais e estão determinados a divulgar sua fé. Apesar dos jogadores terem que doar um décimo de sua renda considerável para suas igrejas, eles freqüentemente não sabem onde vai parar o dinheiro.

Marcelo Bordon, um zagueiro de futebol, é um verdadeiro urso. Ele está sentado no restaurante de propriedade do Schalke 04, o time da Bundesliga (o campeonato alemão de futebol) no qual joga. Com seu cabelo alisado para trás, corpo musculoso e tatuagens, ele poderia facilmente se passar por um guarda de prisão em Nova Jersey. Mas ele fala suavemente, explicando o amor que o ajuda quando está em dificuldades, e sobre aquele que sempre esteve lá para ajudá-lo, desde que entrou na sua vida. Bordon fala do Espírito Santo.

O brasileiro de Ribeirão Preto, que veio para a Alemanha em 1999, é um evangélico. Ele é membro de uma igreja pentecostal carismática, que prega um respeito rígido à Bíblia e um "relacionamento pessoal com Deus". Esta é, segundo ele, a única igreja verdadeira de Jesus Cristo. Bordon, 32 anos, exibe uma tatuagem entre seus ombros, com as palavras "Jesus é minha Força" gravadas em sua pele em letra ornada.

A Bíblia nos diz para sermos soldados de Deus, ele diz, tomando um suco de maçã.

Cerca de 35 milhões de brasileiros - quase um entre cinco - são evangélicos. O número deles cresce em dois milhões ao ano, e 70% deles são, como Bordon, membros de congregações pentecostais carismáticas.

Há 40 anos, o Brasil ainda era um país 90% católico. Mas agora que os evangélicos mudaram seu foco da conversão dos pobres para a pregação de que a riqueza e o consumo são sinais de verdadeira fé, eles estão começando a ter apelo junto a artistas, políticos e atletas bem remunerados. Os jogadores de futebol, uma das exportações mais bem-sucedidas do Brasil, estão levando sua fé para o mundo.

No passado, eram jogadores como Jorginho e Paulo Sérgio do Bayer Leverkusen que convidavam publicamente outros jogadores para participarem dos grupos de discussão da Bíblia. Depois disso, jogadores como Zé Roberto e Lúcio do Bayern de Munique, ou Cacau do Stuttgart, exibiam suas camisetas brancas com frases como "Jesus Te Ama" após cada gol em uma partida da Bundesliga. Eles tiravam mecanicamente a camisa do seu time que vestiam sobre suas camisetas de Jesus.

Agora que a Fifa, a federação internacional de futebol, proibiu toda declaração política e religiosa no material esportivo dos jogadores, os evangélicos passaram a celebrar de forma mais discreta. O meio-campista Gilberto, que jogou pelo Hertha BSC de Berlim até janeiro, agora reza em Londres, no Tottenham Hotspur, o jogador Edmílson ora em Villarreal, Espanha, Cris, em Lyon, Luisão, em Lisboa, e o astro Kaká, em Milão. (...)

segunda-feira, setembro 08, 2008

Festival Tudo é Jazz - Programação

Depois de receber Herbie Hancock, em maio, o Brasil terá a apresentação de mais dois monstros sagrados do jazz americano. No encerramento do Sétimo Festival Tudo é Jazz, Wayne Shorter e Ron Carter são convidados por Milton Nascimento à reviverem a parceria clássica de 1993, no disco Angelus, no qual Bituca contou com um dream team formado por Carter, Shorter, Hancock, Peter Gabriel, entre outros.

Já data de décadas a ligação de Milton com o Jazz. O próprio Hancock, em lua de mel no Brasil, em meados da década de 1960, ficou espantado com a voz do mineiro, quando este pegou o violão para arranhar alguns acordes. De pronto, pediu para que Bituca parasse até que um gravador fosse encontrado. Outra importante ligação entre os músicos é a participação do brasileiro em Native Dance, álbum de jazz fusion de Shorter.

