sábado, agosto 29, 2009

O Vaudeville de Madame Carling


A grata surpresa da noite de sexta-feira (28.08) do Jazz festival Brasil, em Belo Horizonte, foi a explosão contagiante da multi-instrumentista sueca Gunhild Carling, que tomou de assalto o público que lotou o Grande Teatro do Palácio das Artes para assistir outra apresentação - da banda Jazz 6, que tem o escritor Luis Fernando Veríssimo ao saxofone.

O rendez-vous causado por Carling não permitiu que nenhuma vivalma saísse do espatáculo sem um sorriso largo no rosto. A sueca cantou, sapateou e tocou de trombone à gaita-de-fole, culminando na exibição com três trumpetes ao mesmo tempo.

E o que espanta não é apenas o jeito "circense" de Carling se apresentar: sua capacidade em tirar dos instrumentos de sopro uma sonoridade jazzística sofisticada, sua voz arrastada e suave, prolongando as vogais tônicas, e a qualidade técnica de seus três acompanhantes (guitarra acústica, baixo e bateria) são apenas alguns dos motivos pelos quais o show da noite desta sexta foi um dos mais aclados da 7ª edição do Jazz Festival.


Abaixo, a apresentação de Gunhild Carling no Programa do Jô (28/08/09) e, no outro vídeo, um resumo de sua versatilidade:



sexta-feira, agosto 28, 2009

100 anos de Benny Goodman


A alcunha de “Rei do Swing” aplicada ao clarinetista Benny Goodman (1909-1986) pode ser contestada pelos críticos mais ortodoxos, mas suas façanhas não merecem nomenclatura menos majestosa. Embora precedido por músicos como Fletcher Henderson e Bix Beiderbecke, que já rascunhavam o swing (o gênero, não a troca de casais), ainda na década de 1920, coube a Benny transformar o estilo na mais bem sucedida época da história do jazz.

Caracterizado pelas big bands e pelas músicas menos complexas, rítmico e harmonicamente falando, do que o jazz moderno, o swing da década de 1930 é o único momento em que jazz e música popular americana viraram quase a mesma coisa.

Tal popularidade iniciou “por acaso” no fim de uma desastrosa turnê pelos Estados Unidos. À beira da desistência por causa da péssima receptividade ao estilo, Benny resolveu fazer suas últimas apresentações de clarinete erguido na Califórnia – mesmo que isso pudesse lhe render uma chuva de vaias e de copos de cerveja arremessados ao palco. Porém, não esperava ser recebido tão calorosamente pelo público formado predominantemente por jovens da West Coast. Não demorou muito para o estouro correr pelo país e culminar, em 1938, na primeira apresentação de jazz no Carnegie Hall, o templo da música de Nova York.

Uma constatação: as fãs histéricas não nasceram com o rock e, da mesma forma que o blues originou o jazz e depois o rock’n roll, Benny Goodman é uma espécie de Elvis ou Beatles da pré-história.

Bom moço, Goodman era o filho que toda nação queria ter. Da sua ascensão até o início da década de
1940, era a imagem perfeita para os Estados Unidos divulgar para o mundo sua cultura e, pouca gente lembra hoje, que ele foi nos Anos 30 um dos nomes mais populares e queridos da América. Em suas apresentações mundo a fora, não admitia que seus músicos tocassem mal vestidos e era tecnicamente exigentíssimo, tanto que, quando ouvia alguma nota fora do compasso, lançava o fulminante “olhar de raio”, que significava carta de demissão no dia seguinte.

Em uma das fases mais conturbadas na luta pela igualdade racial nos Estados Unidos – briga que se estendia ao ainda dividido mundo do jazz –, Benny foi o primeiro bandleader que colocou negros, brancos, amarelos e azuis tocando junto. A opção anti-racista pode ser reflexos em sua infância que ele mesmo não gostava muito de revelar: era filho de imigrantes judeus, refugiados da Primeira Guerra.

Se estivesse vivo – pelo menos o está nos mais de 30 discos que deixou –, Benny Goodman completaria 100 anos em 2009. Mesmo que as homenagens no mundo do jazz tenham o deixado um pouco de lado, o clarinetista é o nome celebrado na 7ª edição do Jazz Festival Brasil, que passa por Belo Horizonte neste fim de semana. É uma oportunidade de ouvir de grupos influenciados por Goodman a releitura de clássicos como Sing Sing Sing e tantas outras imortalizadas pelo clarinete do incontestável “Rei do Swing”.

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quarta-feira, agosto 19, 2009

Tudo é Jazz!


1959 foi um grande ano para o Jazz. À beira de sucumbir diante do eletrificado Rock'n Roll, que há quatro anos ganhava espaço nas vitrolas com a guitarra de Chuck Berry, o estilo provou seu poder de reinvenção e deu ao mundo dois incríveis presentes naquele ano. Por conta de Miles Davis, que já transitara do bebop ao modal sem perder a compostura, os descrentes foram tomados de assalto com o lançamento de Kind of Blue, gravado entre março e abril.

Para entender o motivo pelo qual este é considerado o maior álbum de jazz de todos os tempos, basta ver a formação do sexteto: Miles, Coltrane e Adderley aos sopros, Jimmy Cobb à bateria, Paul Chambers ao baixo e Bill Evans ao piano (este último, o 'mentor' do álbum, embora Miles assine sozinho todas as faixas).

Companheiro de Miles no naipe de sopros de Kind of Blue, John Coltrane ainda teve fôlego para criar em 1959 todas as faixas de Giant Steps, o último suspiro do Bebop – afinal, como anunciava o disco seguinte de Trane, já se sentia "ecos de uma nova era" no ar poluído dos guetos da América.

Fôlego e disposição, aliás, não faltavam aos dois, pois, ainda em 1959, Davis criou e gravou em apenas uma noite a trilha sonora de "Ascensor para o Cadafalso", do Louis Malle, enquanto Trane finalizava Echoes Of An Era e juntava forças para compor e executar My Favorite Things, lançado no ano seguinte.

Entretanto, como a tragédia é um clichê tentadoramente romântico no mundo do jazz, 1959 teve sua dose de tristeza, causada por outras doses (de heroína) injetadas na veia de Billie Holliday. A cantora dispensa maiores apresentações, pois as hipérboles que frequentemente acompanham sua biografia são incapazes de mensurar os hectolitros de conhaque que Lady Day entornou em menos de cinco décadas.

Entre tantas homenagens de cinquentenário, o Festival Tudo é Jazz deste ano, em Ouro Preto (programação ao lado), escolheu celebrar a falta que Billie nos faz, com show de Madeleine Peyroux, considerada a sucessora de Lady Day, em razão do timbre ligeiramente semelhante. Peyroux, que começou sua carreira interpretando canções outrora imortalizada por grandes divas como Ella Fitzgerald e Bessie Smith, será acompanhada por nomes importantes do gênero, como o baixista Ron Carter, que na última edição se apresentou ao lado de Milton Nascimento (veja a cobertura do blog em 2008 aqui).

Atrações – O Festival Tudo é Jazz é um dos eventos imperdíveis deste segundo semestre. Aos fãs mineiros do gênero não faltam atrações. Entre 27 e 30 de agosto, Belo Horizonte recebe a sétima edição do Jazz Festival Brasil. Uma semana depois é a vez do já tradicional Festival de Jazz da Savassi. Para quem gosta de cinema, o Cine Humberto Mauro apresenta a mostra "Jazz no Cinema", com películas que tiveram sua trilha sonora assinada por nomes como Duke Ellington, Charles Mingus e Miles Davis. Além das cafeterias e bares que tem o Jazz como ingrediente especial no cardápio (confira alguns aqui).

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Entrando no clima dos festivais, o MOVIOLA também está de cara nova. Aproveitando a extensa programação dos próximos meses, o blog irá se dedicar mais ao assunto, sem se esquecer de outros bens e males que nos afligem – sem tocar no nome do Sarney, restos mortais de Michael Jackson e Lina Vieira, claro.

Enfim, espero que o novo layout tenha agradado!

segunda-feira, agosto 03, 2009

Kubrick e o futebol


Segundo o mapa-mundi azul e amarelo no canto esquerdo da tela, cerca de 25 internautas visitam o Moviola diariamente. Número baixo comparado ao estrelado da blogosfera, porém espichado diante da falta de atualização e divulgação desta página. Nada mal. No entanto, minha popularidade cai por terra quando abro minha conta do Google Analytics - serviço de estatísticas de pageviews gratuito - e descubro que, pelo menos metade destes flaneurs digitais, chegam até aqui através de combinações estranhas e desconexas de palavras lançadas ao Google.