Para o Festival, que acontece em Ouro Preto, Hancock foi cogitado, mas o cachê inviabilizou sua presença. Mês que vem será a vez de Sonny Rollins descer em terras brasileiras para assombrar os palcos do Tim Festival em duas noites (dias 21 e 25 de Outubro)

quarta-feira, setembro 03, 2008

O jeito mineiro de pensar e fazer cinema

*Reportagem inscrita no Prêmio BDMG de Jornalismo Cultural 2007

Renan Damasceno

Quase um século se passou desde que “aquele mocinho engrouvinhado, que tem cara de infusório” adentrou a sala do diretor do Diário de Minas, carregando embaixo do braço a crítica do filme Diana, a caçadora. O longa-metragem, provavelmente americano, acabara de estrear no recém-inaugurado Cine Pathé, na Avenida Afonso Pena, e se transformou em assunto obrigatório entre os belo-horizontinos, qualificado como “mais do que prejudicial, nojento” pela conservadora Liga pela Moralidade. O mocinho – descrito acima com muita acidez pelo escritor Eduardo Frieiro – era Carlos Drummond de Andrade, que acabara de mudar de Itabira para tornar-se jornalista na capital mineira. Drummond também despejava críticas moralistas sobre o filme em seu primeiro artigo na grande imprensa, “Diana, a moral e o cinema”, publicado em 15 de abril de 1920, por um outro jornal, o Jornal de Minas.


Belo Horizonte era uma cidade que oscilava entre a modernidade e a tradição. A primeira exibição de cinema em Minas Gerais – 22 de julho de 1897, em Juiz de Fora –, havia acontecido apenas 18 meses após a sessão inaugural feita pelos irmãos Lumiére, no subsolo do Grand Café, em Paris, e chegaria à recém-formada capital mineira em 1898. Logo nos primeiros anos do século XX, a sétima arte encontraria adeptos fiéis, incrementada pela revolução narrativa de D.W. Griffith, em 1915 (diretor de O nascimento de uma nação, primeiro longa-metragem da história) e também pelo surgimento de vários cinemas, como o Cine Pathé e o Cine Odeón, à Rua da Bahia.

Já o jornalismo capengava entre sucessivas aberturas e fechamentos de jornais, escorado por uma Associação Mineira de Imprensa não menos desestruturada, que sobreviveu por quatro anos – de 1918 a 1922.

Dos jornais da época, que conseguiram mais de meia dúzia de edições, destaca-se o Diário de Minas, fundado em 1899 e órgão oficial do Partido Republicano Mineiro. Muita coisa mudou desde as exibições do Cine Pathé, e os jovens cinéfilos puritanos e moralistas das primeiras décadas, certamente, ateariam fogo nas salas de cinema se assistissem, quase 50 anos depois, à obra de seu conterrâneo, Neville d’Almeida, que trouxe para as telas A Dama da Lotação e Os Sete Gatinhos, adaptações das célebres crônicas de Nélson Rodrigues.

Confira a Galeria de Fotos dos cinemas de BH





















1 - Cine Odeón, à Rua da Bahia (década de 1910)
2 - Cine Floresta, esquina de Pouso Alegre e Itajubá (déc. de 1910)
3 - Cine Glória (déc. de 1920)
4 - Cine Metrópole (déc de 1940)

5 - Cine Brasil, arquitetura art decó no coração da cidade (déc de 1930)
6 - Cine Brasil (déc. de 1930)


A nova geração de Cataguases

Cataguases, um lugarzinho atrasado que vivia sonolento às margens do Ribeirão Meia Pataca, presenciou na década de 20 o nascimento de dois movimentos importantes na cultura brasileira: A revista modernista Verde e o cinema de Humberto Mauro. Até então, o solitário motivo de orgulho para a cidade era a glória de ter inventado o picolé. “Sem palito, mas picolé”, ressalta o cineasta.

Mesmo a cidade obtendo importância histórica graças a Humberto Mauro, o movimento modernista de Cataguases não passou despercebido. Em 1927, nascia a primeira edição da revista Verde, influenciada pelos textos que balançavam as estruturas da literatura brasileira pós-Semana de 22. Em suas seis edições, a revista contou com a colaboração de nomes importantes como Jorge de Lima e Murilo Mendes. Tudo isso graças a Rosário Fusco, que aos 17 anos, sem nenhuma cerimômia, pediu ao autor de Macunaíma que lhe enviasse “uma bosta qualquer”, para uma revista que estava organizando com alguns amigos. Mário, surpreendido com o bilhete, não relutou em colaborar.