O programa de buscas, segundo estatísticas, registra em torno de 23 mil procuras por segundo. no mundo inteiro Meu blogue, desde seu primeiro post, em 2005, abriga 116 extensos textos, com uma infindável gama de palavras. Isso quer dizer que abocanho uma dízima irrisória dos perdidos no espaço cibernético.

A palavra-chave que mais remeteu internautas ao meu endereço no último ano foi "Kubrick Futebol", assim mesmo, as duas juntas, colocando lado a lado, no ataque do Moviola, o aclamado diretor e o centenário esporte bretão.

Certamente, a ligação mais próxima entre os dois é o termo Laranja Mecânica, título da adaptação para o cinema do romance homônimo de Anthony Burgess feito por Kubrick, em 1971, empregado na mesma década para rotular a seleção holandesa, comandada pelo maestro Cruijff. No futebol, a seleção flamenga revolucionou ao implantar um esquema tático que atacava e defendia em bloco, trocando passes em grande velocidade. No cinema, Clorkwork Orange talvez ainda seja a representação máxima das películas de ultraviolência.

Neste blog, as duas palavras se misturam na crítica que escrevi sobre a filmografia do diretor para o Delphos, em 2006 (partes I, II, III). Cruijff, sem os outros 10 da imbatível seleção holandesa de 1974, é citado na matéria sobre atletas que se aventuraram nos palcos depois de pendurar as chuteiras. O exímio dote vocal de Cruijff é comparado a de outros gênios da música mundial, como Pelé, Marcelinho Carioca e Maguila.


segunda-feira, julho 20, 2009

Woodstock à mineira

Está no Estado de Minas de hoje, 20/07/2009:

Por mais que os protagonistas neguem, um novo Clube da Esquina pode estar vindo à cena, mais especificamente em Três Pontas, onde Milton Nascimento e Wagner Tiso acabam de gravar as bases do novo disco de inéditas (com algumas regravações) de Milton, sob a produção de Tiso, com direito a participação do gr
upo Ânima Minas e dos cantores, compositores e instrumentistas Heitor Branquinho, Fernando Marchetti, Ismael Tiso, Adriano Kamizaki e André Duarte, entre os cerca de 20 jovens artistas três-pontanos, praticamente desconhecidos, que vão participar do projeto.

Terra natal de Bituca e Wagner, que, em Belo Horizonte, se juntaram aos descendentes das famílias Borges, Brant, Guedes e Horta para escreverem um capítulo à parte da música popular brasileira, a cidade de 55 mil habitantes, no Sul de Minas, vive hoje um momento de intensa atividade artístico-cultural.

A presença dos filhos ilustres parece ter sido o gancho que faltava para a reedição do lendário festival de música que, naquelas plagas, ficou conhecido como o Woodstock mineiro. De 10 a 13 de setembro, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Jon Anderson (ele mesmo, o vocalista do Yes), Toninho Horta, Ivan Lins, Jorge Vercilo, Tom Zé, Ricardo Herz, Didier Lockwood, Wilson Sideral e outras prováveis atrações vão reviver aquela histórica tarde-noite-madrugada de 30 e 31 de julho de 1977, que conseguiu levar milhares de pessoas para o meio do pasto da Fazenda Paraíso.


Lá, se apresentaram para o delírio da plateia formada de três-pontanos e forasteiros de toda parte Milton Nascimento, Chico Buarque, Fafá de Belém, Clementina de Jesus, Francis Hime, Gonzaguinha, grupo Azimuth e outros convidados. “A coisa mais bonita daquilo tudo foram as pessoas que chegaram numa boa, sem cobrar nada, e cantaram em um dos morros mais bonitos da cidade”, recor
da Bituca.

Agora intitulado Festival Música do Mundo, o megaevento que será realizado em vários locais de Três Pontas, em setembro, poderá vir a integrar o calendário cultural da cidade. “Além de uma paisagem belíssima, somos um povo altamente musical”, diz Wagner Tiso. Em 1977, Tiso apresentou apenas uma música, já que tinha compromisso acertado com Gal Costa, que estava em turnê pelo Brasil.


O show maior da nova edição do chamado Woodstock mineiro será realizado no sábado (12 de setembro), no parque multiuso que a prefeitura da cidade está construindo em homenagem a Wagner Tiso, na Rodovia Três Pontas, na localidade conhecida como Vila Boa Vista.


Segundo Maurinho Bueno, coordenador de programação da Secretaria Municipal de Cultura, Lazer e Turismo, que também preside o Centro Cultural Milton Nascimento, a Prefeitura de Três Pontas vai se responsabilizar pela logística, cabendo à Marola Produções, da jornalista Maria Dolores, autora da biografia Travessia – A vida de Milton Nascimento, a produção do festival.

Dez shows, além de apresentações paralelas em oito bares, fanfarras e folias de reis, uma tradição à parte da cidade, estão na agenda. Na biografia de Milton, a jornalista mineira dedica três páginas ao célebre festival, lembrando que Três Pontas, então com 37 mil habitantes, viu a população praticamente dobrar naquele dia. Apesar da praga rogada pelos opositores, segundo ela, a festa foi um sucesso, com direito a chá de cogumelo, maconha e a bebidas, tão comuns aos remanescentes do movimento hippie que correram para a cidade.

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Programação - O Mundo de Tati

sexta-feira, julho 17, 2009

50 anos sem Billie Holiday



por Ruy Casto, na Folha de 15/07/2008:

Em 1948, o baiano Jorge Cravo, Cravinho, 21 anos, relapso estudante de administração em Nova York, não saía do cinema. Não pelos filmes, de que não queria nem saber, mas pelos minishows de palco que os cinemas apresentavam entre as sessões – cinco ou seis por dia, estrelando um grande cantor ou orquestra.


Com um único ingresso, Cravinho assistia ao primeiro show, via o filme uma vez, assistia ao segundo show, dormia na sessão seguinte, assistia ao terceiro show, ia namorar a garota da bombonière durante mais uma sessão e assim por diante. E quem se apresentava nos cinemas? Frank Sinatra, Duke Ellington, Billy Eckstine, Tommy Dorsey, Nat King Cole etc. Certo dia, foi a vez de Billie Holiday.

Ao fim do último show de Billie, o emocionado Cravinho postou-se nos fundos do cinema e a viu sair, linda, de vestido justo e gardênia no cabelo. Seguiu-a até um botequim, entrou também e sentou-se ao balcão, a um ou dois banquinhos da deusa. Mas respeitou sua solidão e não a importunou.

Dois anos depois, de volta ao Brasil, Cravinho escreveu-lhe uma carta, aos cuidados da Decca, sua gravadora, convidando-a a cantar na Bahia. Para sua surpresa, Billie respondeu, autorizando-o a falar com um brasileiro amigo dela, chamado Guinle (Jorginho, claro), a respeito disso. Mas nada resultou, e a própria carta se perdeu.

Passaram-se séculos e, nos anos 80, Cravinho vendeu sua fabulosa coleção de LPs de cantores de jazz para um americano. E pode-se imaginar a surpresa deste ao abrir um LP de Billie Holiday e ver cair uma carta da cantora, dirigida a seu fã brasileiro, o qual só depois se lembrou de que a guardara dentro de um disco.

Nesta sexta-feira, são 50 anos da morte de Billie. Foi uma morte anunciada, mas Cravinho e o mundo até hoje não se refizeram.


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sábado, junho 27, 2009

As melhores capas sobre a morte de Michael Jackson

Como tudo sobre a vida e a morte do asto Michael Jackson foi esmiuçado pela imprensa nestes últimos dois dias – destaque para o tempo recorde dos sites a publicação do obituário do gênio –, tentei escapar do mais do mesmo: selecionei as melhores capas de jornais que destacaram nesta sexta-feira (26) e sábado (27) a morte de Michael.