Na primeira edição da revista, Rosário dedica um artigo ao lançamento de Tesouro Perdido, segundo longa-metragem do conterrâneo. Na edição 5, J. Martins aplaude a iniciativa de Mauro, e prevê uma “hollywood-mirim” em Cataguases. Mas a relação entre os dois grupos termina por aí. A Verde encerra seu expediente em 1929, ano em que o outro filho ilustre da cidade muda-se para o Rio de Janeiro. Humberto Mauro, apaixonado por fotografia, enxergou a possibilidade de fazer cinema ao conhecer o fotógrafo italiano Pedro Comello.

O cinema brasileiro estava em crise com o domínio massivo dos americanos e a única saída eram os ciclos regionais. “O ciclo de Cataguases obteve sucesso graças ao financiamento de fazendeiros e comerciantes da Zona da Mata, que investiram nessa aventura”, conta o historiador Rafael Ciccarini, professor de Cinema Brasileiro da Escola livre de cinema de Belo Horizonte. Segundo o historiador, outra coisa que favoreceu a realização, quase artesanal, de filmes como Na Primavera da Vida (1926) e Tesouro Perdido (1927) era o conhecimento técnico de Mauro, formado em eletromecânica.

Após dirigir quatro filmes em Cataguases, Humberto Mauro – já reconhecido como grande diretor pela revista Cinearte, de Adhemar Gonzaga – vai para a Cinédia e dirige seus principais longas, entre eles Ganga Bruta (1931-33), A voz do Carnaval (1933) e Favella dos meus amores (1935). Anos depois, a convite do ministro Gustavo Capanema, Mauro se vincula ao Instituto Nacional de Cinema Educativo, produzindo 357 filmes científicos e educativos, até 1972.

Mesmo com o reconhecimento de público e crítica nos anos de Cinédia, Humberto Mauro só alcançou o título de “fundador do cinema brasileiro” na virada dos anos 1950 para os 60, por críticos como Alex Viany e Paulo Emílio Salles Gomes (esse último reconstruiu a experiência do cineasta no livro Humberto Mauro: Cataguases, Cinearte). Rafael Ciccarini também ressalta a importância do diretor na formação do Cinema Novo: “Da metralhadora de críticas que Glauber Rocha disparou, com sua revisão sobre nosso cinema, sobrou pouca coisa. Entre elas, o nome mais aclamado foi de Humberto Mauro”.

A cidade com o maior número de críticos por Km²

A história do cinema brasileiro começou a ser reescrita em meados dos anos 50 com o engajamento de críticos responsáveis por reformular a relação entre o Brasil e as novas tendências do cinema mundial. Influenciados pela nova crítica francesa da Nouvelle Vague e fortalecidos pelo cineclubismo, os cineastas brasileiros enxergaram a possibilidade de criar um novo cinema, ou seja, um Cinema Novo, movimento teorizado e liderado por Glauber Rocha. Belo Horizonte, no final dos anos 40, abrigou um dos mais importantes e consistentes cineclube do país.


A dedicação dos mineiros à crítica de cinema culminou na publicação da Revista de Cinema – criada por Cyro Siqueira, no início da década de 50, que se estendeu ao longo de dez anos, com 24 edições – e no CEC, Centro de Estudos Cinematográficos, criado em 1951. Tal paixão foi lembrada pelo jornalista Humberto Werneck, em seu livro O Desatino da Rapaziada, dizendo que a capital mineira “se converteu na cidade com o maior número de críticos de cinema por quilômetro quadrado”. Fábio Leite, crítico de cinema do jornal Hoje em Dia e filiado ao CEC desde a década de 70, atribui esse fenômeno à presença marcante da sétima arte na vida da população que, segundo ele, “naquela época, não tinha muita coisa pra se fazer”. “Assistíamos aos filmes e depois ficávamos horas discutindo nas mesas dos bares. Até na Faculdade de Engenharia Química da UFMG improvisava-se um pano branco para exibições após a aula. Profissionais, de todas as áreas, começavam a esboçar um espírito crítico em relação aos filmes, e a base encontrávamos no CEC, com mostras, palestras e debates”, explica.