Com ajuda do Newseum, selecionei entre mais de 700 capas de diários do mundo as melhores imagens e textos sobre Jackson. À excessão de publicações de asuntos mais segmentadas, o rei do pop figurou na primeira página de TODOS os jornais – uma justa homenagem. (Clique na imagem para ampliar)


































1 - Correio - Salvador (Brasil)
2 - Post Tribune – Chesterton (EUA)
3 - Apple Daily – Taipei (Taiwan)
4 - Diário de Pernambuco - Recife (Brasil)
5 - Star - Ventura (EUA)
6 - Estado de Minas – BH (Brasil)
7 - The Telegraphy – Georgia (EUA)
8 - The West Australian – Perth (Austrália)
9 - Hot Parool – Amsterdã (Holanda)
10 - Aftonbladet - Estocolmo (Suécia)

terça-feira, junho 23, 2009

Frase...

"A internet é o fast-food da informação. É feita para quem quer atalho, poupar tempo, conclusões rápidas, prontas e empacotadas. Quem se informa pela internet, de modo assim estreito e limitado, pode ser muito bem sucedido, ganhar muito dinheiro, mas não terá uma visão ampla do mundo. Para piorar, surgiram os blogs com blogueiros desqualificados, que apenas divulgam fofoca. São como uma torcida em um jogo de futebol que fica o tempo todo gritando para os jogadores, para o juiz. É gente que não apura nada, só faz barulho"

Gay Talese, jornalista e escritor americano, à Veja, em 17/06/2009.


sexta-feira, junho 19, 2009

Fim de Semana – Sobre queijos, fomes e digestões


Por João Marcos Veiga*

Novos aromas desenham no ar um cheiro de mudança ou, ao menos, de recomeço. Há pouco mais de um ano, o queijo – esse âmago, essa quintessência da mineiridade – foi elevado ao status de patrimônio cultural imaterial do estado. Durante a Expocachaça foi anunciado que, enfim, temos o dia da branquinha. No mês passado, a empresa Forno de Minas, um dos símbolos de nossa pedra filosofal, o pão-de-queijo, deixou de pertencer à insaciável e indigesta economia americana para retornar, depois de dez anos, à família mineira.

Mesa posta para indagar: o Brasil, sintetizado em Minas, continua se contentando com enlatados queimados em microondas ou, de tanto comer cru, começa a achar sua receita no lixo de uma digestão cultural inconstante?

Do lixo surgem alguns instrumentos do liquidificador do Graveola. Num movimento centrípeto, pop, soul, bossa nova, brega e experimentalismo trocam sabores. De um caldo polifônico surge, em vertigem centrífuga, um cheiro de novidade. Ao expor corajosamente suas fontes de inspiração, abrem-se novos canais de escoamento para nossas infinitas – enquanto lutem, posto que há a lama – criações musicais em constante antropofagia.

Em recente artigo, Arnaldo Jabor (aquele que Nelson Rodrigues se referia como o jovem que chupava sorvete em plena Marcha dos 100 mil) declarou que, de tanto o Brasil fazer antropofagia de outras culturas, já estamos em processo de indigestão. Recentemente descobri que a manga não é nossa (Mangifera indica) e que nosso único instrumento genuíno é a ... cuíca.

Enfim, o que é nosso? Nossa é essa sede que seca nossas gargantas roucas; nossa é essa fome que consome nossas estéticas glauberianas que não se rendem. Não somos o pulmão e tampouco as chuteiras do mundo, somos seu estômago. De canibais do século dezesseis, passamos a antropofágicos do século XX para chegar à regurgitofagia da transição de séculos.

A comida está para a criação assim como a culinária está para a cultura de um país. Assim, temperos somente ganham autêntico gosto quando celebram-se os próprios pratos. Apesar da exploração midiática, os cinqüenta anos de Bossa Nova e Cinema Novo e os cem anos do samba são sinais de que não vivemos tanto na solidão e num ensaio eterno de uma cegueira cultural.

Mas os guardiões do limiar estão sempre a postos (lembram da marcha contra a guitarra elétrica?): como explicar a inicial rejeição, tal qual uma criança relutando a comer verduras, ao Transamba de Caetano? Com um rock minimalista em compasso com o samba tal qual queijo e goiabada, o tropicalista reafirma o que todos insistem em não ver desde o “Transa”: a essência está na mudança. Ao cantar o falso Leblon e sentenciar que a Lapa é a síntese do Brasil, Caetano deixa de falar que ele sim é a síntese do Brasil.

O problema, como diria Elis, é que o Brazil não conhece o Brasil. Como dizia Manoel, a única solução, então, é dançar um tango argentino. Quer dizer, como diria aquele de Budapeste, o melhor é botar água no feijão, pois desde Cabral estamos com uma fome e uma sede de anteontem.

*João Marcos VEIGA, 23, é jornalista. Editor do programa Microfonia, da PUCTV
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Prato do dia: Dizzy com Mocotó


Está na Folha de S. Paulo, de 18/06/2009

Gravações do jazzista americano com o trio de sambistas, perdidas desde os anos 70, são redescobertas e sairão em CD Álbum foi feito em estúdio de São Paulo, em 1974, durante turnê de Dizzy Gillespie pelo Brasil, e ficou sumido até o início de 2009

Um inédito encontro da música brasileira com o jazz está prestes a chegar ao público. Em 1974, durante uma turnê pela América do Sul, o trompetista norte-americano Dizzy Gillespie (1917-1993), um dos fundadores do jazz moderno, fez gravações com o Trio Mocotó e outros músicos brasileiros, material até hoje nunca lançado.

"Esse disco já tinha virado lenda", diz João Parahyba, 57, percussionista do trio que divide com Jorge Ben os méritos pela criação e difusão do samba-rock. "Tocamos com o Dizzy, mas até hoje não tínhamos prova alguma. Com o lançamento deste disco, o Trio Mocotó passa a fazer parte da história do jazz norte-americano", festeja o músico paulista.

Parahyba conta que o próprio Gillespie já havia se esquecido dessas gravações, quando o reencontrou, em 1987, num festival de jazz, em Estocolmo. "Ele me disse que só se lembrava da empatia que sentiu ao tocar com o Mocotó. O Dizzy gostava de músicos que tocavam mais à vontade, tinha pouco a ver com catedráticos".

De lá para cá, Parahyba fez o que pôde para localizar a fita master que o jazzista teria levado para os Estados Unidos. Só em janeiro último teve acesso a trechos do álbum, depois de receber um e-mail do produtor suíço Jacques Muyal, pedindo que o ajudasse a encontrar os músicos que participaram das sessões de gravação, no estúdio Eldorado, em São Paulo.

Amigo de Gillespie e diretor do selo Laser Swing, Muyal disse ao percussionista que virá ao Brasil, em julho, para tomar as providências necessárias para que o disco possa enfim chegar ao mercado.

"Quase chorei", diz Parahyba, lembrando de sua emoção ao ouvir trechos do disco perdido, 35 anos depois. "Acho que conseguimos juntar a essência do jazz do Dizzy com a essência da música brasileira", avalia, ressaltando a participação do pianista Amilson Godoy, como regente das gravações.

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terça-feira, maio 19, 2009

Borges vai ao cinema


Antes de dirigir os dois filmes que o colocaram na linha de frente da Nouvelle Vague – Hiroshima, meu amor, 1959, e Ano Passado em Marienbad, 1961 –, Alain Resnais se dedicou à documentação em curta-metragem. Os cinco principais, reunidos na Mostra dedicada à sua carreira, no Cine Humberto Mauro, já bastariam para coroá-lo como um dos mais inventivos e contestadores estéticos do cinema, afirmação endossada por André Bazin, que cita Gérnica (1950) em sua obra “Pintura e cinema”.

Nos três primeiros anos da década de 1950, Resnais se dedicou à bela obra anti-racista e anti-colonialista “As estátuas também morrem” (1953), sobre as artes negras e, dois anos mais tarde, atinge a maturidade em Noite e Nevoeiro (1955), que caminha pelos campos de concentração nazistas. Os travellings do diretor nos faz passear pelos pavilhões abandonados, sob o céu rosa de outono, mescladas às cenas de arquivo monstruosas, do regime hitleriano, para Ahmadinejad nenhum duvidar.

Na década anterior, na Argentina, Jorge Luis Borges, passava seus dias entre a Biblioteca Nacional, na qual seria bibliotecário nos anos seguintes, e as famosas leiterias, tradicionais na Buenos Aires da primeira metade do século – a única que Borges recorda, uma vez que perdeu a visão prograssivamente, deficiência que o obrigou a dedicar-se unicamente aos poemas.