O CEC foi fundamental na formação de várias gerações de críticos. Muitos, como Marcelo Castilho Avelar e o próprio Fábio Leite, atuam na imprensa mineira. O centro de estudos ainda funciona em uma pequena sala no Palácio das Artes e é um dos realizadores do festival Curta Minas, mas não tem a mesma força de antes. Já a Revista de Cinema alcançou repercussão internacional e foi responsável por introduzir na pauta dos críticos brasileiros, cineastas como Luís Buñuel e Ingmar Bergman. Com a solidificação da imprensa em Minas, o jornalismo e a crítica escreveu uma história de estreita relação com o cinema, sendo responsáveis por alimentar a paixão dos mineiros pela sétima arte.


sábado, agosto 23, 2008

Morreu anteontem, aos 90 anos, de AVC. Deixa três filhos e um neto

Aprendi – há pouco tempo, não por curiosidade, mas por indicação –, que são nas páginas dos obituários que ainda sobrevivem os bons textos do jornalismo impresso. Não por morbidez, mas por essa sessão abrigar lições diárias de como ilustres desconhecidos podem ilustrar conhecidas histórias. A tradição não é muito utilizada por aqui (poucos jornais destinam repórteres aos obituários) devido a cultura íbero-americana de relacionar a morte à dor e silêncio, mas, em países de origem anglo-saxã, que costumam celebrar a passagem dessa para melhor, é quase obrigatório prestigiar uma boa morte no café da manhã.

Uma das sessões mais prestigiadas do The New York Times, o obituário é considerado, hoje, o último refúgio do jornalismo literário, que teve origem por lá, na década de 1960. Inclusive, grandes nomes do New Journalism se dedicaram ao mórbido ofício, como Gay Talese. Robert McG e Alden Whitman – considerado o pai do obituário moderno, “o homem que deu vida ao obituário” – são dos mais conhecidos redatores da célebre sessão do jornal mais lido do mundo.

E engana-se quem pensa que o obituário está morrendo. O NYT inovou na sessão, dada por muitos como ultrapassada e fadada ao falecimento. O “The Last Word”, no site do jornal, possibilita ao sujeito gravar seu obituário em vídeo. O primeiro foi o humorista Art Buchwald, que escreveu no próprio jornal, no Herald Tribune e em mais uma gama de periódicos.

No Brasil, “O Livro das Vidas” – Matinas Suzuki Jr. (org.), Denise Bottmann (trad.), 312 pg., Companhia das Letras, São Paulo, 2008; R$ 48 – é uma boa oportunidade de conferir a compilação dos melhores obituários escritos para o NYT, nas últimas décadas. "A seção de obituários do Times é uma cerimônia de adeus diária de bom jornalismo e uma das campeãs de leitura do jornal mais influente do mundo. Há quem pense que a valorização do obituário pela imprensa de língua inglesa seja um ritual de morbidez, mas isso é uma falsa impressão", escreve Suzuki, no posfácio da edição.

+ Sobre:

Veja o “The Last Word”, de Art Buchward

Entrevista com Matinas Suzuki, organizador d' "O livro das Vidas"

Fique por dentro

Entre os jornais brasileiros, a Folha de S. Paulo reserva preciosas linhas diárias às memórias de almas desconhecidas. Os textos ficam no caderno Cotidiano, assinadas pelo repórter Willian Vieira. Assinantes da Folha ou do Uol podem acompanhar a sessão na versão on-line. A Revista piauí – sessão "Despedida" – e o Globo também dispensam atenções às mortes fresquinhas.



sexta-feira, agosto 15, 2008

Grupos de investimento invadem o futebol

A prática não é nova e, certamente, esse filme você já viu: no auge do campeonato, seu time do coração disputa as primeiras colocações e, mesmo a contragosto do clube e da torcida, os principais jogadores são negociados ao futebol do exterior*

Renan Damasceno - Portal Uai

Desde a implantação da Lei Pelé, há 10 anos - que veio para acabar com a "escravidão" dos jogadores de terem seu passe preso estritamente a clubes de futebol -, pipocaram empresários, grupos de investimento, donos de supermercado, hospital e banqueiros bem dispostos a lucrarem com atletas e aproveitarem da penúria financeira das principais equipes brasileiras.

A invasão de terceiros no futebol, em evidência nas principais negociações milionárias dos últimos anos - especialmente para times europeus e do Oriente Médio -, foi um dos efeitos colaterais da lei, em vigor desde março de 1998. "Efeito colateral" pois nem sempre o interesse desses investidores são os mesmos dos clubes e torcedores e, sim, a busca por lucros cada vez maiores. A intenção é fazer dinheiro e não "amor à camisa".