Apreciando as infinitas estantes, com inúmeras prateleiras e incontáveis obras de Stevenson, Quevedo, Ibsen e várias edições de Dom Quixote e As Mil e uma Noites – alguns de seus autores e obras preferidos –, Borges imaginou a Biblioteca de Babel (Ficciones, Mar del Plate, 1941), um universo com galerias em formato hexagonal, talvez sem fim. “A Biblioteca é uma esfera, cujo centro cabal é qualquer hexagono, cujo a circunferência é inacessível”.


Em minha curta experiência cinematográfica – ainda menor literária –, sempre imaginei como a grandiosidade e a imaginação criativa e visionária de Borges poderia ser traduzida para o cinema. Seria mais cabível em uma ficção, mas fui encontrá-lo, na primeira poltrona do cinema, no documentário Toda a memória do mundo, dirigido por Resnais, 1956, sobre a rotina de classificação e preservação dos livros na Biblioteca Nacional de Paris. E nada mais borgeano, que o prefácio preparado para a exibição: “De corredor em corredor, de livro em livro, desdobra-se o labirinto”.

Como na obra Borges, as artes também se bifurcam.

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quinta-feira, maio 14, 2009

Ciclo Alain Resnais - Programação


CLIQUE AQUI PARA VER A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DA MOSTRA
CLIQUE AQUI PARA CONFERIR AS SINOPSES COMPLETAS DA MOSTRA

sexta-feira, maio 08, 2009

Assessoria...

O artigo "100 dias em 10 capas", uma leitura dos primeiros 100 dias do governo Obama a partir de 10 capas de três revistas americanas, publicado mês passado no Moviola, está na capa do respeitado site Observatório da Imprensa desta semana. Para conferir, clique aqui. O artigo também foi publicado no site do jornalista Leo Quintino, neste link aqui. E no Jornal dos Lagos, de Alfenas, bem aqui.

quinta-feira, maio 07, 2009

Afinal, o que é MPB?


Está na coluna de Ruy Castro, na Folha de São Paulo de 27/04/2009:

MPB não é apenas uma abreviatura de “Música Popular Brasileira”. Antes cêsse, mas não ésse. Quando foi criada, por volta de 1965 ou 1966, significava um tipo de música então emergente, que não se sabia bem o que era – mas já não era bossa nova, não queria mais ser o samba e, muito menos, iê-iê-iê.

Seu primeiro produto, ainda sem o rótulo, pode ter sido ‘Arrastão’, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Logo vieram ‘Lunik 9’, de Gilberto Gil, ‘Upa, neguinho’, de Edu e Guarnieri, ‘Roda Viva’, de Chico Buarque, e outras que, com um certo ‘conteúdo’ em comum, também não se encaixavam em nenhum gênero familiar. Donde só podiam ser ‘MPB’.

Quando a ‘MPB’ minguou, dois ou três anos depois, a sigla sobreviveu e começou a ser aplicada – até hoje – a toda música produzida no Brasil, do padre José Mauricio ao padre Marcelo e de Chiquinha Gonzaga ao É o Tchan. Com isso, deseducaram-se várias gerações quanto à memória da nossa diversidade rítmica, até então classificada por sambas (em suas mil variações), marchas, choros, baiões, frevos, valsas, foxes, baladas, cocos etc. Virou tudo ‘MPB’.

Mas não para sempre, espero. Se o exemplo do MIS vingar, vamos passar a chamar ‘Garota de Ipanema’ de samba, ‘Alegria, Alegria’, de marchinha, ‘Domingo no Parque’, de baião, ‘Travessia’, de toada, ‘Caminhando’, de guarânia, ‘Mania de Você’, de rumba, ‘Beatriz’, de valsa, ou ‘Como uma Onda’, de bolero. Que, muito mais que ‘MPB’, é o que eles são.

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terça-feira, maio 05, 2009

Documentário brasileiro do Século XXI


O Cine Humberto Mauro, do Palácio das Artes (BH), apresenta, entre 4 e 12 de maio, a mostra Documentários de Busca. Foram escolhidos quatro documentários que marcaram o amadurecimento no Brasil, no início do século XXI, de uma forte tendência do documentarismo mundial, onde o universo pessoal do realizador assume papel de destaque.

Os filmes: Um Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut, registra os processos burocráticos para conquista de um passaporte da mesma nacionalidade de seus avós. Em 33, nos tornamos detetives junto ao realizador Kiko Goiffman, na busca de encontrar sua mãe biológica, que dura exatos trinta e três dias. Já em Edifício Master e O Prisioneiro da Grade de Ferro, o olhar se desloca, a motivação da busca está no outro. Enquanto no primeiro os moradores da famosa residência carioca estão em foco, o segundo revela uma rotina incessante, conformando uma imagem múltipla do presídio, construída pelos próprios detentos.

Está no Estado de Minas de ontem, 04/05/2009:


A TRADIÇÃO CINEMATOGRÁFICA apresenta documentário e ficção como compartimentos estanques – o primeiro comprometido com o registro do real, a última voltada para a criação de uma nova realidade ou, no máximo, a reconstituição de uma realidade que deixou de existir. Os pesquisadores de cinema, contudo, afirmam que a distinção entre as duas categorias é mais nebulosa do que gostaríamos: todo documentário conteria algum elemento ficcional (mesmo que apenas o fato de que não registra seu objeto, mas o objeto que seu diretor pretende contar ou narrar), enquanto qualquer obra de ficção conteria, em si, algum registro documental (mesmo que apenas o fato de que certas pessoas, em certos momentos, executaram certas ações que resultaram objetivamente naquele filme). A mostra Documentários de busca, que será apresentada no Cine Humberto Mauro (Palácio das Artes) até dia 12, reúne quatro filmes brasileiros que se destacam por testar aquela fronteira.

Duas obras começam a ser exibidas a partir desta segunda-feira: Um passaporte húngaro, de Sandra Kogut (17h30), e 33, de Kiko Goifman (21h). Amanhã, entram em cartaz, também, Edifício Master, de Eduardo Coutinho, e O prisioneiro da grade de ferro, de Paulo Sacramento. Os quatro filmes se alternam na programação ao longo de toda a mostra, o que permite aos espectadores confrontá-los e tentar descobrir por que o Brasil tem sido tão pródigo na produção de obras que levantam aquele questionamento. Parte da explicação está, possivelmente, na exuberância atual do conjunto da produção documentária brasileira, que se destaca não apenas pela diversidade dos objetos que investiga, mas também pela experimentação de novas formas de investigação.

Dos quatro filmes, 33 é o mais radical. O diretor detesta quando alguém menciona o fato de que seu documentário tem afinidade conceitual com reality shows como Big brother Brasil, por registrar uma realidade que foi produzida especialmente para ser documentada. Mas a percepção de tal afinidade é verdadeira, e a qualidade de 33 vem exatamente do fato de que ele concentra, expõe e radicaliza aquilo que os reality shows diluem, disfarçam e suavizam.

Kiko Goifman, adotado na primeira infância, parte em busca de sua mãe biológica, e 33 é o registro dessa busca (o título do filme remete ao número de dias que ele se concedeu para cumprir a tarefa ou desistir dela). Se essa busca é fato do mundo “real” (e, portanto, objeto passível de ser registrado documentalmente), constitui, também, algo próximo da ficção, no sentido de que foi produzido exatamente para que o filme pudesse ser realizado. (Marcelo Castilho Avellar)

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+ Sobre documentários neste blog:
Edifício Master – a solidão no meio da metrópole
Waldick – Durango Kid à brasileira
Leon Hirzsman – Deixa que eu falo
Estamira – O olhar que tudo pode ver e tudo pode revelar

+ da Mostra
Baixe a programação em .pdf

sábado, maio 02, 2009

Propaganda – Ads of the world


Passei quase três horas especulando as propagandas do Ads of the world – o tempo poderia ter sido menor não fosse a demora para carregar o site. A página, que me foi apresentada pela minha namorada, Mari, é um convite aos estudantes de Publicidade (que não é o meu caso e, sim, o dela!) e aos interessados por boas iéias.

No meio de tantas imagens – algumas com boas pitadas de plágio – é possível achar propagandas legais, como a série "Second One", do Terra News, que ilustra o post. Apesar da enxurrada de imagens tratadas no photoshop com frases de efeito no cabeçalho, vale a pena garimpar o site.