Em entrevista recente ao repórter Andrew Downie, do The New York Times (matéria Trading in soccer talent, de 19 de julho), o empresário Thiago Ferro, parceiro no departamento de investimento em futebol do Grupo Sonda, revelou que o grupo investe em média US$ 10 milhões por ano em novos talentos e que os valores estão crescendo rapidamente por causa dos lucros, que, segundo ele, chegam a 150% ao ano.

*A matéria na íntegra você confere no Portal Uai - Estado de Minas.

Leia também:

* Há 10 anos, Grupo EMS Sigma Pharma participa de negociações no Cruzeiro
* Conheça algumas das empresas que investem pesado em jogadores


segunda-feira, agosto 04, 2008

Quarteirões do Jazz - Belo Horizonte


Quando dois ou três iniciantes no jazz sentam para botar as histórias e os novos acordes em dia, não faltam suspiros. Todos, sem exceção, reclamam saudosamente de não ter mais aquelas jam session de antigamente, de não existir mais grandes quintetos como os de Miles Davis – com direito a Herbie Hancock, ao piano; Wayne Shorter, ao sax Ron Carter, ao baixo; e Tony Willians, à bateria – e de, ao caminhar pelas ruas, não correr mais o risco de tropeçar em um Charlie Parker, um Chet Baker ou em uma Billie Holiday, à beira de uma overdose de heroína.

No entanto, quem mora em BH tem tido pouco a reclamar. É possível, até com pouca grana, assistir apresentações de primeira, para New Orleans nenhuma botar defeito. O reduto principal é o Conservatório Music Bar. Às terças, instrumentistas conhecidos por aqui e pelo resto do mundo se reunem no estreito palco para um repertório que vai de risos e improvisos a clássicos do fusion e do cool jazz.

Outras boas opções são as cafeterias, que parecem ter cansado das seleções automáticas dos leitores de .mp3 e voltado a apostar nos bons e velhos quartetos e quintetos. Entre as casas estão: o Café do cinema Belas Artes, às quintas, o Café com Letras, aos sábados, além de apresentações periódicas no Status, no Café do Sol e no Bar Marquês.

Pode ser que, daqui uns 50 anos, dois ou três iniciantes no jazz sentem para botar as histórias e os novos acordes em dia e, com suspiros, reclamem saudosamente de não existir mais jam session como aquelas com Neném e Beto Lopes, bons grupos como o All Star Jazz Band e de, ao caminharem pelas ruas de BH, não encontrarem cafeterias e barzinhos ao som de Chico Amaral, ao sax, Enéias Xavier, ao baixo, e Magno Alexandre, à guitarra.

Confira os bares

Conservatório Music Bar – Rua Timbiras, 2041 - Lourdes: (31) 3213-8375

Café com Letras – Rua Antônio de Albuquerque, 781 - tel: (31)3225-9973

Café Status – R. Pernambuco, 1150 - tel: (31) 3261-6045

Café do Sol – Av. Contorno, 3301 - Santa Efigênia (31) 3463-8989

Bar Marquês – Marquês de Maricá, 56 - Sto. Antônio (31) 3293-8256

* A programação das apresentações de Jazz, em agosto, em BH, você confere no Clube do Jazz.

Fique por dentro

Agosto começou com os ouvidos afinados. A sexta edição do Savassi Festival – Jazz e Lounge agradou novamente o público, que lotou os quarteirões próximos à praça do bairro. O destaque ficou por conta do encerramento com Toninho Horta e um dos bons momentos foi a apresentação do simpático quarteto dinamarquês Engstfeld-Weiss Quartet. Ainda falta ao público um pouco mais de ligação com a música, para que o festival não se transforme em quase uma festa rave, como aconteceu próximo ao palco Tim, em frente ao Café com Letras.

segunda-feira, junho 30, 2008

Menos Bandit e mais Langlois!


por Renan Damasceno
especial para o Cinema em Cena
*

Há milhares de clichês tentadoramente românticos esperando para serem usados quando o assunto é Maio de 1968: liberdade, revolução e utopia são palavras quase obrigatórias em reportagens e artigos sobre a mobilização dos estudantes franceses no final da década de 1960. Quarenta anos depois – com o tamanho do biquíni menor e o legado do consumo de drogas infinitamente maior –, os protestos daquele ano são constantemente lembrados e retomados como um alerta à passividade da juventude deste início de milênio. Liberdade, revolução e utopias à parte, é difícil responder se o sonho acabou ou não. E o pior: parafraseando Ivan Lessa, em quatro décadas, nem os próprios franceses decidiram se Maio de 1968 foi bom ou ruim.

* Leia o artigo na integra:

Menos Bandit e mais Langlois

segunda-feira, junho 23, 2008

Durango Kid à brasileira

De uísque em uísque, o cantor Waldick Soriano, de 75 anos e incríveis 18 ‘casamentos’, se tornou o protagonista cult da noite de sábado do CineOP. Compositor de mais de 700 canções, Waldick é uma mistura de presente e passado, de fragilidade e solidão, sob à penumbra da idade e de seu inseparável chapéu.

A principal noite do CineOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto) parece ter virado um bom terreno para personalidades que se aventuram a sentar na cadeira de diretor. Em 2007, a Vj Marina Person (MTV) usou o mesmo espaço para lançar Person, uma homenagem a seu pai, o cineasta Luis Sérgio Person, diretor de São Paulo S.A (1965). Este ano foi a vez da atriz Patrícia Pillar, que mostra seu primeiro trabalho atrás das câmeras com “Waldick: Sempre no meu coração”, sobre a história e as histórias do cantor brega Waldick Soriano, já com 75 anos.

Considerando as primeiras incursões em direção de cinema, Patrícia Pillar se saiu melhor. Desconstruiu o perfil machão de Waldick, não deixou o roteiro cair em um simples biografismo e usou o tempo a seu favor: em 58 minutos de filme, foi capaz de dosar o sentimentalismo quase inexistente do cantor com seu excesso de sarcasmo e mau humor.

O filme já começa com algumas evocações ao tempo. Waldick volta a sua terra (Caitité, BA) natal para um show. Nas primeiras cenas, a câmera percorre detalhes do cantor e de objetos que dão pistas sobre sua forte personalidade: o terço, o anel, o chapéu. Os planos das estradas, das ruas e da chuva são sempre mais longos. Outra característica: ao contrário de documentaristas viciados, que teimam em dar grandiosidade ao seu personagem, Patrícia coloca a câmera sempre em linha reta. Desta forma, se põe a desmistificar seu protagonista, dando-lhe ares mais humanos.

Os depoimentos de ex-mulheres de Waldick são de grande emoção. No total, foram 18 mulheres e apenas uma paixão: uma ex-prostituta paraense, que morreu quando o casal completava apenas dois meses. E o espantoso: mesmo com as queixas de amor não retribuído todas ainda são apaixonadas pelo cantor e o aceitariam de novo.

Por fim, o documentário se presta a divulgar não só o personagem, mas toda a cultura marginal brasileira. Vários cantores populares sofreram com a censura nos anos de chumbo e muitos, mesmo com músicas que a princípio pareciam inofensivas, eram politizados e não escondiam sua opção pela democracia. Waldick foi mais brasileiro que muita gente da nossa “cultura popular brasileira”. Foi lavrador, garimpeiro, engraxate e se apaixonou, à primeira vista, ao ver o chapéu e a imponência do personagem Durango Kid nos cinemas. Sob o mesmo chapéu, hoje, Waldick é uma mistura de presente e passado, de fragilidade e solidão.

Leia mais sobre:

Revista Cinética – É tudo verdade

Filmes Polvo comenta estréia de Waldick

Veja cenas do documentário Waldick: para sempre no meu coração

Fique por dentro:

A Mostra de Cinema de Ouro Preto (12 à 17 de junho) chegou à sua terceira edição ainda sem a chancela de grande festival. No entanto, a programação foi bem mais acertada do que a de 2007, que homenageou Nelson Pereira dos Santos. Desta vez, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla foram as personalidades lembradas. Além de "Waldick", de Patrícia Pillar, a mostra abriu espaço para outras estréias, como "Diário de Sintra", de Paloma Rocha (filha de Glauber), e "Os desafinados", ficção de Walter Lima Junior, em comemoração dos 50 anos da Bossa Nova.